Crítica | Homem-Formiga e a Vespa (Com Spoilers)

“Tenho apenas uma pergunta. Quando o Capitão precisou de ajuda, se eu tivesse te pedido, você teria vindo?”

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Quando relembramos o gigantesco cliffhanger deixado pela Marvel Studios em Vingadores: Guerra Infinita, Homem-Formiga e a Vespa associa-se a uma espera completamente diferente a daquela que sequenciaria o bom primeiro filme. Como, no final das contas, o longa-metragem conseguiria justificar a sua existência em um momento tão delicado dentro da cronologia da franquia? Sendo assim, talvez seja um pouquinho frustrante para o público perceber que a obra conecta-se com a conclusão daquele confronto contra Thanos apenas em sua primeira cena pós-créditos, permanecendo como uma aventura bastante contida no resto dela. Isso, porém, termina por ser um ponto positivo, visto que a independência de Homem-Formiga e a Vespa trabalha a favor de sua despretensão geral – quebrada apenas pela cena pós-créditos, que muda completamente o nosso olhar perante o micro-universo estabelecido. De certa forma, apenas o que aconteceu em Capitão América: Guerra Civil impacta um dos motores da obra, situando Scott Lang (Paul Rudd) dentro de sua casa, confinado em consequência de ter quebrado o Tratado de Sokovia ao ajudar o Capitão América, tendo que permanecer, portanto, em prisão domiciliar e renegar qualquer envolvimento em atividades heroicas, visando uma possibilidade de liberdade.

O diálogo de Homem-Formiga e a Vespa com o longa original é, dessa forma, bastante interessante. Em ambos os casos, Scott Lang inicia as suas desventuras pelo mundo real como um mero prisioneiro. O contexto, contudo, é completamente diferente. Apesar de ser extremamente cômico em sua maior parte, um ponto a ser discutido mais para frente no texto, o filme possui um certo envolvimento emocional com o espectador, principalmente na relação criada entre o protagonista e sua filha, interpretada por Abby Ryder Fortson. Alguns dias separam prisão de liberdade, mas o chamado do dever – ou uma variação deturpada disso – é contrário a manutenção de uma rotina comum. O conflito, sendo assim, é bastante vigoroso. No primeiro filme, Scott Lang quer reaver o contato com a sua filha, enquanto nesse, o super-herói, até então um mero ex-presidiário, quer, mais do que tudo, permanecer ao lado de Cassie, parte constante de seu atual cotidiano, apresentado já na fofíssima cena inicial dos dois juntos, que solidifica o interesse do personagem em não se envolver em atividades ilícitas. Percebam que, se não fosse o aval dado por Cassie, Scott não teria ajudado Hank Pym (Michael Douglas) e Hope Van Dyne (Evangeline Lilly), tirando-os de uma delegacia de um modo, novamente, similar ao que acontece primeiro filme.

Em uma segunda instância, o envolvimento de Hope com o longa-metragem em termos narrativos também aproxima-se do envolvimento de Scott, ao passo que ambas as situações discutem sobre família. Enquanto as famílias de Scott Lang – a oficial e a não-oficial – sugerem os fracassos do personagem, tanto em um quesito amoroso quanto em um quesito criminal, tendo se separado de sua esposa Maggie (Judy Greer) no primeiro caso e preso no segundo, falhando em manter-se livre, a discussão no entorno de Hope é sobre a impotência de uma garotinha, que perde, sem mais nem menos, sua mãe e agora tem, finalmente, a possibilidade de reaver-la. A premissa é basicamente o reencontro de pai e filha com a mãe perdida, Janet Van Dyne (Michelle Pfeiffer). A questão é que, ao lado de Hank Pym e Hope Van Dyne, Scott Lang tem a possibilidade de reconquistar uma terceira família para si, perdida momentaneamente quando o personagem decidiu entrar para o crime novamente, mas do lado do Capitão América. Ao mesmo passo, sua segunda família, formada por ex-presidiários, decidiu montar uma empresa de serviços de segurança, tentando se adequar no mercado de trabalho apesar de seu passado. Dessa forma, Homem-Formiga e a Vespa possui ótimas premissas, que poderiam ter originado uma comédia magnífica caso as pretensões fossem ainda menores que as mostradas no filme.

O que acontece com a obra, infelizmente, é o enchimento desnecessário dela. A premissa central já está estabelecida, assim como as sub-tramas, todas capazes de dialogarem entre si. Todavia, a inclusão de uma super-vilã, Fantasma (Hannah John-Kamen), desgasta muito o longa-metragem, tirando-o bastante foco. Homem-Formiga e a Vespa tinha condições plenas de ser o primeiro filme de super-herói da Marvel Studios sem um super-vilão, pois o super-vilão, nesse caso, não é vetor, apenas obstáculo. Sem isso, Fantasma, que tem o alter-ego de Ava Starr e sofre de uma condição bastante peculiar, tornando-a inconstantemente intangível e invisível, conversa apenas com a personalidade moralmente questionável de Hank Pym, extremamente mal resolvida. Para exemplificar esse desinteresse do roteiro em realmente justificar a presença da personagem, percebam como o envolvimento de Pym com o pai dela, Elihas Starr (Michael Cearvaris), é esquecido pela narrativa, apenas contraposto por uma única fala do personagem de Douglas. No final das contas, Hank Pym agiu erroneamente no passado ou não, sendo realmente o egocêntrico que Bill Foster (Laurence Fishburne) tanto comenta? Ao menos, o razoável vilão do filme anterior tinha propósitos narrativos bem definidos, costurando-se com a a trama principal de forma consideravelmente orgânica.

