Crítica | How I Met Your Mother (Como Eu Conheci Sua Mãe) – Série Completa

estrelas 4

Não pega bem começar avaliando uma série de TV que passou 9 temporadas no ar usando o termo “enrolação”. Mas sejamos francos e corramos atrás do prejuízo depois: How I Met Your Mother foi, sim, uma enrolação. Uma engraçada, deliciosa, criativa e muito bem vinda enrolação, mas foi. E não falo isso no sentido pejorativo, com aquela ideia do filler eterno que faz corar de raiva qualquer fã mais facilmente irritável. HIMYM foi, por muito tempo, a melhor ou mais criativa sitcom em exibição e, a despeito de uma questionável Season Finale, ficará na memória como uma das séries de comédia mais cativantes de sua geração (meados dos anos 2010).

Criada por Carter Bays e Craig Thomas (produtores de American Dad!), HIMYM pegou o hype de uma horda de fãs órfãos de Friends, que havia terminado pouco mais de um ano antes. Assim, tivemos de volta outra boa versão para o modelo de “sitcom urbana” americana; com um grupo de amigos de classe média que se reúnem em algum lugar (um bar) todos os dias ou quase, moram mais ou menos próximos um do outro e têm casos diários/semanais para resolver. De um grupo fixo inicial, presenciamos a chegada de um novo membro, já no início da 1ª Temporada, e então partimos para a saga do quinteto novaiorquino, uma aventura que nos mostrará o crescimento, retrocesso, conquistas, perdas, amadurecimento ou não e intensificação da amizade e do amor — fraterno ou erótico — entre eles. O clichê do grupo de melhores amigos convivendo e passando por inúmeras coisas juntos foi bem explorado pelos showrunners e se configurou o principal ingrediente de sucesso da série, que foi imediato.

E que sucesso! Com leveza, humor inteligente e experimentações técnicas até então dificilmente observadas em séries de comédia — e aqui me refiro a uma grande quantidade de formatos narrativos, de produção, gêneros e conceitos estéticos, desde episódios feitos com único filtro de fotografia, predomínio de uma tríade de cores, centrado num único espaço, feito todo em rimas, até a mistura de telas e formatos audiovisuais — tivemos um início realmente chamativo e de altíssima qualidade para o show e já criávamos uma crescente curiosidade para saber quem era “a mãe” e como Ted a conheceu.

As situações, as catchphrases, as emoções e problemas bastante comuns o nosso cotidiano serviram para fazer dos enredos de HIMYM uma série bastante próxima do público. Não que as situações ali narradas fossem novidade, mas o modo como foram narradas, com uma cruza e realismo pouco comuns em comédias televisivas, tornaram-nas algo a mais a se apegar. Percebíamos que os defeitos não eram amenizados ou expostos com algo de apologia em determinado episódio ou arco de temporada. Se fosse um capítulo tratando da frieza de Barney em relação às mulheres e o tratamento de objeto dado a elas, isso era exposto de forma impessoal, num modo que misturava nojo, admiração e proximidade do espectador (essencialmente o masculino) com o personagem, sem sombra de dúvidas, o mais importante da série — e não há polêmica alguma em afirmar isso, mesmo sabendo que a constituição do programa seja em Ted, Tracy, Luke e Penny.

É possível dizer que até a 8ª Temporada tivemos um nível bastante alto para os episódios de HIMYM, mesmo com um número bem maior de tropeços cometidos a partir do 7º ano do show. A vida das personagens apresentava mudanças bastante significativas, algumas delas, nada que um roteirista pudesse apagar ou tirar de cena sem ter uma legião de fãs raivosos na porta de casa. Se haviam episódios fracos ou situações que pouco acrescentavam à história, elas seguiam um tipo de estrutura agradável que, se não nos agradava no sentido narrativo, ao menos nos divertida bastante. Mas então veio a última temporada e tudo se tornou diferente demais.

A Polêmica 9ª Temporada

estrelas 2,5

É difícil enxergar como tudo começou e achar uma explicação razoável que justifique a mudança de tom da 8ª para a 9ª Temporada de HIMYM. É claro que ao longo dos anos a série foi passando por mudanças bastante significativas, tendo uma primeira fase entre o início da série e a 3ª Temporada; outra fase entre a 4ª e a 6ª Temporadas e outra entre a 7ª e 8ª Temporadas. Cada uma delas nos trouxe um tipo central de história, uma atenção em jogo diferenciada, um tom de humor também diferente (a rigor, cada vez mais fracos e distantes dos primeiros anos da série, mas ainda assim, bons) e algo a ser resolvido a médio/longo prazo. Todavia, a 9ª Temporada se isola em uma fase única e dentro dela mesma se divide em arcos e temas em profusão, o que no mínimo confunde e distrai o público, além de descaracterizar um modelo adotado e renovado nos 8 anos anteriores.

