Crítica | House of Cards – 5ª Temporada

estrelas 4,5

Obs: Há spoilers somente das temporadas anteriores, cujas críticas podem ser lidas aqui.

Em meio a tantas reviravoltas e crises políticas no mundo, muitas brincadeiras surgiram a respeito do que House of Cards poderia nos entregar de novo e se seria capaz de superar os escândalos e situações inesperadas que temos visto nesses últimos meses, tanto no Brasil quanto em outros países. Beau Willimon, mesmo afastando-se como showrunner, conseguiu, por intermédio dos veteranos na série e novos showrunners Melissa James Gibson e Frank Pugliese, como já fora deixado explícito no vídeo recentemente liberado destinado ao público brasileiro, utilizar tudo isso como elementos de inspiração para essa saga dos Underwood, adaptando fatos para essa ficção política, tecendo constantes paralelos com nossa própria realidade.

A segunda metade da quarta temporada nos trouxera o início da corrida eleitoral, com Frank Underwood (Kevin Spacey), o candidato democrata, contra Will Conway (Joel Kinnaman), do lado dos republicanos. Willimon faz, nesse quinto ano, a escolha arriscada de dedicar metade da temporada para continuar esse retrato das eleições, algo que facilmente poderia cair na repetitividade, cansando o espectador logo cedo. Isso, felizmente, não ocorre, já que o texto sabe dinamizar essa corrida a todo episódio. Conway e toda sua equipe são oponentes formidáveis e os acompanhamos de perto durante toda essa jornada, sem, em momento algum sabermos, ao certo, quem irá sair vitorioso.

Ouso dizer, contudo, que o foco não é o resultado final em si e sim todo o processo e seu impacto nos personagens. Conway verdadeiramente se transforma ao longo de toda essa história, tendo sempre de rebater as maquinações dos Underwood, que, claro, não se contentarão com menos que a vitória. Frank, por sua vez, é mais implacável que nunca, deixando sua raiva transparecer mais de uma vez, o que se mistura com sua profunda ironia, especialmente nos momentos nos quais a quarta parede é quebrada, algo que ocorre com maior frequência aqui. Enquanto tudo isso acontece, percebemos o objetivo dos novos showrunners em segundo plano: fortalecer Claire (Robin Wright) como figura política, fazendo com que ela seja melhor vista por aqueles à sua volta, mais até que seu marido.

Dito isso, embora esse quinto ano, assim como o anterior, seja dividido em dois atos bastante distintos, a narrativa não se fragmenta completamente, algo que se torna ainda mais claro na reviravolta final, que viera sendo construída desde o season première. A montagem desempenha, aqui, o papel vital de não deixar tudo muito óbvio, ao mesmo tempo que dinamiza esse jogo político. Pulamos de foco em foco enquanto informações incompletas nos são passadas e somente vemos o quadro geral posteriormente. House of Cards sempre fora um quebra-cabeças a ser montado pelo espectador e isso se faz presente com toda a força nessa quinta temporada. Por vezes o excesso de informações pode nos confundir, mas nada que atrapalhe a experiência geral, já que as respostas aparecem em um ponto ou outro.

É preciso notar também como Gibson e Pugliese utilizam diversos acontecimentos de nosso cenário geopolítico para compor essa sua narrativa. Vemos versões de figuras como Edward Snowden, menções diretas ao Wikileaks, além de acontecimentos como o ataque químico na Síria, dentre outros, que fazem a série dialogar com nossa realidade constantemente. Os showrunners, contudo, fogem ao máximo da previsibilidade e mesmo com alguns eventos espelhados não podemos saber qual será o destino final de cada personagem. A expectativa construída, para vermos os desdobramentos de cada um desses pontos é o que nos faz pular de episódio em episódio sem sentir o tempo passar.

Preenchendo esse cenário temos, claro, Kevin Spacey e Robin Wright, como sempre excelentes, conseguindo nos fazer torcer por eles, independente do quão monstruosas sejam suas ações. É interessante observar como há uma certa distância entre o casal, algo deixado explícito mais de uma vez. Existe a dúvida constante se eles estão juntos por conveniência ou porque se amam, como eles dizem mais de uma vez. Isso, claro, dialoga com o fortalecimento político de Claire, que passa a conquistar a independência do marido desde temporadas passadas. A forma como a Casa Branca é retratada se encaixa perfeitamente com isso, especialmente nas sequências noturnas, que transmitem o ar de solidão e isolamento, com iluminação mais fraca e planos que deixam claro o vazio do cenário, ocupado apenas por esses dois personagens e os seguranças “invisíveis”.

Esse isolamento vai ganhando força ao longo da temporada, conforme vemos Frank tendo de lutar cada vez mais para se manter no poder. Mesmo sua relação com Doug Stamper (Michael Kelly) é, aparentemente, abalada, ao passo que o atual presidente questiona todas as suas alianças. Cria-se um quadro de instabilidade, o que é fortalecido pelos novos personagens, sempre mantidos como incógnitas, não sendo claro de qual lado eles estão de verdade. Os showrunners, porém, sabem que o foco deve permanecer no casal principal e não desviam muito nas subtramas, todas diretamente conectadas à situação política dos Underwood, funcionando como peças do já falado quebra-cabeças que devemos montar em nossas mentes. Dito isso, a série não tem medo de descartar personagens a partir do momento que eles cumpriram seus papéis.

Com isso tudo em mente, fica fácil enxergar como House of Cards poderia ter entregado mais do mesmo, caindo facilmente na repetitividade, cansando seu espectador rapidamente. Estamos falando, porém, de herdeiros de Beau Willimon e eles, assim como o showrunner original, não têm medo de revolucionar toda sua narrativa quando preciso, mostrando como a saga dos Underwood ainda tem muito a nos mostrar. Apoiando-se em acontecimentos do nosso cenário geopolítico enquanto trabalha, a fundo, seus personagens principais, a série não cansa de se renovar, se configurando como algo essencialmente diferente de sua primeira temporada, ao mesmo tempo que retém toda a sua força, finalizando com um poderoso cliffhanger que, desde já, nos faz ansiar pelo sexto ano do seriado.

House of Cards – 5ª Temporada — EUA, 2017
Desenvolvimento: 
Beau Willimon (baseado em romance de Michael Dobbs e na minissérie britânica de mesmo nome, de Andrew Davies e Michael Dobbs)
Showrunners:  Melissa James Gibson, Frank Pugliese
Direção: Robin Wright, Agnieszka Holland, Alik Sakharov, Roxann Dawson, Daniel Minahan, Michael Morris
Roteiro: Andrew Davies, Michael Dobbs, Laura Eason, Bill Kennedy, Tian Jun Gu, John Mankiewicz, Melissa James Gibson, Frank Pugliese, Kenneth Lin
Elenco: Kevin Spacey, Robin Wright, Michael Kelly, Campbell Scott, Patricia Clarkson, Paul Sparks, Derek Cecil, Neve Campbell, Boris McGiver, Korey Jackson, Jayne Atkinson, Michel Gill, Damian Young, Jeremy Holm, James Martinez, Joel Kinnaman, Dominique McElligott
Duração: 13 episódios de aprox. 52 min. cada.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.