Crítica | House of Cards – 2ª Temporada

estrelas 4,5

Atenção: Há inevitáveis spoilers da temporada anterior. 

Na primeira e sensacional temporada de House of Cards, Frank Underwood (Kevin Spacey) iniciou seu projeto de vingança política depois de ter sido preterido no cargo de Secretário de Estado pelo presidente dos EUA. Seus planos maquiavélicos, que não perdoam ninguém, o catapultaram da função de House Majority Whip para vice-presidente do país.

Mas isso não é suficiente para Frank. Sua vingança tem como alvo uma pessoa só: o próprio presidente dos EUA, o inseguro Garrett Walker (Michael Gill). E esse é o objeto da segunda temporada: o que Frank tem que fazer para forçar sua nomeação com o presidente americano. Por trás da locomotiva que é Frank Underwood, temos sua esposa Claire (Robin Wright), fazendo valer aquele ditado “por trás de todo grande homem, há sempre uma grande mulher”. Claro que o adjetivo “grande” deveria ser trocado por “mau” ou “maquiavélico” ou qualquer coisa do gênero, mas é perfeitamente possível entender o que quis dizer. Claire é mais ambiciosa ainda que seu marido. E isso fica mais evidente ainda nessa temporada, já que muitos episódios são focados nela, em razão de seu estupro quando mais jovem e como ela perverte a informação de forma a transformá-la em um instrumento para alavancar seus próprios planos de crescimento.

E a temporada já abre com um eletrizante episódio que, de certa forma, encerra o arco narrativo envolvendo Zoe Barnes (Kate Mara), a repórter que ajuda Frank na primeira temporada, mas que começa a pensar duas vezes sobre suas ações. O espectador que, como eu, tinha dificuldades de aceitar o lado mais sombrio de Frank, é literalmente obrigado a aceitá-lo como parte de sua personalidade ou de sua irrefreável vontade de alcançar o status de presidente dos EUA. E é bom que o envolvimento direto de Frank em atividades ilícitas aconteça ainda nesse primeiro episódio, pois, depois, a narrativa fica livre para colocar o protagonista como o mestre manipulador de marionetes.

Com isso, a narrativa se divide em três. A primeira delas é tangencial, uma espécie de resquício do trabalho de Zoe Barnes, com Lucas (Sebastian Arcelus) investigando Frank com ajuda de um hacker. A segunda é oriunda do plano de Frank de minar Peter Russo (Corey Stoll) na temporada anterior, o que deixa Doug Stamper (Michael Kelly), seu braço direito, lidando com Rachel Posner (Rachel Brosnahan), a prostituta usada para manipular Russo. Doug é um ser dividido entre cumprir caninamente sua função e seus sentimentos por Rachel que ele tenta, de todas as maneiras, suprimir. E, finalmente, a terceira e principal narrativa é a de Frank e Claire fazendo o que é necessário fazer – doa a quem doer – para levar Frank à presidência.

Estabelecida essa estrutura, passamos talvez para o “tema” de toda a temporada: a amizade. Vemos Frank se aproximar mais ainda de seu guarda-costas Edward Meechum (Nathan Darrow), de seu cozinheiro de costeletas favorito, Freddy (Reg E. Cathey) e de Jackie Sharp (Molly Parker), a deputada que substitui Frank como House Majority Whip. Mas também vemos sua inimizade com o bilionário Raymond Tusk (Gerald McRaney), amigo pessoal de Garrett e um especialista em manipulação política, que ainda conta com a ajuda do lobbysta Remy Denton (Mahershala Ali), crescer exponencialmente. A tensão entre as forças é evidente e elas pendem ligeiramente para o lado de Raymond, que tem dinheiro infinito ao seu lado para literalmente fazer o que quiser. Frank sabe que controlar Raymond é ganhar a presidência.

A história, então, assume contornos de guerra campal, com cada um dos lados fazendo o que tem que fazer para ganhar. A manipulação política atinge até um bilionário na China, cassinos indígenas nos EUA e um sem-número de deputados e senadores que, como a série deixa muito claro, se venderão à proposta mais atraente (nada diferente do que vemos aqui no Brasil todos os dias, não é mesmo?). A impressão que dá, durante toda a temporada, é que Frank, apesar de toda sua inteligência, está sempre a um passo atrás, sempre correndo atrás da terra arrasada deixada por Raymond e Remy. Mas Frank tem um trunfo na manga: sua esposa Claire. E a dupla Claire-Frank é próxima de invencível, mesmo que, para isso, eles tenham que sacrificar seus amigos e ficar sozinhos no mundo. Volta, então, o tema da amizade e o quanto ela verdadeiramente significa no jogo político de alto (ou baixo, dependendo de sua intepretação) nível.

Com um roteiro repleto de diálogos muito bem escritos e um elenco de se tirar o chapéu, com especial destaque para Spacey e Wright, a segunda temporada de House of Cards é, sem sombras de dúvida, uma das melhores séries políticas já feitas. Não é perfeita, pois a manipulação de Frank depende demais de sorte, algo que o roteiro não consegue se esquivar completamente. Claro que sorte faz parte de qualquer jogo, mas o roteiro parece precisar demais disso, especialmente mais para o final da temporada, com Frank quase que completamente sozinho em seu jogo.

No final, há um novo status quo e a terceira temporada, já aprovada para produção, terá que trabalhar muito bem o roteiro para permitir mobilidade à Frank e Claire, algo cada vez mais difícil. No entanto, é perfeitamente possível vislumbrar, com as pontas soltas deixadas, o caminho que será tomado. Com certeza seremos testemunha de uma tensa e suja jornada.

House of Cards – 2ª Temporada (Idem, EUA – 2014)
Showrunner: Beau Willimon
Direção: vários
Roteiro: vários
Elenco: Kevin Spacey, Robin Wright, Kate Mara, Michael Kelly, Sakina Jaffrey, Kristen Connolly, Sebastian Arcelus, Michel Gill, Boris McGiver, Constance Zimmer, Gerald McRaney, Nathan Darrow, Mahershala Ali
Duração: 675 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.