Crítica | Humans – 1ª Temporada

estrelas 4

1ª Lei: Um robô não pode ferir um ser humano ou, por inação, permitir que um ser humano sofra algum mal.
2ª Lei: Um robô deve obedecer as ordens que lhe sejam dadas por seres humanos exceto nos casos em que tais ordens entrem em conflito com a Primeira Lei.
3ª Lei: Um robô deve proteger sua própria existência desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira ou Segunda Leis.
– Isaac Asimov

Estamos em um mundo em que robôs humanoides podem ser comprados como automóveis. Humanos podem ter mais tempo para viver a vida agora que seres inanimados com aparência muito próxima à nossa se encarregam das tarefas do dia-a-dia, seja dirigir, fazer compras, cozinhar ou trabalhar em fábricas. Uma Utopia sem paralelo!

Ou será que não?

Humans nos faz, em um primeiro momento, desejar essas maravilhas tecnológicas ao nosso lado. Mas, em um segundo, as indagações morais e filosóficas começam e é difícil separar sentimentos, estabelecer barreiras. E é por isso que essa série anglo-americana, produzida pela AMC e Channel 4 e contendo apenas oito episódios em sua temporada inaugural, é tão fascinante e perturbadora.

É lugar-comum, hoje em dia, filmes em que a máquina sobrepuja o homem, mas uma visão quase antropológica da questão é muito mais rara e é isso que, no final das contas, Humans entrega ao espectador. Nesse mundo robotizado, o que é exatamente humanidade? O que nos define dessa forma? A capacidade de sentir? De raciocinar?

O conflito central gira em torno de alguns desses robôs – chamados Synths, corruptela de “Sintéticos” em inglês – que parecem ser dotados de verdadeira inteligência artificial. Inteligência e sentimentos artificiais para ser exato. Digo “parecem”, pois parte da graça da série é aprender sobre eles na medida em que a trama se desenvolve. Focarei apenas em um deles, Anita (Gemma Chan), adquirida por Joe Hawkins (Tom Goodman-Hill) para ajudar em casa, apesar da reprovação de sua esposa, Laura (Katherine Parkinson). Os dois têm três filhos, Mattie (Lucy Carless), a mais velha e uma geninha em computação que vê nos robôs uma ameaça para seu futuro desenvolvimento profissional, Toby (Theo Stevenson), o filho “do meio” em plena adolescência e a pequena e inocente Sophie (Pixie Davies). A entrada de Anita no seio familiar muda a dinâmica completamente, com Laura se achando inútil e desenvolvendo ciúmes, Joe sentindo uma bizarra atração, Toby sentindo uma compreensível atração (afinal, seus hormônios estão a mil!), Mattie criando uma espécie de curiosidade desconfiada e Sophie entregando-se aos cuidados da bela robô.

A série começa devagar e somos apresentados ainda a outros robôs em tese parecidos com Anita e a Leo Elster (Colin Morgan), humano protetor desse grupo de renegados que é caçado pelo implacável Prof. Edwin Hobb (Danny Webb). Separadamente, acompanhamos uma dupla de policiais da Força Tarefa de Tecnologias Especiais, o infeliz Pete (Neil Maskell) e a misteriosa Karen (Ruth Bradley) e o cientista de robótica aposentado Dr. George Millican (William Hurt), que tem uma ligação especial com um Synth antigo e defeituoso chamado Odi (Will Tudor).

Aos poucos, os focos narrativos vão convergindo e a história realmente entra em movimento, ainda que grande parte da história se passe mesmo no seio familiar dos Hawkins, decisão acertada dos criadores Sam Vincent e Jonathan Brackley (que escreveram a série com base na série sueca Real Humans, de 2012). É lá que os conflitos morais chega à superfície de maneira mais direta. Os Synths são escravos ou empregados? Eles têm sentimentos? Pode-se fazer o que quiser com eles? A ação e a tensão ficam mesmo por conta da caçada empreendida por Hobb e pela fuga desesperada de Leo e seus “amigos” e é muito interessante ver as personalidades diferentes de cada um dos sintéticos desse grupo especial.

