Crítica | House of Cards – 3ª Temporada

estrelas 4,5

Obs: Há spoilers das temporadas anteriores e spoilers leves da 3ª Temporada. 

Frank Underwood (Kevin Spacey), passado para trás pelo presidente Garrett Walker que acaba com sua ambição de se tornar Secretário de Estado, faz absolutamente tudo para acelerar seus planos de ascensão política e, no processo, se vingar. Na 1ª temporada da mais importante série da Netflix, ele é bem sucedido em catapultar-se da posição de House Majority Whip para a de vice-presidente dos Estados Unidos.

Na 2ª temporada, os planos maquiavélicos de Frank continuam e, com muita dificuldade e costurando alianças aqui e ali e destruindo inimigo lá e acolá, ele consegue obter a renúncia de Garrett Walker, o que o torna o novo presidente dos EUA. O que mais ele poderia querer?

Mas, antes de responder a essa pergunta, um aspecto é importantíssimo ressaltar: desde os primeiros fotogramas da 1ª temporada, reparamos que Frank Underwood, na verdade, é uma das faces de uma moeda. A outra é sua belíssima esposa Claire (Robin Wright), diretora de uma ONG. Os dois trabalham em conjunto em prol de um mesmo objetivo, a Casa Branca. Nada mais interessa. Nada mais importa. Custe o que custar – amizades, amantes, vidas – eles chegarão lá.

Assim, com Frank/Claire no poder, volta a pergunta: o que mais eles podem querer? É nesse ponto que a moeda começa a discretamente se dividir. Frank deseja ser legitimado com uma reeleição em 18 meses. Faz sentido. Afinal, ele entrou “pela janela” e seu ego exige a aclamação popular. Claire, por sua vez, também quer um tipo de legitimação. A legitimação de que ela consegue caminhar sozinha, além da sombra projetada por seu marido. Ela deseja tornar-se embaixadora da ONU, representando os EUA, assim como Eleanor Roosevelt fora. Também faz todo sentido.

Mas Frank/Claire tem um problema: credibilidade. E é assim que a temporada começa, mostrando-nos sob o ponto de vista de Doug Stamper (não, ele não morreu e isso é revelado no primeiro segundo do primeiro episódio) que Frank não é lá muito popular com seus potenciais eleitores e, também, com o Congresso. Nenhum dos dois partidos principais – nem mesmo o dele! – o apoia e ele se encontra de mãos atadas.

O primeiro episódio, ao fugir do óbvio, que seria mostrar tudo sob o ponto de vista de Frank e/ou Claire, é brilhante. A passagem temporal ao longo da recuperação de Doug, com fragmentos de notícias aqui e ali faz o espectador literalmente entra na pele do ex-braço direito de Frank. Ficamos desesperados por notícias, que só vêm a conta-gotas, mas o roteiro é muito inteligente ao permitir que efetivamente saibamos tudo que precisamos para perfeitamente entendermos o status quo do agora presidente. Seis meses se passaram, sua popularidade caiu, ele tem problemas tanto internos quanto externos e vem tomando medidas impopulares, na base do braço de ferro, como não poderia deixar de ser em se tratando de quem se trata. Ao mesmo tempo, porém, nos compadecemos de Doug e de sua luta não para só ficar bom novamente, mas para voltar a trabalhar para Frank, já que, como sabemos, ele é caninamente servil a seu agora ex-chefe.

No entanto, a estrutura narrativa volta ao normal depois desse episódio, com poucas – e também muito boas – exceções desse ponto em diante. O mais importante, porém, é entender a proposta da 3ª temporada, pois ela é diferente das demais. Bem diferente. Sai o Frank Underwood extremamente maquiavélico (reparem que não estou usando “extremamente” à toa, já que ele continua maquiavélico) e entra um Chefe de Estado que quer se agarrar à sua posição de todas as maneiras, mas já não tem a maleabilidade ou mobilidade que antes gozava como Whip ou mesmo como vice-presidente. O homem mais importante do mundo não pode descer em uma estação de metrô e jogar uma repórter na frente de um trem ou matar um homem de asfixia na garagem. Raios, ele não pode nem mesmo mandar alguém fazer isso, não com os propósitos de antes.

Assim, o Frank Underwood da 3ª temporada é um homem diferente. Mas não diferente porque ele, de uma hora para outra, arrependeu-se do que fez e resolveu ser “bonzinho”. Longe disso! Ele é diferente porque ele tem que ser diferente. Não se esqueçam: ele, agora, é o presidente dos Estados Unidos, ora bolas. Além disso, o lado extremo de Frank, aquele que permitiu que ele próprio, sujando as mãos, se livrasse de Peter Russo e de Zoe Barnes, nunca verdadeiramente desceu pela minha garganta. Exagerado demais, impulsivo demais, exatamente o oposto do frio e calculista Frank Underwood.

Dessa maneira, enganam-se aqueles que acham – e já vi comentário internet a fora nessa linha – que Beau Willimon, o showrunner, resolveu atenuar Frank. Não. Ele adaptou o homem ao cargo. Se já era difícil acreditar na sana assassina dele anteriormente, como presidente seria ridículo.

Acontece que Willimon vai mais além ainda. E é nesse ponto que a série realmente, verdadeiramente, muda o enfoque. Agora as duas faces da mesma moeda passam a entrar em choque. Os interesses de Frank e de Claire começam a se chocar, a se afastar. E a temporada aborda essa questão literalmente durante todos os episódios de maneira que muitos podem considerar como repetitiva. Na verdade, porém, não é. Estamos falando de um casamento de conveniência, construído ao redor de um objetivo em comum. A pergunta que paira é: eles se amam apesar de tudo? E é essa uma das perguntas que Willimon tenta responder. Outras perguntas também poderiam ser feitas, uma delas sendo a aparentemente fria e insensível: importa mesmo que eles se amem?