Seria isso culpa do aparecimento da mãe? Definitivamente não. Tracy Mosby é uma personagem incrível e contou com um trabalho excelente da atriz Cristin Milioti em sua pequena mas interessante passagem pela série. Não demora quase nada para ela se fazer notar e conquistar o espectador. Delicada e maravilhosamente ‘estranha’, Tracy traz para a série parte da atmosfera espontânea que se dissipara desde a última fase (7ª e 8ª Temporadas) e que na 9ª, foi substituída por algo completamente diferente. A culpa foi unicamente dos criadores da série, que escreveram ou co-escreveram todos os roteiros da temporada e guiaram a história para um abismo. E aqui já deixo uma coisa clara: não me refiro ao final, no sentido mais literal da palavra. O final da série foi bom. Foi cruel, simbólico e tocante. O problema foi o fato de eles saberem qual seria este evento final desde a 2ª Temporada e deixarem o barco seguir com uma espécie de falsidade temática até a última sequência do programa. A história não era, pois, sobre Tracy e sim sobre Robin. Bom, até aí, se tivéssemos tido uma 9º Temporada ao menos no mesmo nível da 8º, era possível aceitar. Não seria algo nada agradável, mas seria perfeitamente aceitável e até compreensível em termos marqueteiros. O grande problema foi que o caminho percorrido neste último ano de HIMYM acabou sendo bastante vergonhoso porque se baseou em motivos que ao final de tudo não se justificam.

A rigor, a temporada teve um grande arco, o casamento de Robin e Barney; dois grandes temas falsos, o amadurecimento de Barney e o desapego de Ted em relação a Robin (com direito a música e cena de episodio arranca-lágrimas ao som de Cyndi Lauper); uma redução dramática na personagem de Lily, tratada como uma frágil e levemente excêntrica conselheira; e, por fim, a descaracterização inadmissível de Marshall, inicialmente preso em uma viagem que nunca acabava e que não teve sentido algum e que depois teve seu embarque no mesmo escanteio dado a Lily durante os episódios finais.

Juntando esses elementos, fica difícil aceitarmos o andamento final show com tranquilidade. Qual é a justificativa lógica e mesmo comercial de se passar zilhões de episódios no contexto de um casamento e em um episódio duplo nos dar um divórcio, a morte de uma personagem e o rumo final para o quinteto protagonista da série? Se era para deixar o “conhecer a mãe” apenas para o final — o que não tinha problema algum — que todas as outras coisas fossem resolvidas com mais calma e com melhor contexto, não em elipses temáticas que só conseguiram enraivecer o espetador! É até possível ver o esforço da diretora Pamela Fryman, que guiou todos os episódios dessa temporada, em criar um ambiente interessante e tirar o máximo dos atores, algo que de fato consegue; mas sem um bom roteiro, como ter um episódio e um final de série bons?

A sensação que temos no final de Last Forever: Part Two é que fomos enganados da maneira mais canhestra possível. A maior parte dos fãs da série que tiveram problemas com a temporada (parte na qual eu me incluo) não estão reclamando do “destino” de Ted e Robin em si. Como eu disse acima, essa escolha foi cruel, mas foi interessante e bonita ao mesmo tempo, funcionou como quase tudo na vida: nada sai do jeito que a gente pensa, programa ou deseja. Mas para se chegar a esse momento final, tivemos que passar por uma jornada que, ao cabo, não serviu para nada. Afinal, o que tiramos da temporada? Basicamente, Tracy Mosby. Nada de legen… wait for it… dary! no final. Infelizmente. Apenas uma troca de olhares que deveria ter sido levada a sério muitos anos atrás, tanto dentro, quanto fora do show e o entendimento prévio ou a preparação do público para que entendesse que o programa não era sobre uma sombrinha amarela e sim sobre uma trompa francesa azul.

Como Eu Conheci Sua Mãe (How I Met Your Mother) – EUA, 2005 – 2014
9 Temporadas

Criadores: Carter Bays, Craig Thomas
Elenco principal: Josh Radnor, Jason Segel, Cobie Smulders, Neil Patrick Harris, Alyson Hannigan
Duração: 25 min. (cada episódio)

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.