Crítica | “Hot Space” – Queen

estrelas 2,5

À época da gravação de Hot Space, 10º álbum de estúdio do Queen, a banda não estava bem em termos de relacionamento e decisões criativas (embora este ainda não tenha sido o momento mais trágico desse relacionamento). As brigas haviam começado, por questões ainda não reveladas, no final das turnês de Jazz e já em The Game tomava mais tempo da banda do que era necessário. Em 1980, houve o lançamento de The Game (junho) e Flash Gordon (dezembro), sendo este último o verdadeiro encontro do quarteto com os sintetizadores, utilizados em grande quantidade e estilo, algo que não aconteceria no disco seguinte.

Apesar das turnês na América Latina, Estados Unidos e Japão, o clima geral entre os amigos era de “precisamos dar um tempo“. E 1981, Roger Taylor lançou o seu primeiro álbum solo, Fun in Space, o que aumentou alguns murmúrios na imprensa sobre a crise do Queen. Em entrevistas, os músicos nunca negaram as divergências (até o caso de que John Deacon abandonou uma das sessões de gravação de Hot Space sem nem discutir e deixou um bilhete escrito “fui para Bali por 10 dias” veio à tona) e jamais confirmaram a separação, nem aqui e nem na época de The Works, quando a situação alcançaria o seu ponto mais delicado, até voltar a se normalizar em A Kind of Magic, tendo daí para frente o velho clima de camaradagem entre o quarteto, todos unidos na luta de Mercury contra a AIDS (algo que, até então, só a banda sabia).

Mas apesar de divergirem no campo profissional e rumos dos álbuns, eles continuavam companheiros e aceitavam colocar os egos de lado para continuarem juntos. Então surgiu Hot Space, o álbum que, diz a história, influenciou Michael Jackson a conceber Thriller (1982).

Staying Power Ao Vivo (1982)

O ano de 1981 não teve lançamento de nenhum álbum do Queen, que passou parte do ano em turnê e em duas sessões de gravação de Hot Space. A primeira entre junho e julho e a outra em dezembro. O álbum, no entanto, só ficaria pronto após uma terceira sessão, em março de 1982, dois meses antes do lançamento oficial, que quebrava a linha de rock do Queen e adentrava ao cenário de diversos gêneros populares da época, como dance, funk, disco e new wave. A rigor, Hot Space é um álbum experimental, porque é justamente isso que a banda está fazendo nele. Experimentando. Com letras fortemente sexualizadas, uso de instrumentos de sopro, sintetizadores, bateria eletrônica e peso mínimo de guitarra, o disco acabou sendo o mais odiado, desprezado e esquecido da discografia do Queen. Particularmente, já odiei muito Hot Space e cheguei a avaliá-lo com zero estrela há alguns anos. Hoje, após me livrar de preconceitos, ouvi e reouvi o disco e cheguei à conclusão de que ele não é ruim. É um disco diferente. Regular. Com apenas uma canção brilhante. Mas não ruim.
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LADO A

Começamos aqui com Staying Power, que dá o tom geral do álbum: menos harmonias, mais sintetizadores, mais batidas repetitivas, mais formatos sonoros repetitivos. Os ciclos dessa faixa são longos e dançantes, talvez até mais dançantes que Dancer, a música seguinte, que nem uns sopros de brincadeira possui, para alegrar um pouco os ouvidos… (percebeu alguma coisa no tom dessa frase?). Mas falando sério: tanto Staying Power quanto Dancer são boas canções. A primeira se afasta bastante de tudo o que o Queen já havia produzido, mas Dancer não é tão diferente assim, nem para o Queen nem para o rock mais ousado da época, que misturava batidas em ritmos dançantes a riffs criativos e uma letra despreocupada. Para um ouvinte qualquer que conhecesse apenas essas duas faixas e não o restante do álbum, talvez fosse insanidade a recepção de Hot Space por parte dos fãs. Mas aí esse mesmo ouvinte qualquer vai para a faixa três. E começa a entender o ódio.

Back Chat é uma estranha composição de John Deacon dentro da mistura entre soul, funk, rock e disco. E é uma composição estranha porque em termos de estrutura é bem difícil de se analisar. Além dos ciclos (com a repetição do título), temos pedrões instrumentais e vocais em andamentos sensivelmente diferentes, o que em alguns momentos nos chama a atenção positivamente mas depois enjoa. A bateria eletrônica aqui é um incômodo que poderia ter sido evitado (imagino a raiva de Roger Taylor ao ter que gravar uma coisa dessas) e o uso de sintetizador piora as coisas. Mas, como diz o ditado, se está ruim, pode piorar. E nesse caso, ela piora em níveis inimagináveis com a canção seguinte, a infame…

Body Language. Que atrocidade! Sem guitarra, com três dezenas de repetição da mesma palavra (na forma lírica a faixa até tem semelhanças com outra canção de Mercury, Get Down, Make Love) e com modulações bem gratuitas entre versos e estrofes, a faixa é, na minha opinião, a pior coisa já gravada pelo Queen e a pior composta por Mercury. E olha que tem uma ou outra música da banda que eu não gosto (são bem poucas) mas nada como essa aqui. E o mais engraçado é que ela alcançou 1º lugar nas paradas canadenses; 11º nos EUA e 25º no Reino Unido! As pessoas realmente gostaram dessa blasfêmia!