Frank depende de Claire ou Claire depende Frank? Ou os dois são um só, na verdade? Trata-se de um relacionamento de quase 30 anos. E eles chegaram aonde queriam, mas querem mais. Um precisa do outro, mas um que se provar apesar do outro.

E cada episódio, cada personagem está lá para servir a esse propósito. Vejam, por exemplo, o novo Chefe de Gabinete de Frank, Remy Danton e sua relação agora platônica com a congressista Jackie Sharp. Remy tem a mesma função que Doug tinha, mas Remy é um outro tipo de funcionário. Ele tem moral. Ele tem remorso. E isso fica demonstrado com a paixão reprimida que sente por Jackie, algo evidente a cada olhar, cada gesto quando os dois estão juntos. Vejo essa relação distante, mas próxima como um espelho da relação entre Frank e Claire, próxima, mas distante. É um comentário sobre o amor e paixão e seu papel em um relacionamento.

O mesmo vale para o presidente russo Viktor Petrov (vivido por Lars Mikkelsen, irmão mais velho de Mads). Criado e interpretado para ser um fac-símile hilário de Vladimir Putin, sua presença não só enriquece a série, revestindo-a de contornos internacionais bastante próximos da realidade que nos cerca, como cria tensão entre Frank e Claire. Não tensão sexual ou amorosa – e eu não a descarto, apenas a considero menos relevante – mas sim a tensão gerada pela auto-consciência que suas exigências para a “paz mundial” geram no casal. Petrov brinca com os sentimentos dos dois, muitas vezes de maneira pouco crível, mas sempre muito eficientemente.

E eu poderia continuar listando aqui os personagens que apoiam o foco na abordagem do relacionamento entre presidente e Primeira Dama. Mas seria perda de tempo. Basta eu comentar apenas mais um: o romancista Tom Yates (Paul Sparks) que é contratado por Frank para escrever um livro falando bem de seu programa America Works, que objetiva dar emprego (e não vale-refeição!!!) para todos os desempregados dos EUA como parte de um plano maior. Yates é o homem que enxerga a relação Frank/Claire tanto de fora quanto de dentro, tendo acesso a informações e situações inéditas para alguém de fora da relação do casal. Com isso, temos a oportunidade de conhecer um pouco mais do passado dos dois e de revisitar assuntos que foram levantados nas temporadas anteriores sem que a situação seja forçada. Yates nós dá a desculpa que precisamos para nós quase que nos tornarmos ele, entrando e saindo da Casa Branca para entender o quebra-cabeças que são os Underwood. 

Não achem, porém, que House of Cards é integralmente sobre o relacionamento dos dois. Sim, a série – essa temporada mais especificamente – é sim sobre os dois, mas Willimon e os roteiristas não se furtam a trazer situações e questões interessantíssimas para a mesa. Liberdade de expressão, direitos iguais para os LGBT, paz no Oriente Médio, alocações orçamentárias são assuntos presentes vividamente e não só como perfumaria. Há abordagem suficientemente profunda para satisfazer, especialmente considerando que estamos falando de uma série de 13 episódios. Além disso, as maquinações de Frank continuam a todo vapor para que ele consiga equilibrar todos os problemas em uma das mãos e ainda dar atenção para os problemas “dentro de casa”. Vemos, com generosos graus de detalhe a relação confusa e conflituoso entre o Congresso e a Presidência e também passamos a observar a política suja dentro das Nações Unidas, algo raro de se ver em ficção.

Claro, há sensível falta de desenvolvimento de vários personagens e situações, especialmente Seth Grayson, ex-assessor de Claire e, agora, asssessor de Frank na Casa Branca, abaixo de Remy; Kate Baldwin (Kim Dickens), a nova repórter do Telegraph que vai cobrir a Casa Branca; Hector Mendoza (Benito Martinez), senador republicano e possível candidato a presidência que é literalmente retirado, sem cerimônia, da série; Freddy (Reg E. Cathey), o “homem das costeletas” que reaparece sem função clara na temporada e, finalmente, Edward Meechum (Nathan Darrow), tão importante na temporada anterior, mas que não é mais do que um rapaz de recados agora. Falhas de roteiro? Sem dúvida. Eles poderiam ter tido suas presenças cortadas? Alguns sim, outros não, mas encaro a pouca abordagem ou profundidade deles simplesmente por falta de espaço e pelo simples fato de que, sem alguns deles ao menos, ficaria a indagação “onde está fulano?” na cabeça do espectador.

Mas a temporada acaba como ela começa, em um movimento circular que fará sentido ao espectador que parar para pensar no objetivo maior, que é estudar o relacionamento entre Frank e Claire. O resto, sinceramente, é detalhe.

House of Cards – 3ª Temporada (Idem, EUA – 2015)
Showrunner: Beau Willimon
Direção: vários
Roteiro: vários
Elenco: Kevin Spacey, Robin Wright, Michael Kelly, Mahershala Ali, Molly Parker, Elizabeth Marvel, Derek Cecil, Nathan Darrow, Jimmi Simpson, Kim Dickens, Paul Sparks, Rachel Brosnahan, Reg E. Cathey, Alexander Sokovikov, Lars Mikkelsen, Jayne Atkinson, Benito Martinez
Duração: 675 min. (aprox.)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.