Crítica | House of Cards – 4ª Temporada

estrelas 4,5

Obs: Há spoilers somente das temporadas anteriores, cujas críticas podem ser lidas aqui

O presidente são as pessoas que trabalham para ele.
– Heather Dunbar, House of Cards

A mais relevante série produzida pelo Netflix ganha uma quarta temporada poderosa, mantendo a impressionante consistência que o showrunner Beau Willimon vem demonstrando desde a estreia da primeira temporada em 2013, quando a oferta de séries exclusivas pelo canal ainda não era muito mais do que uma (bem planejada) experiência. Com o anúncio, antes mesmo do lançamento da nova temporada, de que a série seria renovada para mais uma, só que sem Willimon, fiquei com receio sobre o futuro da série. Mas o que interessa é o presente não é mesmo? E a volta de Frank e Claire Underwood às telinhas não poderia ser melhor.

Com a terceira temporada sendo encerrada com um antológico momento de separação das duas faces da mesma moeda ambiciosa representada pelo casal protagonista, a quarta não se esquiva de lidar com as consequências imediatas deste momento, o que é um alívio para quem achava que a separação seria apenas um artifício inconsequente (ecos de Lincoln e seu “Uma casa dividida contra si mesma não pode permanecer.” são sentidos). Claire mudou-se para a casa de sua mãe, Elizabeth Hale (a sensacional Ellen Burstyn), enquanto Frank tenta lidar com o impacto disso em sua campanha eleitoral intrapartidária contra Heather Dunbar pelo direito de, então, concorrer à presidência e, finalmente, saciar sua ambição de entrar para os anais da História como um presidente escolhido pelo povo e não um que “entrou pela janela”, com a renúncia manipulada do anterior, Garrett Walker. Como história recorrente de fundo, há o passado sombrio de Frank, que mais uma vez começa a ser remexido por um Lucas Goodwin (o repórter que trabalhava diretamente com Zoe Barnes) agora fora da prisão, mas quase completamente sem esperanças.

Estas situações, porém, funcionam como a visão geral do começo da temporada, com as minúcias, então, sendo natural e fluidamente desenvolvidas ao longo da narrativa. Willimon explora, de forma inteligentíssima, toda – absolutamente toda – a bagagem do que veio antes, cada aspecto da mitologia que ele construiu ao longo dos 39 episódios antecedentes e que transformou Frank Underwood, o House-Majority Whip, em Frank Underwood, o presidente dos Estados Unidos, um degrau de cada vez. Com isso, o showrunner arrisca, pois ele acaba exigindo muito (mas não demais) da memória do espectador ao trazer de volta simplesmente cada um dos personagens, vivos ou mortos, que passaram pela série. É possível que alguns duvidem se essa grande quantidade de personagens que, claro, se juntam aos novos,  consegue ser bem trabalhada ao longo da narrativa e minha resposta, sem dar maiores detalhes para não estragar o prazer de se assistir à temporada, é um veemente sim, com apenas uma única exceção, Freddy, que dá as caras, mas sem maiores consequências, ainda que o momento seja memorável.

Outro risco que Willimon corre é quase que formalmente dividir a temporada – de 13 episódios, como sempre – em duas histórias ou duas meias temporadas razoavelmente separadas. Na primeira, o foco é o conflito intramuros dos Underwoods: a Primeira Dama e o Presidente estão separados e o que isso pode significar para a carreira dos dois. São seis episódios que fundamentalmente lidam com este aspecto e há um encerramento narrativo muito satisfatório para ele. Na segunda metade, Willimon então volta as câmeras quase que integralmente à campanha presidencial de Frank.

E o interessante é que, especialmente na primeira metade, também mostrando que não tem medo de inverter a lógica de sua criação, o showrunner, aponta seus holofotes para Claire. Claro, Frank está lá o tempo todo presente  (e ganha uma metaforização de pensamentos por intermédio de interessantes alucinações/pesadelos) ou se fazendo sentir presente, mas é Robin Wright que ganha o palco, inclusive atrás das câmeras, já que ela é responsável pela direção dos episódios 4X03 e 4X04 e, mais tarde, também dos 4X09 e 4X10. E o enfoque no lado feminino da série, com Claire no centro, sua forte, mas doente mãe ao fundo e com a contratação de LeAnn Harvey (Neve Campbell), uma consultora política do Texas, mesmo estado da família de Claire, ganha proeminência. A tríade feminina que toma de assalto os seis primeiros episódios da temporada funciona como uma máquina bem lubrificada, especialmente o conflito mãe-e-filha, já que LeAnn acaba nunca efetivamente aproveitada em seu potencial pelos roteiros.

Assim, Frank Underwood, o grande destaque das duas primeiras temporadas e que divide o palco com sua cara-metade na terceira, acaba indo, um pouco, para o segundo plano, permitindo uma visão refrescante e acima de tudo natural da série, com encaixe exato com o fim da temporada anterior. Diria até mesmo que, quando Frank volta a ser o foco das atenções, ele volta apenas a dividir novamente o palco com Claire, que permanece fortemente relevante para o desenvolvimento da narrativa.

Dentre os vários assuntos tratados, podemos ver um pouco de política externa, que mistura um reencenamento da crise do petróleo de 1973 com a relação estremecida com o presidente da Rússia, Put…, digo, Petrov, um pouco de política interna, com o projeto de lei sobre registro de armas (em clara e mais do que direta menção ao que Barack Obama recentemente conseguiu), o surgimento de uma entidade terrorista semelhante ao ISIs, batizada, na série, de ICO, ecos de Snowden com o uso de informações de ferramentas de busca para fins próprios, além das manobras dos Underwood para conseguirem o que querem, doa a quem doer, mesmo que a dor a ser infligida seja neles mesmos. Com isso, a temporada, como de praxe, não só olha para dentro da relação marital dos protagonistas, como, também, mantem-se relevante como comentário sobre a política americana (e, em última análise, de qualquer país desenvolvido).

