Crítica | Hook: A Volta do Capitão Gancho

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Difícil imaginar outro nome semelhante ao de Steven Spielberg que carregue o mesmo gosto em caminhar por meio dos dramas adultos e se transmutar, em seguida, para o terreno fantasioso da ficção científica e das aventuras infantis. O Spielberg de Tubarão não é o mesmo de Contatos Imediatos do Terceiro Grau, assim como o Spielberg de E.T. – O Extraterrestre não é o mesmo de A Cor Púrpura ou Império do Sol, por exemplo. Essa versatilidade no espírito de seus filmes comprovam que estamos falando de um cineasta de ricas visões e que muito já ofereceu ao longo de mais de 40 anos à serviço da magia do cinema.

Hook: A Volta do Capitão Gancho era, de fato, a história ideal para ser repaginada nas telas pela criança interior de Spielberg. Ou ao menos, era o que lhe parecia e nos parecia. Mas antes de antecipar qualquer outra palavra sobre o filme, é na válida ideia da repaginação em si que Hook se revela um projeto curioso, uma vez que Peter Pan (Robin Williams) já não é mais o mesmo personagem que as histórias da literatura e adaptações para o cinema tanto nos apresentaram, mas agora ele se chama Peter Banning e é um workaholic que dá extrema atenção ao trabalho, mas pouco para a família, o que cria dificuldades de conversação e aproximação entre Peter e seus filhos. O menino que antes não queria crescer, entretanto, logo se vê obrigado a retornar para a Terra do Nunca, mesmo sem lembrar nada de sua vida passada, quando seus filhos são sequestrados pelo Capitão Gancho (Dustin Hoffman).

Baseado no livro e na peça teatral de J.M. Barrie, os roteiristas James Hart (que em seguida viria roteirizar Drácula Bram Stoker) e Malia Scotch Marmo parecem não saber como dar cabo do frescor que Spielberg buscava na atualização do conto clássico, o que parece igualmente estar refletido na mão pouco inventiva do diretor atrás das câmeras. A falta de vontade foi sentida pelo público que, mesmo diante do sucesso do filme (cerca de 300 milhões nas bilheterias), se sentiu pouco satisfeito com algo que deveria ter sido essencial: o resgate do encanto pela magia daquele mundo. As liberdades criativas por parte dos roteiristas são louváveis, mas pouco cativam como as novidades que deveriam cativar nossos olhos novamente, e Spielberg pouco ajuda quando decide inserir toneladas de sentimentalismo dentro de uma narrativa que não clama por isso, um excesso ressaltado pela trilha sonora sempre apelativa de John Williams.

E apesar de ter se firmado como um daqueles filmes despretensiosos de Sessão da Tarde que marcaram as tardes de qualquer um com quase 30 anos, Hook envelheceu de tal forma que a busca pelo espírito ingênuo das típicas fantasias clássicas se transformou numa pedra que trava até mesmo o bem-estar do elenco diante das câmeras, e nem mesmo o finado Robin Williams (indicado ao Oscar naquele mesmo ano por O Pescador de Ilusões) consegue fugir de um visível desconforto ao encarnar um personagem com mais de 40 anos que se via na obrigação de manter seu ar debochado diante do seu retorno à Terra do Nunca. Julia Roberts recebe um tratamento ingrato quando sua Sininho surge tão apagada e desvalorizada, o que inclusive levou a atriz para uma indicação ao Framboesa de Ouro de atriz coadjuvante. Dustin Hoffman é quem sai ileso no papel-título ao encarnar Hook como o típico vilão caricatural e histérico, mas que abre margens para que o ator se divirta debaixo da caracterização megalomaníaca do vilão.

Infelizmente, falta para Hook: A Volta do Capitão Gancho aquele toque spielberguiano que tanto nos marcou e fez história em filmes como o já mencionado E.T. ou Os Caçadores da Arca Perdida, e não ajuda em nada o fato de que, logo em seguida, Spielberg lançaria o seu ápice do cinema de aventura, Parque dos Dinossauros, o que só contribui para que esta insípida fantasia permaneça esquecida em meio a filmografia de Spielberg.

Hook: A Volta do Capitão Gancho (Hook) – 1991, EUA
Direção: Steven Spielberg
Roteiro: James Hart, Malia Scotch Marmo, baseada em conto de J.M. Barrie
Elenco: Dustin Hoffman, Robbie Willians, Julia Roberts, Maggie Smith, Caroline Goodall, Bob Hoskins, Phil Collins, Gwynet Paltrow
Duração: 144 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Somente há sinal de vida aqui quando o cinema está presente. E quando ele está, são as cores de Almodóvar, a frieza de Kubrick e o suspense de Shyamalan que me encantam. Um cinéfilo em constante construção.