Crítica | Homem-Formiga

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Homem-Formiga é aquele herói classe C que só existe nos cinemas graças ao exílio forçado de Homem-Aranha e tantos mutantes do UCM. Como público, agradecemos ao tal exílio. À época de seu lançamento, a Marvel já havia se estabelecido com suas primeiras duas “fases” alicerçadas em personagens classe B (Os Vingadores, em geral) e até D (Starlord…Who?!). Esperar para ver a pílula de nanicolina em blockbuster era mera questão de curiosidade, posto que ruim dificilmente essa experiência seria, exceto para os mais enjoados – estes que criam mais hype para esquadrões suicidas do que para qualquer curta-metragem da Marvel.

Mas o filme de Peyton Reed surpreendeu e ainda surpreende até quem já vai com certo otimismo vê-lo. Longe de ser o filme mais engraçado, mais original ou mais cool da Marvel, Homem-Formiga parece ter plena noção do seu pequeno escopo e do senso de ridículo que um filme com seu título traz para si. Sem altas pretensões, serve até como espécie de respiro em meio à grandiloquência que os filmes da fase 2 do estúdio vinham tomando.

Contando a história de Scott Lang (Paul Rudd), ladrão de certa fama que acaba de deixar a prisão, o roteiro assinado por uma enormidade de mãos entrelaça de forma segura a vida cotidiana desse herói em busca de redenção – simbolizada, aqui, por um simples emprego honesto e a presença da filha – e um plano maior arquitetado por Hank Pym (Michael Douglas) em face do mau uso das tais partículas Pym pelo vilanesco Darren Cross (Corey Stoll).

O coração do filme se divide ora na atuação precisa do trio – Rudd, Douglas e Lilly – ora no humor criativo e inesperado do roteiro, “contaminado” por insights visíveis de Edgar Wright, que só não dirigiu a peça toda por conta de demasiadas tretas com os executivos da casa das ideias.

Sobre o casting, a escolha dos três atores citados é apenas mais uma prova que essa é, definitivamente, uma preocupação que os fãs da Marvel não precisam ter. Rudd equilibra em seu Scott Lang a patetice e a força, a insegurança e a confiança, misturando o carisma já conhecido de seus filmes de comédia com uma face heroica – melhor dizendo, que se esforça para ser heroica – relacionável, muito diferente dos outros heróis da Marvel até aqui. Douglas, por sua vez, dá aquela densidade a mais que Anthony Hopkins, Tommy Lee Jones e Robert Redford já fizeram, apresentando, contudo, um personagem interessantíssimo, capaz de abrir uma outra porta no Universo Marvel – porta esta já fechada com o cancelamento da agradável Agent Carter.

Esse tom mais sério é muito bem equilibrado com o humor de um roteiro que investe sem medo no conceito do Homem-Formiga. Mais do que isso: junto com a descoberta das possibilidades que o traje do herói proporciona – a melhor parte do filme – , Reed nos oferece um entorno cômico e leve, da atriz mirim que vive a filha de Lang aos seus companheiros de assalto – Michael Peña rouba a cena com incrível tranquilidade.

O que salta mais aos nossos olhos, no fim das contas, é que o filme introduz um herói em um filme de assalto, saindo um pouco da curva das películas que se dedicam exclusivamente à origem de um personagem dos quadrinhos. Dentro desse contexto, clichês super-heroicos evidentemente aparecem, mas bem diluídos e adaptados ao tom da obra. Isso não impede, infelizmente, que o filme deslize no meio de tais clichês. A vilania de Darren Cross chega a ser intragável, destoando do restante da obra de forma clara do começo ao fim. Da mesma forma, a relação entre a personagem de Evangeline Lilly e o de Michael Douglas beira um dramalhão mexicano, mal apresentado e mal resolvido.

Tais descuidos atrapalham, mesmo havendo um clímax digno de nota visualmente e narrativamente. A impressão final, contudo, é mais do que decente. Filme consciencioso, consegue trazer uma ótima melodia em sua modéstia, capaz de nos surpreender quando se arrisca um pouco mais no seu terço final. Com uma base bem estabelecida – e tendo como parâmetro as continuações do UCM – uma sequência tem tudo para elevar o nível e apresentar algo ainda mais único e menos diluído em um super-heroísmo de prateleira.

Homem-Formiga (Ant-Man) – EUA, 2015
Direção:
 Peyton Reed
Roteiro: Edgar Wright, Joe Cornish
Elenco: Paul Rudd, Michael Douglas, Evangeline Lilly, Corey Stoll, Bobby Cannavale, Judy Greer, Michael Peña, David Dastmalchian, Hayley Atwell, John Slattery, Martin Donovan, T.I., Abby Ryder Fortson
Duração: 117 min.

ANTHONIO DELBON . . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran.