Crítica | How To Get Away With Murder – 1ª Temporada

estrelas 5,0

Fui apresentado a How To Get Away With Murder de uma maneira bem circunstancial. Estava em uma típica reunião de amigos onde, além de jogar conversa fora, havíamos combinado de atualizar a lista de indicados ao Oscar desse ano. Eis que em meio a uma interminável discussão sobre qual filme seria o primeiro da lista, não uma, mas duas pessoas veementemente insistiam para deixarmos os filmes para depois e assistir ao episódio piloto de How To Get Away With Murder.

Confesso que fiquei relutante. “Puxa vida! Com tanta coisa bacana para assistir, vou ter que me contentar com mais um novelão de Shonda Rhimes?”, pensei. Quando percebi que a causa estava ficando perdida e que, de uma maneira e outra teria que assistir ao episódio para não me tornar o chato da galera, acabei cedendo sob a auto-justificativa de que uma série protagonizada por Viola Davis não poderia ser ruim. Terminados 43 minutos do primeiro episódio, comecei a ficar com vergonha por quase ter sido levado por um preconceito bobo que poderia ter me impedido de assistir a uma das melhores séries dessa Fall Season.

Há algumas razões fundantes para que eu tranquilamente diga que essa temporada estreante foi uma das melhores. A primeira delas é bem simples: o próprio argumento da série. Reclamem o quanto quiserem, mas produções de suspense investigativo e mistério sempre inclinam à uma aceitação instantânea de público e são as campeãs em fisgar a atenção do espectador. O enredo gira em torno de Annalise Keating, uma prestigiada advogada de defesa criminal e professora na Escola de Direito de Middleton. A cada ano, a professora escolhe um grupo de estudantes matriculados na disciplina de Introdução ao Direito Penal, carinhosamente apelidada pela professora de “How To Get Away With Murder”, para trabalhar junto a ela em seu escritório particular.

Sobre esse plano de fundo, a série apresenta em duas linhas temporais separadas por três meses os dois crimes que norteiam os eventos de toda a temporada. É neste ponto em que o roteiro de Pete Nowalk merece ser reverenciado. O showrunner conseguiu  organizar de maneira praticamente exemplar os 15 episódios da série, aproximando cronologicamente as duas linhas temporais e permeando-as com os típicos casos da semana que, apesar de por vezes exaustivos, cumprem muito bem a função de ambientar o público no ambiente descrito e introduzir pouco a pouco os personagens da série.

A bom desempenho do elenco como um todo é, inclusive, outra razão para que a primeira temporada de How To Get Away With Murder possa entrar no hall das melhores da fall season de 2014. Cada um dos atores co-protagonistas consegue vestir muito bem a camisa dos personagens que interpretam. Alfred Enoch (Harry Potter) vive Wes, o típico mocinho recém aprovado da lista de espera do curso de direito, que se apaixona pela garota problema Rebbeca Sutter (Katie Findlay). Jack Falahee é bastante convincente ao interpretar o conquistador Connor Walsh que não economiza em absolutamente nada para conseguir uma prova determinante para vencer um caso e, assim, acaba criando alguns conflitos na relação com seu quase-namorado Oliver (Conrad Ricamora). Aja Naomi King veste a pele da egocêntrica e ambiciosa Michaela Pratt, que é sem dúvida a personagem mais irritante do grupo. Matt McGorry (Orange Is The New Black) é talvez o que menos segura o seu papel, pensado para ser alívio cômico da série. Uma surpreendente evolução pode ser observada, entretanto, no desempenho de Karla Souza como a latino-americana Laurel Castillo, cujo sangue vai gradualmente esfriando episódio a episódio.

Abro um espaço para destacar na ótima seleção de elenco a principal explicação para o sucesso da temporada: Viola Davis. O talento nato da atriz não é segredo para ninguém e já é publicamente reconhecido. Não bastava ser vencedora de vários prêmios, incluindo um Tony Award, e ter sido indicada ao Oscar de Melhor Atriz (que deveria ter levado para casa, diga-se de passagem) pelo belíssimo trabalho em Histórias Cruzadas e de Melhor Atriz Coadjuvante por Dúvida, Davis recebeu uma estatueta do SAG Awards de Melhor Atriz em Série Dramática pelo seu desempenho em How To Get Away With Murder e já é uma das favoritas a levar o Emmy desse ano.

A série parece ter sido elaborada sob medida para a atriz de tal forma, que é difícil imaginar uma escolha alternativa para interpretar a inabalável Annalise Keating. A personagem de tamanha complexidade rapidamente nos carrega pelas mãos para um passeio em sua envolvente ausência definitiva de ética, seus súbitos desequilíbrios emocionais e dramas particulares. Dessa forma, o público é levado a vibrar com cada conquista, preocupar-se a cada novo obstáculo e compadecer-se nos momentos de fraqueza da protagonista. Annalise Keating consegue representar diversas facetas da mulher contemporânea e Viola Davis é fundamental para cumprir essa função e desconstruir alguns preconceitos que ainda impregnam a sociedade. A genialidade de Pete Nowalk e Shonda Rhimes mora na escolha de Viola Davis  para viver uma mulher de meia idade, auto suficiente, badass, e extremamente sensual.

Essa perfeita combinação de elementos é um prato cheio para que o público se envolva a cada episódio, espere pelas revelações que gradualmente irão aparecer e tente organizar as peças desse hipnotizante quebra-cabeça.

How To Get Away With Murder – 1ª Temporada (EUA, 2014/2015)
Showrunner: Peter Nowalk e Shonda Rhimes
Direção: Vários.
Roteiro: Vários.
Elenco: Viola Davis, Alfred Enoch, Billy Brown, Jack Falahee, Katie Findlay, Aja Naomi King, Matt McGorry, Karla Souza, Charlie Weber, Liza Weil.
Duração:
 15 episódios de 43 minutos cada.

FILIPE MONTEIRO . . . O exército vermelho no War, os indianos em Age of Empires, Lannister de Rochedo Casterly. Entrou em órbita terrestre antes que a Estrela da Morte fosse destruída, passou pela Alameda dos Anjos, pernoitou em Azkaban, ajudou a combater o crime em Gotham e andam dizendo por aí que construiu Woodburry. Em uma realidade alternativa, é graduando em Jornalismo, estuda Narrativas e Cultura Popular, gosta de cerveja e tempera coentro com comida.