Crítica | Homens, Mulheres e Filhos

estrelas 3,5

Segundo a psicóloga Sherry Turkle, “a tecnologia entra na vida das pessoas quando as relações humanas deixam de ocupar o seu devido lugar, possivelmente nos hiatos de silêncio que deveriam ser preenchidos com informações mais impessoais”. A indústria cinematográfica, ciente das celeumas oriundas do impacto da cibercultura no tecido social contemporâneo, já investiu em bastante narrativas sobre o tema. Em Homens, Mulheres e Filhos, o foco é o impacto das relações familiares. Com eficiência, Jason Reitman consegue fornecer o seu ponto de vista sobre o assunto, por sinal, muito bem edificado.

O cineasta, também responsável pelo roteiro deste drama sobre o impacto da cibercultura nos relacionamentos, é bastante assertivo no que tange aos temas abordados por seu filme. Em entrevistas, ele apontou que não encara a internet como uma coisa boa ou ruim, mas que a enxerga como um reflexo do que nós somos e do que desejamos ser, além de acreditar que o ciberespaço é um local para darmos vazão aos nossos desejos e curiosidades.

Já se tornou clichê criticar os “perigos da internet”, entretanto, o tema parece não ter fim, pois a cada dia, um punhado de notícias envolvendo o uso desregrado de redes sociais e aplicativos surgem, tanto na mídia hegemônica quanto nos canais mais independentes. Em Homens, Mulheres e Filhos, temos muitos destes “absurdos” apresentados sob a perspectiva de uma câmera que vagueia pelos espaços e deflagra determinadas fragilidades que constatam a pequenez do homem diante dos aparatos tecnológicos que ele mesmo criou.

“Acho que são raras as famílias que não estão conectadas”, afirmou Reitman durante as coletivas de lançamento do filme, em 2014, reforçando que a internet “é parte da maneira como fazemos negócios, nos aproximamos da família e lidamos com a vida”. Em seu filme, a forma desregrada como lidamos com o ciberespaço instaura-se diante do espectador como parte de uma reflexão, sem tons apocalípticos ou ideias calcificadas e finais.

A produção entremeia seis histórias paralelas, interligadas pela narração eficiente de Emma Thompson, com enredos múltiplos de famílias estadunidenses que se encontram de maneira ocasional, mas tem os seus dramas trabalhados independentemente. Temos uma mulher que agenda encontros pela internet por conta da insatisfação no casamento; o seu marido, também ciente da crise conjugal, masturba-se constantemente com auxílio da pornografia na internet, acessada através do computador do filho; uma adolescente em busca pela fama, que posta fotos sensuais em um blog, incentivadas pela mãe, também interessada no provável sucesso da filha, mesmo diante de uma exposição que pode ser considerada perigosa; um rapaz viciado em jogos on-line; e uma das mais marcantes é a trajetória da mãe que controla todas as comunicações virtuais da filha, com receio de que algo ruim possa ocorrer com a garota, sem saber que o sufocamento e a falta de habilidade em lidar com a garota pode levar ao enfraquecimento de suas relações.

Todos os temas são importantes e tratados com a complexidade que os encapsulam, mas as abordagens da mãe neurótica e do pai viciado em pornografia soam como duas das questões mais urgentes. Interpretada por Jennifer Garner, a mãe psicótica rastreia a sua filha como se fosse um objeto, apavorada pelo fato de que algo terrível possa lhe acontecer por conta dos perigosos apresentados por este meio. Ela não consegue se contentar apenas em dar conselhos ou ao menos ler as mensagens, porque além da conferência, ela quer explicações para cada termo que não compreende nos numerosos diálogos das filhas pelas redes sociais. Não estou a condenar a personagem, mas acredito que a proposta do filme é nos fazer pensar se há algum espaço para relativização, pois a relação com a filha chega ao extremo.

No caso do pai viciado em pornografia como refúgio para as carências do casamento, temos que levar em consideração uma reportagem relativamente recente da BBC. A matéria trazia um relato da psicoterapeuta Angela Gregory, da Universidade de Notthingam, o número de pacientes com problemas de ordem sexual aumentou nos últimos 16 anos. Entre eles, há a angústia por muitas vezes, não conseguirem ir além das cenas representadas nas performances dos vídeos eróticos que assistem. No caso deste personagem, interpretado por Adam Sandler, temos uma representação de um dos problemas mais comuns na contemporaneidade, no que tange ao envolvimento entre pornografia e seus impactos na vida social do individuo consumidor deste material que não faz mal a ninguém, se utilizado, talvez, com moderação. Mas, como já pode perceber, caro leitor, moderação parece não ser uma palavra que faz parte do vocabulário diário destes personagens.

