Crítica | Hotel Transilvânia 2

Em Hotel Transilvânia, o Conde Drácula (Adam Sandler) tentava proteger a sua filha dos humanos. Já na sequência da fraca animação original, os papéis são invertidos, com Mavis (Selena Gomez) buscando proteger seu filho dos monstros, entendendo que morar com os pais de Johnny (Andy Samberg) é o ideal para a criação do menino. Enquanto isso, o Conde Drácula quer que o seu neto revele sua faceta monstruosa, ainda escondida ou então, para delírio do avô, nem mesmo existente. Sendo assim, não é como se a história fosse ruim, impossível de ser aproveitada. Existem bons conceitos em tudo isso. O mais incrível de tudo, nesses dois filmes, é a capacidade dos realizadores, carregando o medíocre histórico da Sony Pictures Animation, em transformar toda a experiência em uma bobagem bastante da desinspirada, ainda mais sob o comando do ótimo Genndy Tartakovsky. A própria narrativa em si, embora fluida e sem cansar, no máximo divertidinha, é, ainda assim, completamente infantil, baseada no que é mais fácil para os responsáveis do filme amarrarem evento com evento. A questão é que existem diferenças extremas entre um filme voltado ao público infantil de um filme, em si, infantil. Hotel Transilvânia 2 é parte do segundo caso.

A comédia também é um problema, repetindo piadas, mesmo que funcione pontualmente. Johnny, por outro lado, é o representante de toda a bobeira entrelaçada com a estrutura narrativa do filme. O personagem, apesar de ser um adulto, pai e marido, comporta-se da mesma maneira que no filme anterior, como se ainda fosse um adolescente – Andy Samberg, dessa forma, está horrível no papel. O desenvolvimento é nulo, as situações são reiteradas, cansando, e, novamente, termina-se o filme com o mesmo coadjuvante que começou. A participação de Johnny no plano do Conde Drácula, um dos mais bobinhos, não faz o menor sentido. Todos os pretextos são fáceis e óbvios. O pior é que, contando com uma vasta coleção dos monstros mais amados do cinema, como o monstro de Frankenstein, interpretado por Kevin JamesHotel Transilvânia 2 talvez seja um dos ápices da categoria “filme com uma imensidão de coadjuvantes bonitinhos, mas vazios”. Nenhum dos amigos de Drácula trabalha para algo acontecer efetivamente na história senão em piadas pontuais. A participação é passiva, sendo mais acessórios superficiais do que qualquer outra coisa, ao menos, acessórios visualmente belos – a animação tem seu estilo. O exagero é tão grande que a matilha de lobisomens está mil vezes maior.

Ademais, apesar de ser interessante uma anacronia de monstros seculares estarem situados nos dias de hoje, a relação do longa-metragem com a música é bastante questionável. Quando tenta fazer piada, Hotel Transilvânia 2 diverte, inserindo canções populares para causar esse efeito de absurdo, mas, em outra instância, ao tentar empolgar o espectador com umas batidas mais novas, comprova-se o desespero da obra em se adequar completamente ao público de hoje, sem tentar possuir sua própria cara, dialogando. O filme termina por exprimir uma falta de inventividade, que prejudica um enredo consideravelmente atraente. No final das contas, estamos falando de uma narrativa sobre pais e filhos, sempre interessante, mas que peca por não saber exatamente o que falar sobre tudo isso, permanecendo na área do genérico, porém, consideravelmente funcional. Infelizmente, dado esse distúrbio cinematográfico da peça, a personagem Mavis, a com maior potencial, acaba sendo diminuída em prol de bobeiras e mais bobeiras. Quando o dramático surge, intensificado por olhos bastante emotivos e chamativos, quebra-se o lado lúdico da obra, sendo mais uma barreira para o prosseguimento do que o prosseguimento em si.

Por fim, Hotel Transilvânia 2 termina inserindo uma tentativa de discursar sobre preconceito, adequando o núcleo de monstros, com a introdução do pai de Drácula, Vlad (Mel Brooks), um enorme inimigo dos humanos, ao núcleo dos pais de Johnny, preconceituosos a sua forma. A apresentação do personagem é exatamente no terço final da fita, sem qualquer coesão, como se fosse um epílogo ou episódio a parte do todo; o clássico dois filmes em um. A justificativa para a sua vinda, novamente, é bastante fácil. Teria sido mais produtivo que Vlad viesse de encontro à Mavis, e não a garota procurando seu avô, que não teve nenhum relacionamento com ela na vida. Como toda a questão de preconceito é discorrida nessa pequena parte do filme, a conclusão é de uma pressa sem muita essência.  Os melhores momentos da fita acabam sendo o olhar amoroso de Drácula – que funcionaria mais se Adam Sandler não fosse exagerado e não estivesse diante de um roteiro cheio de passagens bobas – em relação ao seu neto Dennis (Asher Blinkoff). Enquanto, no final das contas, é notável um amadurecimento de Drácula, infelizmente, percebe-se uma imaturidade da franquia em lidar com uma subversão paródica de monstros, desperdiçando mais uma oportunidade de ser substancial.

Hotel Transilvânia 2 (Hotel Transylvania 2) – EUA, 2015
Direção: Genndy Tartakovsky
Roteiro: Adam Sandler, Robert Smigel
Elenco: Adam Sandler, Andy Samberg, Selena Gomez, Kevin James, Steve Buscemi, David Spade, Keegan-Michael Key, Fran Drescher, Asher Blinkoff
Duração: 89 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.