No entanto, a segunda metade da temporada é ligeiramente mais fraca que a primeira, ainda que os dois episódios finais, focados em um problema doméstico (mas com repercussões internacionais) específico, ajudem a criar uma tensão inédita na série, mesmo considerando os diversos e desnecessários epílogos nos minutos finais. Nesta parte da temporada, o oponente de Frank é Will Conway (Joel Kinnaman de The Killing, em mais uma atuação excelente), governador de Nova York e candidato republicano à presidência introduzido de soslaio em episódios precedentes, mas só verdadeiramente aparecendo, um tanto quanto de repente, a partir do sétimo episódio. Conway, que usa sua boa aparência, sua juventude, seu serviço militar e, principalmente, sua família e a transparência “internética” como alicerces da campanha, é apresentado como o anti-Underwood em uma conveniência do roteiro que, em um primeiro momento, provavelmente causará estranhamento, mas que ganha profundidade. Até mesmo a fotografia e o figurino da série ganham tons claros quando Conway está em tela para passar a mais do que evidente mensagem de oposição, já que tanto Claire quanto Frank são mantidos na penumbra ou em ambientes tratados para serem frios, assépticos, na grande maioria do tempo.

Com isso, a série volta um pouco para o abrigo da “normalidade” e Willimon passa a arriscar menos, retrabalhando substancialmente as mesmas estratégias maquiavélicas de Frank que nós já nos acostumamos a adorar. No entanto, a introdução de Conway – o segundo arco da temporada não ganha resolução completa – pode ser muito bem explorada mais para a frente, se o próximos showrunners, Melissa James Gibson e Frank Pugliese (atualmente roteiristas da série) souberem ir além da disputa presidencial. Além disso, há, como mencionei logo no início, a volta do passado de Frank para atormentá-lo, elemento que vai ganhando, aos poucos, maior relevância na temporada e que é usado de forma pouco intrusiva, mas eficiente na narrativa. É algo que sempre está presente (como Frank, mesmo quando não aparece), mas que não exige “paradas” para seu desenvolvimento, o que evita quebras de ritmo.

O design de produção continua um nível acima de grande parte das séries disponíveis por aí, com um cuidado de dar gosto aos mínimos detalhes em termos de cenários e figurinos. Vários dos locais da Casa Branca que vimos na temporada anterior estão inevitavelmente de volta, mas com uma atmosfera mais pesada graças à já mencionada fotografia, que trabalha para escurecer o ambiente, mas também pela presença mais marcada de elementos cenográficos de cores mais mudas ou escuras, combinando com os sentimentos (ou a falta deles) dos Underwoods.

Vale especial menção à sutil maquiagem usada em Kevin Spacey, que não só tornou seus cabelos completamente grisalhos, como trouxe um peso para cada uma de suas expressões faciais, com olhos que marcadamente desnudam o peso da presidência na frente das câmeras que, aliás, são inclementes nos necessários closes para as já famosas quebras da quarta parede que, na nova temporada, são menos presentes, mas mais longas, com uma ao final particularmente brilhante.

As atuações continuam todas excepcionais, com especial destaque para Robin Wright que, ao ganhar mais espaço, domina completamente o cenário. Justiça seja feita, Spacey parece um pouco, digamos, “acostumado” demais com seu papel e, em determinados momentos, sobressai-se um lado caricato indesejado, mas nada que realmente atrapalhe a série. No elenco de apoio, além de uma sempre hipnotizante Ellen Burstyn, há, claro, Michael Kelly como o caninamente obediente Doug Stamper, braço direito de Frank. Seu papel, na temporada, não goza de um arco próprio como na anterior, mas ele tem sua presença mais constantemente aproveitada e muito equilibrada ao longo dos episódios, ganhando um lado pessoal potencialmente interessante mais para o final. Mas a intensidade do ator, também carregando um peso de atrocidades passadas e presentes de seu personagem em cada olhar, enriquece sobremaneira a série, funcionando como a cola que une cada narrativa, já que ele é sempre a constante (quase) imutável.

A quarta temporada de House of Cards continua a demonstrar, contra todas as probabilidades, a altíssima qualidade do trabalho anterior de Willimon. Agora é esperar para ver a direção que os novos showrunners seguirão.

É verdade. Nós não nos submetemos ao terror. Nós o criamos.
– Frank Underwood, House of Cards

House of Cards – 4ª Temporada (Idem, EUA – 04 de março de 2016)
Showrunner: Beau Willimon (baseado em romance de Michael Dobbs e na minissérie britânica de mesmo nome, de Andrew Davies e Michael Dobbs)
Direção: Tucker Gates, Robin Wright, Tom Shankland, Alex Graves, Kari Skogland, Jakob Verbruggen
Roteiro: Beau Willimon, Melissa James Gibson, Frank Pugliese, John Mankiewicz, Laura Eason, Bill Kennedy, Kenneth Lin, Tian Jun Gu
Elenco: Kevin Spacey, Robin Wright, Michael Kelly, Mahershala Ali, Jayne Atkinson, Neve Campbell, Derek Cecil, Nathan Darrow, Kim Dickens, Elizabeth Marvel, Dominique McElligott, Molly Parker, Paul Sparks, Sebastian Arcelus, Boris McGiver, Ellen Burstyn, Colm Feore, Cicely Tyson, Lisa Gay Hamilton, Joel Kinnaman, Lars Mikkelsen, Larry Pine, Reed Birney, Eisa Davis, Curtiss Cook, Michel Gill, Kate Mara, Corey Stoll, Reg E. Cathey
Duração: 675 min. (aprox.)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.