Crítica | Homem Morto

Homem Morto

estrelas 4

Em meados dos anos 1990, o western já não era mais um gênero cinematográfico sagrado, como fora até o final de sua segunda renovação clássica, com a chegada de obras do porte de O Matador (1950) e Winchester ’73 (1950). Embora não fossem filmes que pisoteassem o faroeste e toda a sua mitologia, havia um tratamento temático nessas obras que denotavam um olhar diferente para o gênero, elemento que se tornou cada vez mais forte na década seguinte, com as temáticas de decadência e o cansaço do gênero encontrados em O Homem Que Matou o Facínora (1962), Meu Ódio Será Sua Herança (1969) e Butch Cassidy (1969).

Com a perda da importância do gênero, o pessimismo, os revisionismos e as constantes modificações de abordagem para o Velho Oeste, chegamos aos anos 1990 com o western letárgico, vivendo o fim de um tipo de abordagem que denominamos de “segunda travessia do deserto” (do qual Dança com Lobos é um excelente representante) e o início dos chamados “retornos esporádicos”, onde temáticas clássicas se veriam misturadas com elementos históricos, filosóficos e discussões contemporâneas, a exemplo de Tombstone – A Justiça Está Chegando (1993) e Homem Morto (1995).

Visto como uma jornada física e espiritual de um homem ou como uma visão ácida e nada convencional para os arquétipos do western, Homem Morto traz Johnny Depp vivendo William Blake, um contador que vai à cidade de Machine assumir um emprego que lhe fora oferecido, mas que não está mais disponível quando chega ao local. Sem dinheiro e sem saber o que fazer, Blake se vê acusado de dois assassinatos, embora tenha cometido apenas um deles. Em sua fuga e com a cabeça a prêmio, ele encontrará um índio chamado Ninguém, e é nesse momento que vemos a verdadeira caminha tomar forma.

Filmado nos Estados de Nova York, Nevada, Arizona, Oregon, Washington e Califórnia, o filme conta com uma diversidade imensa de paisagens, desde os takes sonolentos de Blake na abertura do longa até a conclusão de sua jornada, no mar. Capturadas em belo preto e branco pelo fotógrafo Robby Müller, estas paisagens ganham importância vital para a construção da atmosfera mística que se arquiteta no decorrer do longa. Adicionemos também a eficiente troca de lentes para diferentes espaços cênicos (dependendo do cenário é possível ver os personagens maiores ou menores em relação à paisagem; “pressionados” ou contextualizados nele; uma troca de dimensões e localização que torna a viagem ainda mais viva e dinâmica) e a alternância de foco e fora-de-foco que observamos em algumas cenas, escolhas de tratamento de imagem, aproximação e distanciamento cuja importância narrativa chega a ser maior do que a estética.

Jarmusch traz elementos de filmes como Meu Nome é Ninguém (1973) e Duelo de Gigantes (1976) para seu roteiro e para suas imagens, referências que fazem de Homem Morto um filme com fortíssima identidade própria mas, ao mesmo tempo, uma interessante reverência a outros momentos do gênero que ousa rever. Entre cidades enlameadas, trapos, canibalismo, bandidos asquerosos, morte e miséria, o texto de Homem Morto traz à tona o que é importante para o homem, o que está além da aparência e o que cada indivíduo pode conquistar em momentos de crise.

O empresário John Dickinson parece se importar muito mais com seu cavalo malhado do que com o filho morto. William Blake, inicialmente usando óculos, torna-se um excelente atirador após deixar as lentes de lado e assumir-se poeta, mesmo não sendo (ou será que era?). Perceba que, ao passo que chegamos próximos ao final do filme, mergulhamos nas motivações e na psicologia dos personagens, encontrando bandidos ou pessoas cada vez mais estranhos pelo caminho. Neste mundo de Jim Jarmusch não existem pessoas normais ou lugares onde se é bem vindo. A civilização não existe em Homem Morto.

Jarmusch deixa alguns pequenos vazios no roteiro, talvez com a justificativa de que tais passagens deveriam ser completadas pela subjetividade do espectador. Ao final, após a canoa ser enfim posta para navegar, essa justificativa encontra sua maior falha, que é o vazio que a reticência daquela cena nos traz. Não chega a ser algo ruim e nem é algo fora do padrão espiritual ou existencial que o longa trabalhou, mas ainda assim é insatisfatório se olharmos a forma sólida como os personagens e suas andanças foram abordadas no filme.

Mas as reticências finais do roteiro não são o maior ponto fraco de Homem Morto. Este pertence — pasme! — a Neil Young, responsável pela trilha sonora da fita. O compositor faz um excelente tema de abertura e engana o público, que acredita que este será um padrão para o filme. Mas pelas duas horas seguintes ouvimos apenas harmonias dedilhadas a esmo, ressonâncias e pequenos sons trabalhados pela mixagem na pós-produção, uma verdadeira pobreza musical considerando o artista em questão e a necessidade de um corpo musical ou harmônico mais bojudo para o filme. É claro que se olharmos apenas para a questão imaterial do roteiro, veremos uma justificativa narrativa para o uso de trastejados e acordes soltos ad infinitum, mas tal justificativa acaba sendo tão incompatível com o projeto de Jarmusch quanto o resultado final de sua trilha sonora.

Ousado, ácido e com um personagem raramente visto em westerns, Homem Morto é uma realização notável de Jim Jarmusch, um filme que não se conforma com a simples história de vingança ou fuga e que coloca em alvo, além do corpo, a alma de seus personagens, todas vagando em busca de alguma coisa, todas marchando, mesmo sem saber, para o dia em que seus corpos serão levados pela canoa para o grande mar, “para o lugar onde a água encontrará o céu“. E o mais interessante é que a “canoa” e o “mar” são símbolos diferentes para cada homem morto do filme e da realidade e chegam para cada um de forma diferente, uma verdade desalentada e crua com a qual todos temos que lidar.

Homem Morto (Dead Man) – EUA, Alemanha, Japão, 1995
Direção: Jim Jarmusch
Roteiro: Jim Jarmusch
Elenco: Johnny Depp, Gary Farmer, Crispin Glover, Lance Henriksen, Michael Wincott, Eugene Byrd, John Hurt, Robert Mitchum, Iggy Pop, Gabriel Byrne, Jared Harris, Mili Avital, Jimmie Ray Weeks, Mark Bringelson, John North
Duração: 121 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.