Crítica | Horror em Amityville (1979)

A franquia Amityville é, sem dúvida alguma, um fenômeno literário e audiovisual. Nascida de um livro de Jay Anson, publicado originalmente em 1977 e que em tese é baseado em fatos reais, a história da casa mal-assombrada em 112 Ocean Avenue, Long Island, Nova York, que foi palco de horríveis assassinatos, já ganhou um total de nove obras literárias por autores diferentes (Anson só escreveu o primeiro) e nada menos do que impressionantes 18 filmes desde 1979 dentre longas de cinema e telefilmes, já considerando os reboots de 2005 e 2017 no cálculo, além de um documentário que lida com os supostos fenômenos paranormais testemunhados pela família Lutz que teve o infortúnio de adquirir a casa depois que Ronald DeFeo Jr. matou toda sua família um ano antes.

A aura de “história verdadeira” certamente pesou para o estrondoso sucesso do primeiro filme, que custou 4,7 milhões de dólares e faturou 86,4 milhões, apesar de ter sido recebido negativamente pela crítica. E é curioso notar como a memória afetiva de filmes que vimos na infância – como é meu caso aqui – pode afetar nossa percepção sobre algo, elevando obras a um determinado status que um olhar um pouco mais cuidadoso logo revelaria ser indevido.

Horror em Amityville é, definitivamente, um desses casos. Seu valor como filme de sucesso é pontual e, mesmo que pareça uma grande produção sobre uma casa mal-assombrada, a grande verdade é que, objetivamente, o trabalho de Stuart Rosenberg, diretor mediano responsável por, dentre outros, Rebeldia Indomável, A Viagem dos Condenados e Brubaker, é uma verdadeira bagunça que muito mais entendia do que assusta o espectador não só por uma duração de quase duas horas que se arrasta de forma episódica e repetitiva, como também por abordar o mistério, a possessão demoníaca da casa, logo de imediato, sem deixar margens para dúvidas.

Afinal, logo depois de nos apresentar aos recém-casados George (James Brolin, pai de Josh Brolin, que tinha 11 anos quando o filme foi lançado) e Kathy Lutz (Margot Kidder, egressa de seu estrelato repentino como Lois Lane, em Superman: O Filme, no ano anterior), que compram a casa por valor abaixo do mercado justamente em razão dos assassinatos que vemos no prólogo, o roteiro de Sandor Stern, sem perder tempo, já deixa claro, ao lidar com a presença do padre Delaney (Rod Steiger) para abençoar a casa, que há uma presença demoníaca que inclusive ordena verbalmente que o aterrorizado homem saia de lá imediatamente. Todo o semblante de queima-lenta, algo natural em filmes do gênero, desaparece imediatamente e o que passamos a ver, a partir desse ponto, nem bem com 20 minutos de projeção, é a constante repetição temática em um crescendo de situações misteriosas que, só quando chegam ao completo exagero, com portas explodindo para fora, que os Lutz começam a perguntar-se o que pode estar acontecendo ali de errado. E isso depois que, quase imediatamente após a mudança, George sofre uma transformação que o afasta de seu negócio e o deixa com olheiras enormes, cabelo e barba desgrenhados (algo que é inadvertidamente hilário) e uma aparência de maluco que acabou de fugir do sanatório…

Além disso, a direção de Rosenberg e o roteiro de Stern não sabem muito bem que caminho seguir. Ora o foco está nos fenômenos sobrenaturais da casa, ora em narrativas paralelas como a do padre Delaney, que fica profundamente afetado por sua experiência no local, ou como a do policial Gionfriddo (Val Avery), que investigara os assassinatos ocorridos na casa e decide vigiar o local com base em um pressentimento. Não haveria problema nessa abordagem se essas histórias se encontrassem em um ponto de convergência mais para o terço final da fita, mas o que vemos, muito ao contrário, é uma completa independência que frustra sobremaneira o espectador, que espera um diálogo entre cada elemento e personagem do filme.

Pensado originalmente como um telefilme, Horror em Amityville não esconde seu baixo orçamento e seu DNA primígeno em momento algum. Seus efeitos práticos são simplistas mesmo para a época – basta comparar com filmes semelhantes da década de 70 como O Exorcista e A Profecia para isso ficar ainda mais claro – e sua falta de paciência em construir os personagens e o mistério leva a um resultado quase amador e que em momento algum é ajudado pela dupla protagonista que, mesmo jamais tendo sido grandes atores, aqui não tem nem a oportunidade de mostrar alguma qualidade dramática, com Kidder apenas berrando o tempo todo e Brolin, como disse, parecendo um fugitivo do Asilo Arkham.

A exceção fica por conta do design da casa, que teve o exterior inspirado pela original a que a produção não teve acesso. Nesse aspecto, a direção de arte merece comenda, por transformar o local em um genuíno personagem da história, algo que é amplificado pela fotografia de Fred J. Koenenkamp (Patton, Papillon) que torna a lateral do lugar, com suas duas janelas em semi-círculo e uma grande chaminé, em um rosto sinistro, usando uma inteligente iluminação para quase dar voz à casa.

A trilha sonora, que ficou ao encargo do grande Lalo Schifrin, chegou a concorrer ao Oscar de melhor em sua categoria, o que é um grande mistério para mim, maior até do que a razão para Amityville ser essa franquia tão bem-sucedida. Afinal, seus acordes histriônicos praticamente determinam como os espectadores devem se sentir diante de cada nova situação, muitas vezes sendo a única fonte de tensão durante a projeção. Além disso, é inescapável a conclusão de que os momentos mais importantes da composição parecem ter sido fortemente inspirados (e, aqui, uso um eufemismo em respeito a Schifrin) pelo inesquecível trabalho de Bernard Herrmann, em Psicose.

Como filme de terror de casa mal-assombrada, Horror em Amityville é um ótimo sonífero. Se o leitor estiver procurando uma obra em que forças misteriosas em uma casa enlouquecem seu morador a ponto de ele ameaçar sua família, a sugestão é procurar o irretocável O Iluminado, produzido quase simultaneamente a este aqui – com diversos paralelos intrigantes, inclusive a sequência das machadadas na porta do banheiro – e infinitamente superior.

Horror em Amityville (The Amityville Horror, EUA – 1979)
Direção: Stuart Rosenberg
Roteiro: Sandor Stern (baseado em livro de Jay Anson)
Elenco: James Brolin, Margot Kidder, Rod Steiger, Don Stroud, Murray Hamilton, John Larch, Natasha Ryan, K.C. Martel, Meeno Peluce, Michael Sacks, Helen Shaver, Amy Wright, Val Avery, Irene Dailey
Duração: 117 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.