Crítica | House of Cards – 1ª Temporada

House of Cards im des

estrelas 4,5

Começando discretamente com Lilyhammer, a Netflix rapidamente alcançou maturidade na produção própria de séries de TV com House of Cards, baseada na minissérie britânica homônima, de 1990, baseada por sua vez em romance de Michael Dobbs, que conta os esquemas políticos do chief whip (literalmente “chicote chefe”, que é quem faz tudo para que os membros do partido votem de acordo com os interesses do partido) do Partido Conservador britânico para se tornar Primeiro Ministro. A Netflix, vendo futuro nessa série e colocando a bordo como produtor executivo o próprio Kevin Spacey, que protagoniza a nova série e David Fincher, grande diretor, conseguiu criar um drama político denso, bem escrito e viciante.

Na série americana, Spacey é Frank Underwood, o House Majority Whip (mesma função do chief whip que descrevi acima) do Partido Democrata, que é o partido do presidente eleito Garrett Walker (Michel Gill). A trama começa com sua ambição de se tornar Secretário de Estado sendo destruída pela chefe de staff do presidente, Linda Vasquez (Saquina Jaffrey), que aponta outro nome em seu lugar. Esse evento dá partida, então, a uma deliciosa e incrivelmente intrincada trama de vingança arquitetada pela brilhante e amoral mente de Underwood.

A série é brilhante ao nos transformar imediatamente cúmplices desse canalha que é o protagonista, de forma muito parecida ao que Stanley Kubrick faz em Laranja Mecânica. Como Underwood é o narrador e, ainda por cima, conversa diretamente conosco, os espectadores, no estilo de quebra da quarta parede de Curtindo a Vida Adoidado (mas sem as piadas, claro), não temos como deixar de nos identificar com o personagem e, sim, torcer por ele. E Spacey dá um show de atuação, mostrando inteligência, esperteza e, sobretudo, uma capacidade de nos envolver diretamente e pessoalmente com seu estratagema. Sim, o texto é às vezes complicado e exige um boa dose de atenção, mas o showrunner Beau Willimon (com grande ajuda de David Fincher, que carregou o projeto nas costas e dirigiu os dois primeiros episódios), fez um trabalho muito eficiente ao misturar de maneira sutil textos expositivos para nós entendermos o que está acontecendo e diálogos realmente necessários à trama. É, sem dúvida alguma, o melhor roteiro de trama política desde os anos de ouro de West Wing.

Mas Spacey não está sozinho. Ao seu lado está a belíssima Robin Wright, no papel de Claire, esposa de Frank. Claire é a versão feminina de Frank, na verdade. O casamento dos dois é literalmente um contrato em sua acepção mais técnica. Os dois estão juntos, pois eles sabem que, assim, ambos poderão galgar os degraus de suas respectivas ambições mais facilmente. Claire trabalha em uma ONG que procura levar água à comunidades africanas que precisam, mas sua forma de trabalhar emula em muitos momentos a de Frank e vice-versa. Com isso, vemos não só os meandros políticos como os meandros sociais de uma organização sem fins lucrativos. Podem parecer dois assuntos diferentes, mas tenham certeza que eles são extremamente próximos, incestuosos até.

Para dar impulso ao seu projeto de vingança contra o presidente, Frank faz uso de Zoe Barnes (Kate Mara), uma repórter do The Washington Herald que, assim como ele, quer subir vários degraus na vida o mais rápido possível. Assim, de maneira muito semelhante à forma que o relacionamento entre Frank e Claire começou, Frank e Zoe também passam a se relacionar, com Frank alimentando Zoe de informações e Zoe fazendo o trabalho de divulgá-las. Mas claro, essas informações são as informações que estrategicamente Frank quer que saiam por aí. Se existe algum personagem do meio audiovisual que literalmente não faz “ponto sem nó”, esse é Frank Underwood.

Sempre ajudado por seu fiel escudeiro Doug Stamper (Michael Kelly), que trata de fazer absolutamente todo o serviço sujo necessário para promover seu chefe, Frank não mede consequências para alcançar seu objetivo e manipula pessoas sem a menor dó, sem pensar duas vezes no que isso pode causar para famílias inteiras, cidades inteiras até. Vale especial nota sua manipulação do deputado Peter Russo (Corey Stoll), pai de dois filhos que adora prostitutas e drogas, mas que Frank “convence” a concorrer ao cargo de governador da Pennsylvania. É estarrecedor o desenvolvimento dessa narrativa – que pode ser chamada de principal nessa 1ª Temporada – e a capilaridade de suas consequências, que levam diretamente à 2ª Temporada. Stoll consegue fazer um convincente e comovente papel, que, a não ser nos momentos em que contracena com Spacey, comanda as sequências.

Nem tudo são flores, porém, nesse castelo de cartas que é a 1ª Temporada. Apesar dos primeiros segundos do primeiro episódio deixarem claro que Frank é capaz de fazer aquilo que os outros não têm coragem de fazer (ele discretamente quebra o pescoço do cachorro do vizinho que acabara de ser atropelado) e isso combinar com uma determinada ação que ele faz mais para o final da temporada, creio que sua decisão é precipitada demais e, nesse momento, Frank deixa de ser Frank. É um daqueles pontos em que a trama política passa a ser uma trama policial que não encontra eco das demais ações do personagem em tudo que veio antes. É claro que isso não estraga a série. Longe disso, aliás, mas é um verdadeiro escorregão do roteiro que, depois do evento, não se recupera completamente.

Mas, se existe esse problema, que considero sério, há outros momentos absolutamente embasbacantes e, mantendo o mistério para não estragar o prazer de ninguém, o episódio em que Frank volta à sua faculdade para participar da inauguração da nova biblioteca que leva seu nome e reencontra seus velhos amigos é de um brilhantismo incrível, não só pela qualidade da direção, quanto também pela montagem, atuação e especialmente pela forma delicada, indireta e inteligente que o roteiro aborda um episódio do passado do anti-herói. É um daqueles momentos televisivos em que o espectador deixa o queixo cair e tem vontade de ver tudo novamente só em razão dessas sequências.

House of Cards é uma série sólida, uma bandeira da Netflix profundamente fincada no veio produtivo de séries de TV, um verdadeiro marco nos serviços de streaming e  um absoluto prazer audiovisual. É a oferta da televisão aumentando e eclipsando a oferta cinematográfica. É aguardar para ver onde isso vai dar.

House of Cards – 1ª Temporada (Idem, EUA – 2013)
Showrunner: Beau Willimon
Direção: vários
Roteiro: vários
Elenco: Kevin Spacey, Robin Wright, Kate Mara, Corey Stoll, Michael Kelly, Sakina Jaffrey, Kristen Connolly, Sebastian Arcelus, Michel Gill, Boris McGiver, Constance Zimmer
Duração: 675 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.