Crítica | Hotel Transilvânia 2

estrelas 2,5

Em 2012, houve uma explosão de filmes de animação com temas semelhantes: o universo fantástico dos monstros representados por Frankenweenie, Paranorman e Hotel Transilvânia, sendo este último, o longa mais fraco. Com um faturamento de 380 milhões de dólares, a Sony não pensou duas vezes em encomendar uma continuação. E assim se fez a felicidade das crianças e a tristeza dos pais.

Com a solução da crise entre os monstros e humanos, o mundo mudou drasticamente. Agora, Drácula recebe humanos em seu hotel, assim como os monstros são aceitos na sociedade dos homens. Simbolizando essa nova era, a vampira Mavis e o humano Jonathan se casam e logo se tornam pais do simpático Dennis. Entretanto, o avô Conde Drácula, está cada vez mais desconfiado de que a criança seja apenas humana e não um vampiro como ele queria que fosse. Com isso, Drácula pede para Jonathan levar Mavis para tirar umas férias em Santa Cruz com sua família deixando Dennis no Hotel. Assim que eles partem, Drácula, Frankenstein, Wayne – o lobisomem, Griffin – o homem invisível e Murray – a múmia, partem em outra viagem com Dennis com o intuído de mostrar como é ser um monstro de verdade na tentativa de despertar a metade “vampírica” do garoto.

Agora, finalmente, as crianças poderão saborear o “talento” de Adam Sandler como roteirista. Além dele, Robert Smigel assina a obra. Como é esperado, o filme contém mais deméritos do que características realmente inteligentes e gratificantes.

Começando pelos personagens, por mais absurdo que pareça, Dennis, o garotinho de quatro anos, é o personagem mais complexo do filme inteiro. O conflito interno que ele carrega é bem trabalhado. A culpa baseada sempre na dicotomia entre ser monstro ou humano e no real significado de ser um “monstro” toca o espectador de modo que nos simpatizamos com o menino logo de imediato – o design gráfico do personagem colabora com a linha fofíssima que os desenhistas dedicaram neste filme.  É a clássica dicotomia entre ser bom ou mal que gera o questionamento muito digno no garoto. Entretanto, o desfecho disso tudo é bem decepcionante, pois não foge do esperado. Parece que na cabeça dos roteiristas, filmes para crianças devem seguir uma cartilha à risca para não surpreender ou ousar – um paradigma que já foi quebrado diversas pela Pixar e Dreamworks em Como Treinar seu Dragão.

A sacada principal do texto reside em trabalhar em clichês sempre eficientes: a exploração de mundos estranhos aos personagens, o retorno à ativa após um longo período aposentados, a relação familiar, aprender a lidar com as diferenças e a mudança das épocas.

Claro, tudo isso leva uma roupagem bem mais leve e cômica. Não espere reflexões Pixar em um filme como este. O desenvolvimento central se dá no conflito com Dennis apenas. O resto é um pano de fundo eficiente para trazer algumas piadas que certamente você já riu antes, mas apenas com situações diferentes. Como tudo isso é muito novo para a cabeça das crianças pequenas, elas se divertem à beça com o humor bem infantilizado do roteiro que aposta muito em piadas slapstick ou com trocadilhos bobocas. Para os adultos, bem, isso pode já não ser mais novidade, logo, não há muita diversão aqui.

A verdade é que o longa começa muito mal. Não há uma preparação para nada e tudo se desenrola com pressa. Isso para mim foi novidade, pois é mais comum encontrar filmes com finais apressados do que com inícios rápidos. Obviamente, isso deixa os espectadores de primeira viagem um tanto perdidos.

Outro problema do início do longa é o tom extremamente cômico e sem graça que certamente carregam a autoria de Adam Sandler. Há muitas piadas envolvendo temas contemporâneos como redes sociais, smartphones, músicas pop – aqui, literalmente a narrativa cessa para exibir uma cena de Dennis e Drácula dançando break, simplesmente ridículo.

Além disso, esse tipo de humor que trabalha com o estranhamento de personagens mais velhos com as recentes tecnologias já está mais que desgastado. Poucas piadas realmente trabalham com os personagens e suas essências clássicas da cinematografia – estas, quando surgem, são engraçadas, mas um tanto decepcionantes, pois são óbvias e previsíveis.

O desenvolvimento do restante dos personagens é irrisório também. Drácula é redundante ao extremo, cabeça dura até o fim do longa. Os outros monstros servem apenas para piadas. Raramente há um diálogo edificador para tentar mudar a opinião ou as ações do vampiro. Os humanos são ainda piores, já que todo o núcleo que concentra a família de Jonathan é porcamente explorado – são personagens estúpidos e apáticos. Porém nem todo o elenco humano consegue superar a chatice e superficialidade de Jonathan.

