Crítica | Homem-Formiga

estrelas 4,5

Nos meses que anteciparam o lançamento de Homem-Formiga escutei mais de uma vez, de diferentes pessoas, o quão ridículo seria esse filme, que um herói com o poder de diminuir de tamanho e conversar com formigas jamais funcionaria, mas, aqui, repito o pensamento de nossa colaboradora Melissa Andrade: por que as pessoas ainda duvidam da Marvel? Se o estúdio conseguiu colocar em tela um guaxinim falante portando armas pesadas em Guardiões da Galáxia, por que não conseguiriam trazer um de seus mais icônicos super-heróis à vida? A grande verdade é que poucos, de fato, conhecem o personagem, que em geral aparece, nos quadrinhos, em outras publicações e team-ups, contando com poucas edições solo e isso nos faz esquecer das diferentes possibilidades e abordagens que o herói, seja Hank Pym, Scott Lang ou Eric O’Grady, pode ser explorado.

Iniciamos a projeção com um flashback, vemos um Hank (Michael Douglas) rejuvenescido cara a cara com Howard Stark (John Slattery), Peggy Carter (Hayley Atwell) e Mitchel Carson (Martin Donovan). O cientista questiona a utilização das partículas Pym sem seu consentimento e, após uma pequena briga, pede sua demissão. Anos se passam e agora vamos para Scott Lang (Paul Rudd), um recém ex-presidiário e renomado ladrão, que acaba descobrindo um ótimo trabalho dentro de suas capacidades – após não ser bem sucedido em encontrar um emprego formal, sua vida no crime o chama de volta. Dessa vez, porém, seu alvo é muito diferente do que imaginava e tudo que encontra é uma estranha roupa, parecida com um uniforme de motoqueiro. Ao vesti-la, porém, Lang descobre que pode reduzir seu tamanho, ao mesmo tempo que é contatado por Pym que deseja contratar o jovem para um roubo muito particular.

Embora tenha saído no meio do projeto, o toque de Edgar Wright é evidente no roteiro de Homem-Formiga. Seu humor característico é nítido, conforme o longa faz uso de alguns flashbacks para construir uma de suas maiores gags. Estamos falando, é claro, do típico tom utilizado no restante do Universo Cinematográfico Marvel (UCM), presente desde Homem de Ferro até Vingadores 2, mas aqui um “que” a mais pode ser sentido. O humor é construído de forma orgânica e diversas vezes quebra a tensão estabelecida sem perder a imersão do espectador, que somente se vê mais fisgado pela obra. Trata-se de um filme que sabe brincar consigo mesmo; os poderes do Formiga são explorados sob diferentes vias criativas e, por não se levar tão a sério, desconstrói todo o bloqueio das pessoas em relação ao herói.

E, para nos familiarizarmos com essas habilidades, o texto utiliza uma parcela de seu todo em sequências de treinamento, nos apresentando uma a uma às diferentes particularidades do traje em questão. Temos aqui uma dinâmica inédita aos longas da Marvel, enquanto os outros heróis nasceram como tal ou foram lentamente se descobrindo, Scott Lang é ensinado a ser o Homem-Formiga, afinal, antes dele já havia existido um, a versão original, introduzindo, portanto, importante conceito ainda não utilizado no UCM: a possibilidade de diferentes pessoas preencherem o papel de um único super-herói. A relação criada entre Pym, sua filha Hope Van Dyne (Evangeline Lily) e Scott é um dos pontos altos da obra e o roteiro investe nisso, especialmente considerando a importância dos três personagens para seu universo. Infelizmente, ao mesmo tempo, temos o maior deslize da obra, uma má execução de todo o conflito entre pai e filha que acaba se resolvendo de maneira rápida demais, ainda que traga uma interessante surpresa para os fãs.

Desde tais sequências de treinamento já enxergamos que esse não será o típico longa de super herói e essa inédita dinâmica se torna explícita principalmente nas sequências de ação, conforme Lang diminui e aumenta de tamanho, ao mesmo tempo que mantém sua força normal. Do constante fluxo do cenário até pessoas levando socos “do nada”, Homem- Formiga consegue nos divertir a cada situação, mesclando originalmente o clássico filme de assalto com o de ação, criando uma linha narrativa fluida com doses constantes do inesperado e a nítida tensão de que qualquer detalhe pode dar errado.

O interessante é como, em nenhum ponto, nos sentimos perdidos dentro do que ocorre em tela. Cada movimento pode ser facilmente acompanhado pelos nossos olhos e até a constante troca de tamanho não nos faz sentir perdidos. Apesar da criatividade correr solta, especialmente no terço final do filme, facilmente um dos melhores clímax do UCM, percebemos um evidente controle do diretor Peyton Reed em relação ao que é realizado. Não há uma desconfortável megalomania e, por mais incrível que pareça, temos aqui uma das obras mais “pé no chão” de toda a Marvel Studios. Esse fator se torna ainda mais evidente levando em conta como o filme nos mostra que faz parte de um universo maior, mas não perde tempo tentando fazer inúmeras conexões para o futuro, como é o caso de Homem de Ferro 2. Trata-se de um longa que sabe manter seu foco no lado humano, fazendo disso um de seus ponto-chave, que apenas funciona a seu favor, trazendo-nos para mais perto dos personagens centrais.

Encerro essa crítica, portanto, com uma espécie de “eu te disse”, enterrando, de vez, a falta de fé de grande parte das pessoas em relação a um dos mais fascinantes personagens da Marvel. Homem-Formiga é mais um triunfo do estúdio, um filme que sabe se inserir em um contexto maior sem perder sua identidade única, que o diferencia de tudo o que vimos antes nessa extensa série de filmes. Trata-se de um filme que acaba rápido demais, deixando um evidente gosto de quero mais, sendo nossa única consolação a possibilidade de assisti-lo novamente. O menor herói da Marvel é um verdadeiro gigante.

Homem-Formiga (Ant-Man – EUA, 2015)
Direção:
 Peyton Reed
Roteiro: Edgar Wright, Joe Cornish
Elenco: Paul Rudd, Michael Douglas, Evangeline Lilly, Corey Stoll, Bobby Cannavale, Judy Greer, Michael Peña, David Dastmalchian, Hayley Atwell, John Slattery, Martin Donovan
Duração: 117 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.