As atuações dos atores que fazem o casal humano principal – Goodman-Hill e Parkinson – é primorosa. Vemos um casal em conflito, mas que se ama mesmo depois desse tempo todo e tem dificuldade de deixar isso claro um para o outro. A hesitação de Joe, a tristeza contida de Laura são trabalhadas precisamente pelo atores que ganham, merecidamente, bastante tempo em tela. Mas, pelo inusitado da situação, o destaque fica mesmo por conta dos atores  que fazem os Synths, especialmente Gemma Chan como Anita. Mas, aqui, o mérito não é exclusivamente deles, pois há um sutil trabalho de maquiagem e de figurino que permitem que acreditemos que esses atores são mesmo seres sintéticos. Quando eles transitam entre Synth padrão e Synth com sentimentos, a câmera fecha neles e testemunhamos a “transformação” em um piscar de olhos. Um músculo que relaxa, olhos que ficam mais suaves, lábios que perdem a firmeza. É realmente um grande feito dos atores e da equipe técnica.

Do lado da “velha guarda”, Danny Webb mostra força e poder na pele do “caçador de androides” e o sempre magnífico William Hurt esbanja ternura e compreensão como o cientista aposentado que adora seus sintético, pois ele lembra de coisas sobre sua esposa falecida que seu derrame o impede de lembrar.

O desenho de produção e a fotografia são outros destaques da série. Fugindo sempre que possível de centros urbanos, a produção passa ao espectador a impressão de “futuro próximo” apenas por intermédio de sutis toques de design, sem esfregar em nossa cara que “estamos no futuro”. São computadores levemente modificados aqui, carros diferentes ali, mas não muito mais do que isso. A regra parece ser a de normalidade clean, deixando que a atmosfera passe essa impressão de época diferente mais do que qualquer outra coisa. E é por isso que a fotografia é tão importante, pois é ela que, usando filtros suaves e mantendo sempre uma paleta de cores clara, nos faz acreditar nessa Utopia estranha ou nessa fantasia.

O que realmente me impede de dar uma nota final mais alta é o desenrolar da linha narrativa envolvendo o Dr. George Millican. Ainda que o trabalho de Hurt seja fenomenal e os momentos dele com Odi sejam de aquecer corações, fato é que, de todos os personagens, ele é o único que parece verdadeiramente sub-utilizado, como se Vincent e Brackley tivessem perdido o fio da meada que tão interessantemente começaram a tecer com o personagem. Ainda que haja envolvimento de Millican com a narrativa principal, esse envolvimento é tangencial e, em última análise, desnecessário, tornando todo o tempo focado nele efetivamente desnecessário para a evolução da temporada. Um desperdício, sem dúvida.

Humans é uma série de grande potencial. Mas apenas se continuar a abordar o que nos faz humanos. Se ela descambar para um conflito entre robôs e humanos apenas, perderá muito de seu valor. Agora é aguardar a segunda temporada!

Humans – 1ª Temporada (Reino Unido/EUA – 2015)
Criação: Sam Vincent, Jonathan Brackley (baseado na série Real Humans, de Lars Lundström)
Direção: Sam Donovan, Daniel Nettheim, Lewis Arnold, China Moo-Young
Roteiro: Sam Vincent, Jonathan Brackley, Joe Barton, Emily Ballou
Elenco: Manpreet Bachu, Emily Berrington, Ruth Bradley, Lucy Carless, Gemma Chan, Pixie Davies, Jack Derges, Sope Dirisu, Rebecca Front, Tom Goodman-Hill, Jill Halfpenny, Ivanno Jeremiah, Neil Maskell, Colin Morgan, Katherine Parkinson, Theo Stevenson, Will Tudor, Danny Webb, William Hurt
Duração: 46 min. por episódio (oito episódios)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.