O marido de Mavis já não cativava no primeiro filme, agora muito menos já que a abordagem sempre estupida e surreal do personagem se manteve aqui. As motivações dele são menos que legitimas, ele ainda é infantilizado, sua mochila continua a ser mais importante que Mavis e nunca o roteiro apresenta trata a relação paterna de Jonathan com Dennis – certamente, uma pena, pois a maternidade de Mavis é bem desenvolvida.

Após anos trabalhando para o Cartoon Network com produções queridíssimas da minha infância como Samurai Jack, As Meninas Super-Poderosas e O Laboratório de Dexter¸Genndy Tartakvosky pôde estrear nos cinemas em 2012 com Hotel Transilvânia. Agora, para a nossa sorte ele retorna para a direção do segundo.

Infelizmente, Tartakovsky já não é mais o mesmo diretor perspicaz de outrora – seja pelo tempo ou por amarras criativas dos produtores. Nitidamente esse longa é muito mais infantilizado que o outro. Agora o público alvo são as crianças mais pequenas – algo que é sempre muito difícil de trabalhar, por isso as piadas e o texto são mais limitados, logo, isso se reflete diretamente na direção de Tartakovsky que sempre foi especializado em desenhos para crianças um pouco mais velhas.

O diretor já marca algumas presenças autorais em abrir o filme exatamente com o mesmo plano do longa anterior— algo que achei realmente interessante, mas depois disto, ele passa a guiar o longa no automático já que as sacadas visuais criativas ficam cada vez mais raras. Um dos deslizes do diretor se refere na continuidade da diegese que ele propõe. Existe uma piada recorrente no longa na qual caçoa do Drácula por não conseguir mexer em seu smartphone da Sony por conta de suas grandes unhas – repare em quantas vezes algum produto da Sony aparece no filme, péssimo hábito da produtora/distribuidora. Entretanto, logo depois, em outras cenas, a mão do personagem aparece em primeiro plano e, subitamente, as longas unhas do vampiro desaparecem – pelo visto há uma manicure a solta no Hotel Transilvânia.

Toda a linguagem cinematográfica é correta, praticamente impecável, com enquadramentos bonitos que valorizam o design de produção dos cenários, além da iluminação pensada que não foge do básico. O timing cômico é igualmente certeiro – baseia-se, inclusive, nessa característica em Frango Robô. É interessante notar como a técnica da animação mudou – muito mais exagerada que a do primeiro filme.

O traço dos personagens ainda continua o mesmo, excetuando Mavis que agora passa a ter o corpo de uma mulher após o parto que ainda apresenta resquícios da gravidez – algo incomum em desenhos animados. Mas no que tange as expressões faciais, Tartakovsky e os animadores trabalharam com inspiração em desenhos como O Incrível Mundo de Gumball nas quais os olhos possuem maior expressividade, além de se basear muito mais na caricatura bem exagerada.

Já para Dennis, a reprodução do personagem é tão agradável quanto a dos demais. Esbanja fofura e nos desperta simpatia no primeiro contato. Também tive a impressão de encontrar algumas semelhanças na expressão corporal do personagem com às do protagonista do desenho infantil Pocoyo.

Hotel Transilvânia 2 é um bom filme para as crianças pequenas – na faixa etária dos 3 a 7 anos de idade. Agora, se você for alguém mais velho ou se seus filhos já são um pouco mais crescidos e com um repertório básico de filmes na cabeça, certamente perderão seu tempo.

O longa é um festival de clichês que funcionam e reapresenta conceitos e mensagens que sempre são relevantes – ainda que faça apenas o básico e não adicione nada. O roteiro fraco, a direção um tanto exagerada e a recorrente exploração das “novas tecnologias” que na verdade são apenas um gatilho de marketing, tornam esse longa pouco expressivo em um gênero que não cansa de surpreender e apresentar ideias novas. É verdadeiramente uma pena, pois o universo “monstruoso” em que ele se sustenta é extremamente rico e poderia trazer histórias maravilhosas para todos nós.

É aquela antiga verdade: alguns simplesmente escolhem ser medíocres.

Hotel Transilvânia 2 (Hotel Transylvania 2, EUA, 2015)
Direção: Genndy Tartakovsky
Roteiro: Adam Sandler, Robert Smigel
Elenco: Adam Sandler, Andy Samberg, Selena Gomez, Kevin James, Steve Buscemi, David Spade, Keegan-Michael Key, Fran Drescher, Asher Blinkoff
Duração: 89 minutos

MATHEUS FRAGATA . . . Estudo cinema na UFSCar seguindo o sonho de me tornar Diretor de Fotografia. Sou apaixonado por filmes desde que nasci, além de ser fã inveterado do cinema silencioso e do grande mestre Hitchcock. Acredito no cinema contemporâneo, tenho fé em remakes e reboots, aposto em David Fincher e me divirto com as bobagens hollywoodianas. Tenho sonhos em 4K, coloridos e em preto e branco. Sempre me emociono com as histórias contadas por esta arte. Agora busco a oportunidade de emocionar alguém com as que tenho para contar.