Como estamos diante de uma análise fílmica, não há como deixar de lado questões que adentram a linguagem cinematográfica. Pelas considerações do texto, a direção e o roteiro estão bem conduzidos, tal como boa parte do elenco. Adam Sandler consegue ir além e fazer compor um personagem que está há anos luz de distância das últimas aberrações que apresentou no terreno da comédia. A montagem, bastante eficiente, conecta muito bem a história, tal como a trilha sonora e o design de produção, todos bem organizados e acima da média.

Quando lançado, a crítica divulgou o filme como “uma selfie da própria sociedade tecnológica”, isto é, um filme que tem o seu roteiro preenchido por tipos obcecados pela internet e estão constantemente conectados.  Escrito em coautoria por Erin Cressilda Wilson, o filme é uma adaptação do romance homônimo de Chad Kultgen e ao longo de seus 119 minutos, debate o impacto da tecnologia em nossas vidas e mostra como mudamos a nossa forma de se comunicar. Reitman, cineasta que cresceu sem internet e observava o seu pai editar filmes ao modo antigo é um dos representantes da geração que fica no entre-lugar da comunicação ao modo antigo e da urgência e frenética relação através dos aplicativos e redes sociais.

O tema da conexão, por sinal, tangenciou Obrigado por Fumar e Amor sem Escalas, tramas que também tinha personagens conectados constantemente, mas numa perspectiva diferenciado nos quesitos narrativos e conflitos centrais do roteiro. O contexto histórico não poderia ser melhor: na época, tivemos o boom de aplicativos de mensagens instantâneas como o whatsapp e a proliferação dos aplicativos de encontros, tais como Tinder, Grinder, etc. E mais: uma das grandes vantagens do filme não é apresentar uma série de virtuosos elementos da linguagem cinematográfica, mas perceber a capacidade de Reitman em tratar de um tema contemporâneo, pois ao mergulhar no próprio momento histórico em questão, ele consegue se salvar do possível sufocamento deste denso e pantanoso ambiente, descolando-se do contemporâneo para observá-lo com distanciamento. Reitman, neste filme, parece um leitor fiel de O que é o contemporâneo e outros ensaios, de Giorgio Agambem. Se seu filme fosse uma tese, sem dúvidas seria aprovado com distinção e com indicação para publicação.

Como apontado anteriormente, Homens, Mulheres e Filhos é um drama que não buscar definições categóricas para as coisas. O que o filme traz é um feixe de provocações sem as comuns “considerações finais”. Digamos que ao final, estejamos todos diante de “considerações provisórias”. Para o cineasta, “no futuro, vamos perceber que éramos tolos em lidar com a internet”. Segundo Reitman, conhecido pelos roteiros de Juno e Amor sem Escalas, ambos indicados ao Oscar, “perceberemos que hoje somos tolos ao lidar com as suas possibilidades”.

Em suma, a visão de Reitman é similar a de muitos especialistas: o ciberespaço é terreno fértil para revoluções comunicacionais, o problema é a forma como lidamos com estas possibilidades. “Em alguns casos, o prazer de uma boa refeição é substituído por uma foto da própria comida”, “buscar relacionamento on-line é um caminho para aumentar a nossa autoconfiança”, “há uma busca constante por afeto na internet”. Estas são algumas observações de psicólogos e especialistas no que concerne a relação das pessoas com a cibercultura em seus respectivos cotidianos. Para Cristiano Nabuco, coordenador do Grupo de Dependência Tecnológica da USP, “as mudanças advindas da internet são tão profundas  quanto a descoberta do fogo”.

Hoje, além das salas de bato papo de antigamente, temos o whatsapp, as curtidas no Facebook e os seguidores do Twitter. Como lidar? Diante do exposto, cabe a reflexão, caro leitor: este sinal dos novos tempos deve ser visto com otimismo ou pessimismo? Já pensou no assunto?

Homens, Mulheres e Filhos (Men, Women and Children) — Estados Unidos, 2014
Direção: Jason Reitman
Roteiro: Jason Reitman, Chad Kultgen, Erin Cressida Wilson
Elenco: Adam Sandler, Ansel Elgort, Candace Lantz, Christina Burdette, Cody Boling, Colby Arps, Craig Nigh, Dan Gozhansky, David Denman, David Jahn, Dean Norris, Dennis Haysbert, Elena Kampouris, Emma Thompson, Helen Estabrook, Irene White, J.K. Simmons, Jake McDermott, Jaren Lewison, Jason Douglas, Jeff Witzke, Jennifer Garner, Jillian Nicole Jackson, Jon Michael Davis, Judy Greer, Kaitlyn Dever, Kaleb King, Karen Smith, Katherine C. Hughes, Kathrine Herzer, Kelly O’Malley, Luci Christian, Olivia Crocicchia, Phil LaMarr, Richard Dillard, Rosemarie DeWitt, Shane Lynch, Timothée Chalamet, Tina Parker, Tori Black, Travis Tope, Will Peltzs
Duração: 119 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.