Crítica | Homem-Formiga e a Vespa (Sem Spoilers)

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O 20º filme do Universo Cinematográfico Marvel traz de volta o Homem-Formiga, desta vez acompanhado da Vespa, como a cena pós-créditos do primeiro filme deixou entrever, em uma comédia leve e descompromissada que, porém, nunca chega a decolar de verdade. Ainda é um divertimento perfeitamente dentro do espírito da sub-franquia, mas Peyton Reed na direção e os cinco roteiristas (dentre eles o próprio Paul Rudd) não entregam o frescor que o original tinha, mesmo trabalhando sequências de ações tão diminutas quanto grandiosas.

Se o foco da fita que nos apresentou a Hank Pym (Michael Douglas), Scott Lang (Rudd) e Hope Van Dyne (Evangeline Lilly) era o “filme de roubo”, com a equipe lutando para impedir que Darren Cross (Corey Stoll) usasse as partículas Pym para fins militares, o segundo capítulo é bem mais intimista e poderia ser resumido a um “filme de resgate”. Costurado integralmente a partir do mergulho de Lang no Reino Quântico e tendo as consequências dos eventos de Capitão América: Guerra Civil como pano de fundo, vemos a trinca principal tentando salvar Janet Van Dyne (Michelle Pfeiffer) enquanto enfrentam a misteriosa vilã Fantasma (Hannah John-Kamen), também de alguma forma conectada com a energia quântica, e gangsteres genéricos liderados por Sonny Burch, vivido pelo sempre bom – mas aqui desperdiçado – Walton Goggins, que querem a tecnologia de Pym (de novo!).

Não há firulas e o roteiro trabalha da forma mais simples e objetiva possível, com sua maior vantagem sendo a referida costura a partir do evento quântico do filme anterior (que é ampliado) e usando a parceria que o Homem-Formiga fez com o time do Capitão América para colocar Scott Lang nos últimos três dias de sua prisão domiciliar, algo que é manipulado constantemente e de forma lógica, mas repetitiva, ao longo da projeção. Além disso, há um bom uso da exagerada miniaturização do prédio secreto onde Hank e Hope, agora foragidos por violarem o Acordo de Sokovia (graças à Lang, que revela a tecnologia para o mundo na luta do aeroporto na Alemanha), trabalham freneticamente, transformando essa brincadeira completamente impossível (pensar nos aspectos práticos disso nem vale a pena!) em mais do que apenas um artifício bobinho.

Se a dinâmica entre Hank, Hope e Scott mais uma vez funciona bem, com os atores confortáveis em seus respectivos papeis, valendo destacar a naturalidade de Rudd, sempre dentro do tom, o mesmo não pode ser dito de Luís (Michael Peña), favorito do público, além de seus parceiros Kurt (David Dastmalchian) e Dave (T.I.). O retorno deles e sua inserção na ação parecem forçados e desajeitados, especialmente o de Luís que sofre com a repetição de suas histórias enroladas da mesma forma que no filme anterior, eliminando qualquer traço de inventividade e subutilizando o engraçado, ainda que limitado, Peña. Da mesma forma, a apresentação e uso de Bill Foster (Laurence Fishburne), antigo rival de Pym, não consegue ir além do fan service (o personagem é uma versão do Golias, nos quadrinhos) e a atormentada Fantasma nunca empolga de verdade. Pelo menos a relação pai e filho entre Scott e a pequena Cassie (Abby Ryder Fortson voltando ao papel) é enternecedora e mais bem trabalhada, ainda que dentro de parâmetros carregados daqueles clichês “confortáveis” que vemos em um sem-número de situações semelhantes nas mais variadas obras.

Por outro lado, mais uma vez a Marvel deslumbra com o uso de próteses e CGI rejuvenescedores (está virando um padrão no UCM, diria) em sequências no passado. A cada filme que passa, desde que vimos o Michael Douglas dos anos 80 no prólogo de Homem-Formiga, a qualidade do trabalho de “volta no tempo” do estúdio é aperfeiçoada, algo que será colocado em teste de verdade com as prometidas e proeminentes aparições das versões noventistas de Nick Fury (Samuel L. Jackson) e Phil Coulson (Clark Gregg) em Capitã Marvel.

Mas, além desse uso específico da tecnologia, o emprego do CGI em geral para trabalhar as sequências de ação em miniatura e também em tamanho gigante merece comenda. Vale especial destaque a perseguição pelas ruas de São Francisco, que alia uma bela e variada coreografia de luta em vários tamanhos com excelente uso de efeitos de computação gráfica e stunts práticos. Apenas a sequência na escola de Cassie deixa a desejar, mas talvez tenha sido mais a estranheza da situação do que qualquer outra coisa. No todo, porém, falta aquele senso de urgência que é sempre difícil de conjurar em filmes do gênero, mas que, aqui, está particularmente ausente, com o filme derrapando em diversos momentos genéricos e repetitivos que mais parecem corrida de obstáculos para finalmente chegarmos ao clímax quântico, por assim dizer.

Sem saber direito o que fazer com seus coadjuvantes e apresentando vilões que desaparecem da lembrança assim que o filme acaba, Homem-Formiga e a Vespa consegue, porém, firmar-se como uma gostosa, ainda que esquecível “Sessão da Tarde” para ser assistida com a família. Fiando-se na dinâmica da dupla titular e mais Hank Pym, o filme é, definitivamente, um capítulo diminuto na grandiosa evolução do UCM.

P.s.: Há duas cenas pós-créditos. A primeira, logo depois que os nomes do elenco principal passa (em uma bela sequência com miniaturas), é importante para o UCM como um todo, mas a segunda, só depois que todos os créditos acabam, chega a ser frustrante de tão inútil e sem graça.

P.s. 2: O 3D convertido, para variar, não acrescenta nada ao filme, mas pelo menos há bom uso de profundidade de campo, especialmente no mergulho ao Reino Quântico e não há escurecimento demasiado da projeção se o espectador tiver sorte de pegar um cinema com projetor devidamente regulado.

Homem-Formiga e a Vespa (Ant-Man and the Wasp, EUA – 2018)
Direção:
 Peyton Reed
Roteiro: Chris McKenna, Erik Sommers, Paul Rudd, Andrew Barrer, Gabriel Ferrari
Elenco: Paul Rudd, Evangeline Lilly, Michael Peña, Michael Douglas, Walton Goggins, Bobby Cannavale, Judy Greer, T.I., David Dastmalchian, Hannah John-Kamen, Abby Ryder Fortson, Randall Park, Michelle Pfeiffer, Laurence Fishburne, Michael Douglas
Duração: 118 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.