E se você achava que só a música era ruim, veja o clipe…

Este lado do disco termina com uma música de Roger Taylor, Action This Day, que tem um terrível saxofone no sinterizador e bateria eletrônica (de novo!), além de pretensiosos blocos tonais cuja intenção era dar maior riqueza às passagens entre as estrofes ou repetições, uma estratégia que funciona até certo ponto, mas o já (mal)dito sax sintético e a estranhíssima produção da faixa não nos deixam curti-la por inteiro sem encontrar algum defeito.
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LADO B

Para mim, o lado B é o que faz o disco ser apenas regular e não ruim (isso, em avaliação recente). Para começar, temos a excelente Put Out the Fire, a faixa antibelicista de Brian May que nos lembra muito algumas obras do Queen em discos como Sheer Heart Attack ou News of the World. Ao lado de Under Pressure, essa é uma das faixas que eu não mudaria se pudesse mexer na produção de Hot Space.

O assassinato de John Lennon, em dezembro de 1980, mobilizou um grande número de colegas de profissão a lhe fazerem homenagens. O Queen também não ficou de fora e foi Mercury quem compôs a faixa Life Is Real (Song for Lennon), uma balada-tributo de forma bastante simples, arranjo simples (até o sintetizador é bem utilizado aqui), com piano, baixo e guitarra em pequenas e boas participações. As linhas harmônicas são fortes e a única coisa que talvez incomode um pouco é a repetição do verso life is real, mas isso faz parte da homenagem porque traz o formato mais comum de composição de Lennon.

Na sequência temos a pouco inspirada Calling All Girls, que tem raízes no filme THX 1138, de George Lucas, e mostra mais uma vez a paixão de Roger Taylor por ficção científica. A letra é inteiramente situada nesse gênero e a “mensagem de amor” é bem colocada nos versos, assim como a criação de um futuro distópico. Porém, comparada à balda de amor que temos logo na sequência, Las Palabras de Amor (The Words of Love), Calling All Girls perde força. Composição de Brian May, Las Palabras de Amor sempre me pareceu estranha por conta de seus versos em espanhol. E não digo que isso atrapalha a minha apreciação da música, que acho muito boa (afinal, é uma balada ao velho estilo Queen que bem conhecemos!), mas os versos em espanhol não me soam bem. E é legal vermos a preocupação da banda em mais uma vez homenagear seus fãs, aqui, os latino-americanos. Eles tinham passado bons (e maus) bocados na turnê pela América Latina, mas a lembrança das partes boas é que ficou e o resultado pode-se ouvir aqui.

Agora… um momento de revelação. Digam o que disserem. Mandem me queimar nas fogueiras do funk, mas eu simplesmente amo Cool Cat. Juntamente com Under Pressure é a minha favorita do álbum. Acho-a sexy, maravilhosa de se ouvir; gosto muito da execução de John Deacon ao baixo (com um slap — a lateral do polegar batendo nas cordas a fim de gerar sons de percussão — que caiu bem à proposta da faixa) e falsettos elogiáveis de Mercury. Para mim, a canção mais sexy do Queen, na linha do dance e funk mais libidinoso que se multiplicaram ao final dos anos 1970.

E por fim, a gloriosa Under Pressure, em parceria com David Bowie (que também estava em Cool Cat, mas não gostou do resultado e pediu para tirar os seus poucos vocais de fundo da faixa). Só o encontro entre esses gigantes valeria a menção da música como uma das mais icônicas do Queen, com um gancho de baixo viciante e, mais uma vez, o retorno da banda ao seu território dos anos anteriores, com belas harmonias de guitarra e vocais.

Percebam que o lado B tem mais guitarra que o A e é mais parecido com algo típico da banda. O meu maior lamento em termos de faixas produzidas durante este álbum e que não entraram na versão oficial (apenas como lado B do sigle Under Pressure) é a fenomenal Soul Brother, declaração de amor, amizade e irmandade de Mercury para Brian May. Em 2011, ela foi lançada remasterizada em um EP com outras 4 faixas de Hot Space, mas nunca recebeu lançamento oficial. Infelizmente. Ouçam só essa maravilha.

E aqui ficamos. Eu achei que seria muito penoso escrever sobre esse álbum que eu tanto odiei por muito tempo, mas não foi nada disso. Acho que eu precisava de alguns anos e audições sem preconceito para aceitar a obra. Ainda considero o pior do Queen, mas não é um disco ruim. E encerro aqui. Agora é a vez de vocês.

Aumenta!: Under Pressure
Diminui!: Body Language
Minhas canções favoritas do álbum: Under Pressure  e  Cool Cat

Hot Space
Artista: Queen
País: Reino Unido
Lançamento: 21 de maio de 1982
Gravadora: EMI, Parlophone
Estilo: Funk Rock, Rock, R&B, Dance, Pop Rock, Disco, New wave

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.