Crítica | Hotel Transilvânia 3: Férias Monstruosas

Para os leigos na mitologia impressionante de Hotel Transilvânia, o “tchan” é um jargão vampiresco para os amores à primeira vista, daqueles dignos de protagonizarem as mais lindas histórias de amor. Embora tratando desse viés romântico de uma maneira suavizada, Hotel Transilvânia 3: Férias Monstruosas diferencia-se muito dos longas anteriores da franquia ao investir mais no psicológico interno do Conde Drácula (Adam Sandler), que perdeu sua amada, o seu “tchan”, precocemente, há muito tempo atrás. O começo da obra, por sinal, é magnífico. Um casamento acontece dentro do Hotel Transilvânia, morada de centenas de monstros, e, durante a celebração, Drácula percebe a sua solidão enquanto os casais vão se unindo em uma dança. Entre os amigos mais próximos do vampiro, o lobisomem tem a sua loba, o homem-invisível tem a sua mulher invisível e o monstro de Frankenstein, claramente, a noiva de Frankenstein. O humor retorna na ótima cena em que o protagonista tenta encontrar uma web-namorada. A jornada, portanto, é de reconciliação de Drácula com o amor.

O mais impressionante é como o filme, também o mais impressionante no visual, consegue ser o mais certeiro, dentre os três, nas piadas apresentadas, apesar de continuar permanecendo com algumas reiterações daquele blablablá sem graça, além das inúmeras vezes que coloca o Drácula atrapalhando-se diante de Erika (Kathryn Hahn), seu interesse amoroso, capitã do cruzeiro no qual todos os monstros do hotel embarcam, impulsionados pelo interesse de Mavis (Selena Gomez) em dar algumas férias para seu pai. Todavia, por outro lado, o longa investe em soluções cômicas mais inteligentes. A resposta à problemática final, baseada em um deus ex-machina interessante, no combate contra o grande inimigo da fita, é bastante inventiva, divertidíssima, casando com a esfera lúdica da obra e agradando tanto crianças quanto adultos. Mesmo assim, a obra tem pouquíssima relação com o público adulto, apesar de conseguir se conciliar mais com ele agora do que outrora. Em diversas ocasiões, blocos inteiros com interesse cômico surgem, como as aventuras de Dennis (Asher Blinkoff) ao lado do seu animal de estimação – que, por algum motivo, ninguém reconhece – atrapalhando a fluidez da história.

Dessa maneira, também é frutífero para a obra o fato dela ter sucesso em se desvencilhar de temáticas genéricas relacionadas a férias, algo bastante comum em franquias cinematográficas. O filme consegue falar algo sobre descansar, sobre lazer, como é no caso da sub-trama envolvendo Wayne (Steve Buscemi) e Wanda (Molly Shannon), podendo deixar os seus incontáveis filhotes sob os cuidados de funcionários do hotel. Algumas boas cenas surgem disso, mas, novamente, a costura é extremamente fraca, sendo as consequências da descoberta, por parte do casal, de uma conspiração envolvendo o cruzeiro, nulas para o resultado geral da narrativa. A mesma coisa pode ser dita sobre a história paralela envolvendo Dennis. Em uma visão geral, se, por um lado, Johnny permanece igual a suas representações nas obras anteriores, denotando nenhum crescimento ou transformação, irritando o espectador mais atento desse exagero, o trabalho de voz feito por Guilherme Briggs em português, consequência da sessão assistida pelo crítico ter sido dublada, para os peixes monstros, funcionários do hotel, é sensacional, conseguindo encantar nas diversas linhas de diálogo de seus personagens.

Porém, um ponto positivo não salva um texto perturbadoramente expositivo, recontando e contando planos malignos, sentimentos e passados. Contrariando, contudo, uma visão negativa sobre os antagonistas do longa, característica que torna Hotel Transilvânia 3 a primeira abordagem da franquia com um vilão claro, a participação de Van Helsing (Jim Gaffigan) e, consequentemente, de sua bisneta, é louvável. Temos uma virada interessante, que coloca o herói para se tornar bandido, desesperado em caçar monstros, os reais mocinhos de tudo isso. A conclusão da fita é, no todo, bastante satisfatória, por concretizar, com mais clareza do que no filme anterior, uma mensagem sobre coexistência entre o diferente. Ao relacionar Drácula com uma descendente de seu maior inimigo, a animação também permite-se inventar dinâmicas inéditas, uma excelente saída para uma narrativa, ainda assim, previsível. Portanto, Férias Monstruosas surpreende por ser a melhor incursão da fraca franquia que parodia os monstros, dessa vez, fazendo isso de uma maneira mais sagaz, sem subestimar tanto o seu público infantil.

Hotel Transilvânia 3: Férias Monstruosas (Hotel Transylvania 3: Summer Vacation) – EUA, 2018
Direção: Genndy Tartakovski
Roteiro: Genndy Tartakovski
Elenco: Adam Sandler, Andy Samberg, Selena Gomez, Kevin James, David Spade, Steve Buscemi, Keegan-Michael Key, Molly Shannon, Fran Drescher, Kathryn Hahn, Jim Gaffigan, Mel Brooks, Asher Blinkoff
Duração: 97 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.