Crítica | Horror em Amityville (2005)

A simples ideia de fazer um remake de Horror em Amityville soa como algo, no mínimo, inútil, já que todos os outros filmes lançados no cinema seguiram a exata mesma premissa, soando como repetição atrás de repetição, com breves momentos de originalidade, que, por si só, configuram-se como verdadeiras tragédias, pela péssima execução. Evidente que isso não impediu o estúdio de nos trazer mais uma versão da casa mal-assombrada e, surpreendentemente, esse remake consegue ser levemente melhor que o original, ainda que por muito pouco.

A velha história todos conhecem: a família Lutz muda-se para uma casa em Amityville, onde, um ano antes, uma família inteira fora brutalmente assassinada, com o assassino alegando ter escutado vozes que o fizeram cometer tais atos. Não demora muito para que o marido, atual morador da casa, George (Ryan Reynolds), comece a ser assolado pelas mesmas vozes, mudando drasticamente sua personalidade, enquanto que o restante da família passa a ter estranhas visões de uma menina que deveria estar morta.

Quando eu disse que essa versão de 2005 de Horror em Amityville é levemente melhor que a original, eu quis dizer levemente mesmo, já que o roteiro é uma verdadeira bagunça. Personagens são esquecidos ao longo da trama, para serem resgatados quando convém ao texto, a transformação de George é totalmente errática – em um momento ele está normal, no outro é o retrato da psicopatia, sem qualquer gradação, como visto em O Iluminado, de Stanley Kubrick, cuja premissa é bastante similar – isso tudo sem falar na completa artificialidade desses personagens.

Ao escrever um roteiro, independente do gênero, é importante ter em mente que os personagens precisam passar a impressão de que efetivamente existem, deve ser demonstrada preocupação com o que vem antes e depois do recorte de suas vidas vista no longa-metragem. Isso não ocorre nessa obra, que simplesmente joga essas pessoas em tela, resumindo suas vidas unicamente à estadia na casa – temos a sensação de que eles não trabalham, vão para a escola ou qualquer outra coisa, tornando, portanto, impossível que realmente acreditemos em cada um deles. A própria cidade em volta da infame casa soa como uma grande fantasia, já que ela somente aparece brevemente, de forma pontual e, claro, quando é conveniente à trama.

Tudo isso impede que nos entreguemos à narrativa, que já é falha por não despertar qualquer tensão – primeiro por não nos importarmos de fato com os indivíduos retratados em tela, segundo porque a direção de Andrew Douglas demonstra estar mais preocupada em proporcionar cheap scares do que uma verdadeira atmosfera de terror, seja com cortes bruscos ou sons elevados. Não ajuda, claro, que certos fatores, como o passado da casa, são apenas jogado no meio do texto, soando mais como material extra do que efetiva parte da história. Aliás, a explicação da entidade por trás dessa assombração não faz a menor diferença para a trama geral, podendo ter sido ocultada a fim de, minimamente, incentivar a imaginação do espectador. Aparecendo de maneira similar, temos a garotinha fantasma, cuja presença ocupa boa parte da projeção, apenas para, no fim, ser completamente irrelevante, fugindo do foco, que deveria ser a crescente loucura de George.

O que realmente torna esse remake singelamente melhor que seu antecessor é a presença de Ryan Reynolds. Ainda que seja um ator bastante limitado, ele sabe muito bem transitar entre o seu lado “bonzinho” e o “malvado”, com seu olhar definindo muito bem se ele está no comando ou a entidade malévola – em razão disso, as perceptíveis lentes, que deixam seu olho avermelhado, poderiam ter sido dispensadas. Claro que Reynolds não pode fazer milagre e ainda temos o problema do “vai e vem” de sua metamorfose, que a torna extremamente falha em termos de narrativa.

Dito isso, essa releitura de Horror em Amityville é mais um fraquíssimo filme dentro de uma franquia que não nos entregou sequer uma obra decente. Nem mesmo o limitado, porém carismático, Ryan Reynolds consegue salvar essa história de assombração, que consiste em uma incessante repetição de elementos já visivelmente “batidos”. Já passou da hora dessa série se aposentar, mas não parece que isso irá acontecer tão cedo.

Horror em Amityville (The Amityville Horror) — EUA, 2005
Direção:
 Andrew Douglas
Roteiro: Scott Kosar (baseado no livro de Jay Anson e no roteiro de Sandor Stern)
Elenco: Ryan Reynolds, Melissa George,  Jesse James, Jimmy Bennett,  Chloë Grace Moretz, Rachel Nichols, Philip Baker Hall, Isabel Conner, Brendan Donaldson
Duração: 90 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.