Crítica | “Humanz” – Gorillaz

Gorillaz-Humanz

estrelas 3,5

A crítica a seguir não contempla a versão deluxe do álbum

No início dos anos 2000 o conceito de “banda virtual” parecia algo que viria a se tornar comum mediante o sucesso do Gorillaz, projeto de Damon Albarn (Blur) com o quadrinista Jamie Hewlett. Entretanto, acabou que 2D e sua trupe acabaram carregando esse bastão sozinhos visto que nenhum projeto do tipo chegou sequer próximo do alcançado pelo quarteto animado. Isso porque, além da ideia em si já ser inovadora, Damon sempre fez questão de imprimir diferentes experimentos musicais em seu projeto, misturando rock, pop, soul e hip-hop de uma forma muito autoral. Sete anos de espera após o elogiado Plastic Beach e o controverso The Fall, finalmente chegamos no novo trabalho, Humanz, a obra mais pretensiosa do Gorillaz até hoje, com 20 faixas, inúmeras participações especiais e um enorme marketing onde já se fala até em futura série animada.

É interessante notar como a capa, que referencia a icônica capa de Demon Days, já diz bastante sobre o que é visto no álbum. Ela tenta mostrar ao fã, através de uma arte refinada e realista, (deixando os personagens mais perto do “humano” do título) o quanto os membros do grupo mudaram desde 2005. Eles evoluíram, resolveram experimentar e traçar caminhos por diferentes sonoridades e isso é bastante explicitado no design moderno da capa, fazendo completo sentido quando comparado ao demasiado uso de synths e à falta de elementos orgânicos em Humanz, algo que traz um peculiar aspecto futurista.

Seguindo os eventos de Plastic Beach, o novo disco insere o ouvinte justamente em um cenário de “apocalipse” em que os membros do grupo estão envolvidos. Logo no início, em Ascension, o rapper Vince Staples proclama o fim dos tempos e nos convida a celebrar o tempo que nos resta. Claro, a eleição de Donald Trump é influência imediata dessa temática apocalíptica, tendo o fantástico e primeiro single Hallellujah Money – entoado de maneira assustadora e profética pela voz estrondosa de Benjamim Clementine – sido lançado um dia após a posse do presidente americano. No entanto, acima de tudo, estamos diante de um álbum que debate sobre nós mesmos, a essência da raça humana, seja falando sobre diferentes medos (Let Me Out), sobre fragilidade e mortalidade (Andromeda) ou o amor entre indivíduos (Carnival).

O que mais percebo de reclamações dos fãs a respeito de Humanz vem “do grande número de colaborações e pouca participação de Damon Albarn”, o que não deixa de me soar como piada. Vou ser direto pra vocês: o Gorillaz SEMPRE foi um projeto de Damon concebido para que ele pudesse experimentar o quanto ele quisesse, sem se preocupar em se manter restrito, como no Blur. Humanz passa longe de ser “menos Gorillaz” como alguns vem gritando por aí. É o Gorillaz que sempre conhecemos, se preocupando em oferecer um trabalho fresco e novo, como todo álbum da carreira da banda vem sendo. Não se trata nem de um disco brilhante, nem de uma decepção, se situando em um parâmetro qualitativo muito coerente com tudo que o grupo já fez.

A debatida lista de participações especiais é realmente gigantesca, o que faz Humanz soar quase como um trabalho de supergrupo. Peven Everett aparece no soul moderno e dançante de Strobelite, o cantor jamaicano Popcaan é responsável por levar o reggae obscuro e intergalático de Saturn Barz, Kelela traz seu doce R&B para confrontar a paranóia dos versos de Danny Brown na excelente Submission, Grace Jones divaga na repetição monótona da fraquíssima Charge, enquanto o grupo De La Soul – parceria do Gorillaz na memorável Feel Good Inc – ressurge no pancadão pop repleto de synths divergentes em Momentz. E a lista segue quase infinitamente, sendo no mínimo curioso ver as escolhas de Damon, mergulhando fundo no cenário musical underground.

Um trunfo enorme do novo trabalho é a ligação que cada faixa faz com a próxima, junto a interessantes interludes para a narrativa, permitindo uma fluidez que enriquece o valor do álbum. Deslocada mesmo só fica a parceria de Damon com o rival Noel Gallagher na bregamente utópica We Got The Power, que embora seja uma chiclete e saborosa canção pop, não deixa de soar descontextualizada do resto do álbum, quase como se forçasse uma “mensagem de esperança” ao final. Diferente da belíssima Busted and Blue – um dos raros momentos dedicados inteiramente a 2D (Damon Albarn) – que embora soe alheia ao resto da obra, é uma sincera e honesta composição onde o vocalista medita sobre a extensão do universo e os tempos modernos (o lado negativo das redes sociais e o advento das tecnologias).

Humanz é mais um ótimo trabalho do Gorillaz, embora irregular, como diria que toda discografia do grupo pode ser descrita. A ausência do espírito daquele conceito de “banda virtual” instituído lá em 1998 pode até ser sentida aqui, mas uma vez abandonado o saudosismo perceberá que, em meio aos interludes e múltiplas participações especiais, encontra-se a essência experimental, instigante e fresca típica de uma obra da banda.

Aumenta!: Submission
Diminui!: Charge

Humanz
Artista: Gorillaz
País: Inglaterra
Lançamento: 28 de abril de 2017
Gravadora: Parlophone, Warner Bros
Estilo: Hip-Hop, Trip Hop

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, fascinado por música, cinema e quadrinhos. Um fã de ficção científica e aventura que carrega seu fone de ouvido por todo lado e se emociona facilmente com música, principalmente com "The Dark Side Of The Moon". Enquanto não viaja pelo tempo e espaço em uma TARDIS, viaja pelo mundo dos livros e da música.