Todavia, o roteiro de Homem-Formiga e a Vespa, responsabilidade de cinco cabeças, até se esforça em atribuir motivações críveis para a antagonista principal do filme, mas a sua presença ainda assim não convence, embora  Hannah John-Kamen esteja bem, transmitindo a sua dor de uma forma verídica. Além disso, parece que, dada a existência da vilã, a problemática existente – salvar Janet Van Dyne ou salvar Ava Starr – sobrevive apenas em decorrência de uma simples falta de conversa, visto que a conclusão do filme desmerece todo o conflito do longa-metragem, possibilitando que Fantasma seja ajudada por Hank Pym e companhia, como é mostrado na cena pós-créditos, embora a mãe de Hope também tenha sido ajudada. O entendimento das motivações da antagonista, assim como as de Bill Foster, revelado em uma reviravolta água com açúcar como aliado de Fantasma, também termina subtraindo muito da ameaça da narrativa, visto que os dois personagens são mais anti-heróis que qualquer coisa. Dessa forma, o outro antagonista da fita, Sonny Burch, interpretado por Walton Goggins, tem a sua presença diminuída, enquanto, em ambientes favoráveis, o ator teria espaço suficiente para encarnar um excelente criminoso ordinário, quase como uma paródia de si mesmo.

Justamente esse teor cômico, que possibilitaria o personagem de Walton Goggins ser a paródia de versões genéricas de vilões como ele, é o responsável por tornar Homem-Formiga e a Vespa uma obra tão deliciosa de acompanhar pelas suas quase duas horas de duração. O ritmo é muito bem calculado pelo diretor Peyton Reed, imprimindo um olhar absurdo sobre os acontecimentos do longa-metragem. Homem-Formiga e a Vespa segue a linha do primeiro filme, retornando os contrastes de tamanho para produzir humor de ótima qualidade. As cenas de ação, por exemplo, apesar de não serem impecáveis, embora possuam computação gráfica de primeira, são impactadas fortemente por esse olhar cômico que Peyton Reed tem para as situações. O diminutivo e o aumentativo, quando expostos em tela, causam um efeito engraçado. A leveza toma conta de Homem-Formiga e a Vespa, pouquíssimas vezes quebrando qualquer carga dramática. No casos de sucesso do tom, a presença de Michael Peña é ainda mais engraçada, mostrando-se excepcional durante uma cena de interrogação que transforma-se em uma piada, recorrente, mas ainda funcional. Já David Dastmalchian, como Kurt, um dos membros da X-Con, relembra a história de Baba Yaga e destrói de rir qualquer espectador. Qualquer um que estiver sob efeito do soro da verdade irá dizer que esse filme é hilário.

Por fim, é notável o protagonismo que Peyton Reed proporciona à Vespa durante as cenas de ação. As habilidades da personagem são formidáveis, um prato cheio para o diretor brincar em cena, ainda mais quando a personagem duela contra Fantasma, também detentora de poderes interessantíssimos. Todavia, a direção empregada não a coloca exatamente como uma das protagonistas do filme, visto que a obra ainda gira, majoritariamente, em torno de Scott Lang, e não de ambos, apesar de Hope ter um papel substancialmente maior que o dado a ela no filme anterior. O relacionamento da filha com a mãe, interpretada pela magnífica Michelle Pfeiffer, é o centro das atenções do início da fita. Quase como um ser sagrado, a personagem retorna de dentro do Reino Quântico – o roteiro escolhe dar a Hank Pym o papel de salvador, invadindo um novo universo, desconhecido até então pelo cientista. No momento em que Homem-Formiga e a Vespa, uma ótima comédia, deveria ter investido em um olhar mais ambicioso sobre o mundo que criou, o Reino Quântico, os realizadores decepcionam, picotando demais as cenas dentro daquele maravilhoso universo, sem permitir o espectador desfrutar dele como poderia. A despretensão de Homem-Formiga e a Vespa trabalha ao seu favor, mas o filme poderia ter diminuindo ainda mais a escala do longa original, abraçando de vez esse diminuto olhar sobre os super-heróis e suas famílias. As risadas, contudo, contam bastante história até lá.

Cenas Pós-Créditos: A primeira cena pós-créditos é essencial para o Universo Cinematográfico Marvel, revelando que Hank Pym, Janet Van Dyne e Hope Van Dyne transformaram-se em cinzas, enquanto Scott Lang ficou preso no Reino Quântico (novamente preso). Já a segunda é engraçada, mas inútil, parte do conjunto nonsense da fita.

“Jamais saberemos. Mas se tivesse, você não teria sido pego.”

Homem-Formiga e a Vespa (Ant-Man and the Wasp) – EUA, 2018
Direção:
 Peyton Reed
Roteiro: Chris McKenna, Erik Sommers, Paul Rudd, Andrew Barrer, Gabriel Ferrari
Elenco: Paul Rudd, Evangeline Lilly, Michael Peña, Michael Douglas, Walton Goggins, Bobby Cannavale, Judy Greer, T.I., David Dastmalchian, Hannah John-Kamen, Abby Ryder Fortson, Randall Park, Michelle Pfeiffer, Laurence Fishburne
Duração: 118 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.