Crítica | Humans – 2ª Temporada

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estrelas 4,5
– Há spoilers. Leia, aqui, a crítica da temporada anterior.

Quase tudo funcionou muito bem na primeira temporada de Humans, série anglo-americana baseada na sueca Real Humans, de 2012. Mesmo com a temática sci-fi de inteligência artificial repetida em diversas obras clássicas, com Isaac Asimov, claro, encabeçando a lista, a adaptação de Sam Vincent e Jonathan Brackley lidou muito bem com as consequências humanas da fabricação e adoção em larga escala de mão de obra robótica com semblante humano.

Imaginando um mundo do futuro (próximo?) em que ter um robô em casa é tão comum quanto ter um computador de última geração, os showrunners usaram a família Hawkins – marido, esposa e três filhos – para servir de âncora narrativa para a história que se desmembrou nos diversos componentes de uma “família” de androides secretamente desenvolvidos por David Elster, o criador do salto tecnológico que permitiu o uso em larga escala desses autômatos. No entanto, esse pequeno grupo, diferente de todo o restante, são conscientes e têm sentimentos, todos liderados por Leo, filho de David, ele mesmo parte homem, parte máquina depois que literalmente morreu. Os Hawkins, assim, têm a função de criar o comparativo entre seres humanos e seres robóticos e de ser nosso veículo para as descobertas e os diversos graus de compreensão dessa nova ordem mundial.

Quando eu disse “quase” logo no começo, foi porque o elo mais fraco da temporada anterior ficou, curiosamente, no personagem vivido pelo mais famoso e melhor dos atores escalados: William Hurt. Vivendo um cientista de robótica e antigo parceiro de Elster, sua história, que envolvia um relacionamento filial com Odi, um androide defeituoso de geração mais antiga, foi um ponto fora da curva. Mesmo com uma bela atuação de Hurt, o desvio se fez sentir nos breve oito episódios da temporada.

Mas esse problema não existe mais na segunda, que começa alguns meses após o final dos acontecimentos da primeira, com Niska de posse de um arquivo digital contendo as linhas de código que permitem a criação de consciência nos androides. Ela está foragida na Alemanha onde começa uma relação amorosa com Astrid (Bella Dayne em uma breve participação) que, por sua vez, não sabe da natureza inumana de Niska. Não demora e Niska faz o upload do código, mas algo inesperado acontece e seus pares ao seu redor não acordam. O que acontece são despertares aleatórios de um androide aqui, outro ali, mas que funcionam para catalisar a ação da temporada.

De forma a fazer a coisa funcionar ao longo de apenas oito episódios, os showrunners fazem uso liberal de elipses que estabelecem uma boa passagem de tempo especialmente entre o primeiro e os demais sete episódios. Além disso, perigosamente, eles arriscam muito ao iniciarem a abordagem de diversos assuntos quase que simultaneamente. Há a questão do reconhecimento dos androides conscientes como humanos (muito na linha do ótimo O Homem Bicentenário), a moralidade de se experimentar com androides ganha uma camada extra com essa consciência repentina, crianças androides como substitutas para entes queridos que se foram, a transferência de consciência de um ser vivo para um corpo robótico, o amor entre humanos e androides, a imitação de androides por humanos, a superioridade percebida de androides sobre humanos e vice-versa e assim por diante. Tudo está certamente debaixo do grande guarda-chuva “asimoviano” da relação entre humanos e androides, mas são assuntos distintos que carregam cargas dramáticas bem diferentes e nem todas ganham o desenvolvimento que precisariam em tão pouco tempo.

Por exemplo, quando Niska se entrega à Laura Hawkins para que ela tenha um julgamento como humana por seu crime da primeira temporada, a série imediatamente entra em outro patamar, um que provavelmente exigiria um trabalho dedicado de vários episódios, senão da temporada toda. No entanto, no lugar de ir até as últimas consequências, os showrunners se viram obrigados a simplificar a matéria, reduzindo o impacto do assunto e até mesmo, no processo, subaproveitando os potenciais dramáticos de Katherine Parkinson (Laura) e Emily Berrington (Niska). O mesmo acontece com o comportamento da pequena Sophie Hawkins, que passa a se comportar com um synth, algo que abre a história para jovens emocionalmente problemáticos que se tornam synthies, com direito até a lentes de contato para imitar os olhos claros dos androides, como é o caso de Renie (Letitia Wright), interesse amoroso de Toby. Assim como no caso de Niska e Laura, o desenvolvimento dessa linha narrativa deixa a desejar e se perde em meio a diversos assuntos sendo abordados simultaneamente.

Por outro lado, Vincent e Brackley acertam em muitos alvos.

A introdução de Hester (Sonya Cassidy) como uma androide que ganha consciência depois do upload de Niska é particularmente interessante, por funcionar como a contrapartida sintética do preconceito dos humanos em relação aos androides. É por seus olhos, suas ações e suas justificativas que entendemos o descaso dos humanos com os seres robóticos que são seus servos. Como a versão feminina do T-800, Hester não tem dó da humanidade e deseja vingança acima de tudo, não titubeando em torturar e matar para alcançar seu objetivo de libertar os synths conscientes capturados pela Qualia, empresa controlada pelo bilionário arrogante Milo Khoury (Marshall Allman), que deseja entender como os androides “despertaram” e comoditizar essa tecnologia.

Aliás, a Qualia é outro grande acerto dos showrunners, que nos permite ver um lado corporativo que ainda desconhecíamos na série. Quando somos introduzidos à empresa, nós o somos por intermédio da Dra. Athena Morrow (Carrie-Anne Moss), cujo intelecto é assediado constantemente por Khoury até que ela cede e vai trabalhar com ele nos synths conscientes. Percebemos, nela, uma frieza que perfeitamente combina e ratifica as ações de Hester. Athena mata os synths conscientes para satisfazer sua curiosidade e seu desejo egoísta e secreto de transferir a consciência de sua filha morta para um desses corpos enquanto que Hester mata os humanos justamente por eles não terem a menor hesitação em matar os sintéticos, ambas achando-se superior à outra.

Mas a violência também abre espaço para a ternura, com uma bela linha narrativa em que vemos Mattie ressuscitar o defeituoso Odi e dando-lhe o dom da consciência. O prestativo androide faz de tudo para adaptar-se a essa nova percepção de mundo, somente para constatar que os sentimentos, para ele, são torturantes, são intensos demais para que ele aceite a constante rejeição dos humanos a seu redor. A atuação de Will Tudor nesse papel é de rachar o coração de qualquer espectador mais durão, representando a ponte não violenta que poderia permitir a coexistência pacífica entre androides conscientes e humanos.

O mesmo vale para a relação de amor entre Mia/Anita (Gemma Chan) e seu empregador Ed (Sam Palladio), que convence mais até do que o pouco que é mostrado da relação entre Niska e Astrid. Mesmo com um final trágico para Mia – o que novamente só vem a corroborar, mesmo que não justifique, o tipo de ação tomada por Hester -, são momentos bem construídos e inseridos na narrativa que muito bem estabelecem esse mundo novo e bastante possível, diria, criado na série.

Humans é uma daquelas pouquíssimas séries que fazem o espectador desejar que tivesse mais episódios do que tem. Absolutamente todas as questões abordadas pelos showrunners são cativantes e mereciam mais desenvolvimento, mais trabalho. Oito episódios parecem apenas aperitivos perto do que realmente poderia ser mostrado. No entanto, se “devagar e sempre” for o mote das produtores e de Vincent e Brackley, então o futuro da série, assim como dos androides conscientes, tem potencial para ser inesquecível.

Humans – 2ª Temporada (Reino Unido/EUA – 30 de outubro a 18 de dezembro de 2016)
Criação: Sam Vincent, Jonathan Brackley (baseado na série Real Humans, de Lars Lundström)
Direção: Lewis Arnold, Carl Tibbetts, Francesca Gregorini, Mark Brozel
Roteiro: Sam Vincent, Jonathan Brackley, Charlie Covell, Iain Weatherby, Joe Barton
Elenco: Katherine Parkinson, Tom Goodman-Hill, Lucy Carless, Pixie Davies, Theo Stevenson, Neil Maskell, Colin Morgan, Danny Webb, Carrie-Anne Moss, Sam Palladio, Marshall Allman, Bella Dayne, Letitia Wright, Gemma Chan, Emily Berrington, Ivanno Jeremiah, Will Tudor, Sonya Cassidy, Ruth Bradley
Duração: 48 min. por episódio (oito episódios)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.