Crítica | Horizonte Profundo: Desastre no Golfo

estrelas 3,5

Dirigido por Peter Berg, que nos trouxera O Grande Herói em 2013, Horizonte Profundo é essencialmente um filme sobre desastres – ao invés de abordar cenários fictícios, porém, como 2012 ou O Dia Depois de Amanhã, ele nos traz um retrato do incidente na plataforma Deepwater Horizon, que ocorrera em 2010. Berg, todavia, não faz um longa-metragem sobre o vazamento de petróleo em si e sim sobre as pessoas que estavam lá quando tudo aconteceu, nos oferecendo, é claro, um olhar sobre a origem do problema, ainda que de forma bastante rasa. Temos aqui um filme de ação, mas que não perde sua forte dose de realismo.

A projeção tem início nos mostrando a família de Mike Williams (Mark Wahlberg), que trabalha embarcado e está prestes a passar mais um período em alto-mar. A interação com sua esposa e filha é colocada, naturalmente, a fim de trazer a empatia inicial com o espectador e o roteiro de Matthew Michael Carnahan e Matthew Sand sabiamente não gasta muito tempo em tais momentos – eles tem total consciência de que esse não é o foco da obra e prontamente somos levados para a Deepwater Horizon, onde a maior parte da narrativa se desenvolve. Ali vemos o clássico cenário do homem grande, o corporativo, contra o pequeno, o operário, a luta de classes – um grupo se preocupando apenas com o lucro, enquanto o outro com as condições dos outros trabalhadores. Essa preocupação exacerbada com o capital é que acaba levando ao incidente. Peter Berg, aqui, não imprime um discurso de esquerda, antagonizando o capitalismo, ele apenas nos traz a realidade dos fatos de forma bastante fria os culpados realmente foram os executivos da BP, companhia dona do bloco exploratório.

Horizonte Profundo, como dito anteriormente, chega a nos oferecer um olhar sobre o que causou tudo aquilo, mas ele não se preocupa em nos explicar. De fato, não entendemos exatamente o que se passa, tampouco é essa a intenção da obra. O que Berg quer nos passar é a luta pela sobrevivência realizada por aqueles presentes no local. Uma evidência bastante clara disso é o desenho de som, que favorece os efeitos sonoros, explosões, guindastes caindo, dentre outros sons a favor da voz dos personagens. Muitos dos diálogos não conseguimos entender (algo estragado pela legenda, é claro), mas essa é a intenção – o filme procura nos passar o caos através dessa ausência de entendimento, nos deixa em uma situação tão perdida quanto aqueles que vemos na tela, criando, portanto, uma tensão que chega a ser palpável, visto que não sabemos exatamente o que irá acontecer a seguir.

Todos os momentos que precedem a primeira explosão estão presentes a fim de construir a atmosfera da narrativa. Jimmy Harrell (Kurt Russell) é essencial ao roteiro já criando na audiência a perfeita concepção de que algo de errado irá acontecer em breve. Tanto Russel quanto Wahlberg dispensam atuações over-the-top, exageros típicos de filmes de ação e entregam retratos bastante realistas, soando como pessoas que, de fato, foram envoltas por aquele inferno. Um perfeito exemplo disso é a icônica cena de Harrell no chuveiro – ele está tomando banho quando tudo dá errado. A dor do personagem, que passa a ser atingido pelos objetos à sua volta passa para nós com exatidão, criando forte angústia no espectador, que passa a acreditar que ninguém sairá de lá com vida.

Infelizmente, isso acaba se perdendo um pouco através do foco desnecessário no mundo “de fora”. Em determinadas cenas acompanhamos a mulher do protagonista e a operação da guarda costeira, que passa a receber inúmeros chamados sobre a explosão. Tais sequências constituem uma evidente quebra de imersão, somos tirados daquele inferno em alto-mar e o ritmo frenético estabelecido ali sofre alguns tropeços. Somos oferecidos uma esperança para os personagens, quando muito da tensão construída até esse ponto se dá em virtude justamente da aparente falta dessa possível salvação. Quando o resgate, enfim, ocorre não somos pegos de surpresa, apenas acontece o que já esperávamos.

Esse deslize, contudo, não consegue estragar a obra por completo e, embora prejudique a atmosfera de tensão criada na maior parte da narrativa, continuamos com uma positiva percepção do filme como um todo. Mais uma vez Peter Berg acerta ao decidir focar seu longa-metragem em seus personagens e não no acontecimento em si – nossa aproximação com eles é o que faz Horizonte Profundo: Desastre no Golfo ser bem-sucedido. Temos aqui um filme de desastre sobre aqueles que vivenciaram esses momentos de terror, com uma abordagem bastante realista que nos deixa profundamente angustiados.

Horizonte Profundo: Desastre no Golfo (Deepwater Horizon) – EUA/ Hong Kong, 2016
Direção:
Peter Berg
Roteiro: Michael Carnahan e Matthew Sand
Elenco: Mark Wahlberg, Kurt Russell, Douglas M. Griffin, James DuMont, Joe Chrest, Gina Rodriguez, Brad Leland, John Malkovich
Duração: 107 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.