Crítica | “Honeymoon” – Lana Del Rey

honeymoon

estrelas 4

Lana Del Rey é uma jovem que parece ter nascido na época errada. Sua aparência/atitude à la Marilyn Monroe e Nancy Sinatra, atrelada à sua sonoridade banhada pelos encantos da era de 1950 e 1960 dos Estados Unidos convenceram tanto a indústria quanto os consumidores de música, fazendo com que ela enfeitiçasse milhões de fãs pelo mundo. Seja por aqueles que sofrem da Síndrome da Era de Ouro (condição em que a pessoa acredita pertencer à épocas passadas e não àquela que vive efetivamente) ou simplesmente pelos que simpatizam com um pop nostálgico, Lana é, definitivamente, uma força reconhecida.

Depois de seus dois álbuns mainstream Born to Die e Ultraviolence, que atraíram a atenção da crítica especializada e o público em geral, Lana chega muito segura de si em seu terceiro disco imerso nos holofotes da imprensa: Honeymoon. Depois de trabalhar com ninguém mais ninguém menos que Dan Auerbach, integrante da banda The Black Keys, em Ultraviolence e experimentar um pouco com seu som, a jovem parece retomar os ares mais antigos de Born to Die em Honeymoon. Se em Ultraviolence ela havia absorvido bastante da alma garage/blues/psicodélica de Dan – presente em cada nota do Black Keys –, assim como sua melancolia, aqui ela retorna um pouco mais otimista, mas claro, sem se afastar da identidade que a fez chegar até aqui.

A faixa que também dá nome ao álbum funciona perfeitamente como um estonteante abre-alas para este trabalho. A canção Honeymoon, lenta e minuciosamente, vai penetrando no ouvido do ouvinte e deixando-o em um estado de transe prazeroso, tão caracterítisco do som de Del Rey. Exalando em cada nota sua veneração pelo antigo, Lana entoa cada nota seduzindo, hipnotizando, impressionando. Logo na primeira faixa temos um dos maiores highlights do álbum.

Music to Watch Boys é uma das músicas mais comerciais de Honeymoon – e uma das mais divertidas. Sexy e provocante (como sempre), Lana esbanja volúpia nesta que ela chama de música para observar rapazes. O que faz da canção tão divertida é o fato de ela realmente soar como a trilha sonora perfeita para um striptease ou uma insinuação sexual – indepentemente de quem/o quê/que gênero você vai observar. “(Eu adoro você) Coloco minha música enquanto observo os garotos/(…) Tocando as guitarras deles, apenas um dos meus brinquedos”. De fato, uma experiência voyeur sonora (se isso não existe, ela acabou de criar). Terrence Loves You e God Knows I Tried são provas da segurança de Lana citada no início do texto. São duas músicas maduras cuidadosamente escritas que evidentemente têm muito significado para a cantora – que ela deixa transperecer claramente em excelentes performances: “Eu me perdi/Quando perdi você”. Em Terrence, uma balada poderosa, em meio a deliciosos saxofones e notas de piano, ela chega a fazer uso de um icônico verso da canção Space Oddity de David Bowie.

High by the Beach, Freak e Art Deco são faixas que se juntam à Music to Watch Boys como músicas com apelo mais comercial, mais fáceis de serem consumidas (reparem como, sutilmente, elas são mais acessíveis do que canções como Terrence Loves You e God Knows I Tried), e são três gostosos momentos que mostram um lado mais leve, ameno e despretensioso de Lana, que canta a plenos pulmões “Meu amor/Se você quer ir embora/Venha para a Califórnia/Ser um doido como eu”, diz que quer ficar chapada na praia e discursa sobre o estilo vintage Art Deco.

Depois dessa primeira parte praticamente perfeita, temos um interlude com versos do poema Burnt Norton, do canônico poeta americano T. S. Eliot, que divide Honeymoon exatamente na metade, abre caminho para a segunda parte e antecipa o tom do que vem a seguir: não haverá mais espaço para músicas mais descompromissadas como as do parágrafo anterior; agora a coisa fica um pouco mais séria, mais densa, mais elaborada.

Religion mostra uma Lana que vemos frequentemente: completamente devota, entregue e, poderíamos dizer, submissa. Se em Ultraviolence tínhamos um flerte com uma história de amor violento, aqui vemos uma entrega tão forte dela em relação ao outro que ela chega a chamá-lo de “religião”. Salvatore é um dos momentos mais interessantes e diferentes de Honeymoon: melancólica, fúnebre e ainda assim hipnótica, a canção tem vocais dedicados de Lana – com direito à uma coisa ou outra em italiano!

The Blackest Day é outra canção no mínimo curiosa: diferente do que ela geralmente faz, aqui ela tem uma atitude (pasmem!) mais rocker, claro, no estilo Lana de ser. É uma tentativa interessante e convicente de fazer algo diferente – e funciona. Já 24 é um dos raros momentos de Honeymoon em que a cantora soa um pouco over: é tudo um bocado demais, principalmente vocais e letra. Swan Song pega carona nos vocais exagerados de 24, mas nessa, curiosamente, eles funcionam e resultam em uma gostosa canção sobre despedida.

Assim como em Ultraviolence, Del Rey encerra o álbum com um cover. Aqui, ela faz a sua interpretação de Don’t Let Me Be Misunderstood, da lendária Nina Simone, e não faz feio – muito pelo contrário –, toma a música como sua e dá sua identidade à ela, resultando em um adeus que nos faz pensar em como foi prazerosa a jornada musical de Honeymoon.

Lana Del Rey entrega um terceiro álbum, sem dúvida, preciso, seguro e coeso, que mostra – para quem ainda tinha dúvidas de seu talento – que ela veio para ficar, e que sua vibe vintage, rebuscada, nostálgica é genuína, não fabricada. Nós, como fãs dessa artista maravilhosa, só podemos agradecer por ela nos deixar fazer parte de sua lua de mel. E o que se espera de uma lua de mel? Que ela seja, acima de tudo, prazerosa, não é mesmo? Lana, pode ter certeza de que para nós foi. Espero que ela tenha sido para você também.

Aumenta! Honeymoon
Diminui! 24
Canção favorita: Music to Watch Boys

Honeymoon
Artista:
Lana Del Rey
País: Estados Unidos
Lançamento: 18 de setembro de 2015
Gravadora: Interscope, Polydor
Estilo:
Pop, Alternativo, Dream Pop

ANDRÉ DE OLIVEIRA . . . . Estudante de Letras e aspirante a jornalista. Ainda se impressiona com o fato de curtir, na mesma intensidade, do cult ao pop; do clássico ao contemporâneo; do canônico ao best-seller. Usa camisa do Arctic Monkeys — sua banda favorita —, mas nada impede que esteja tocando Nicki Minaj no fone de ouvido. Termina de ler Harry Potter e começa um Dostoévski. Assiste Psicose e depois dá play em Transformers. Não tente entender. @andreoliveeira