Crítica | Umberto D. (Humberto D.)

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SPOILERS!

Quando me sento diante deste computador (mais precisamente no primeiro semestre de 2018) para escrever esta resenha de Umberto D. (1952), filme dirigido pelo mestre do Neorrealismo Italiano, Vittorio de Sica, responsável por clássicos como Ladrões de Bicicleta (1948), não posso deixar de notar como esta obra continua tristemente atual. Durante a cena de abertura, situada em uma Itália, que apenas começa a se recuperar economicamente após a devastação da II Guerra Mundial, acompanhamos um protesto onde um grupo de senhores aposentados reivindica reajustes em sua aposentadoria. Entre eles está Umberto Domenico Ferrari, ou simplesmente Umberto D. (Carlo Battisti). Não há nenhuma tentativa de diálogo por parte das forças de autoridade, que dispersam os manifestantes como animais. Este flagrante desrespeito aos idosos aposentados (que infelizmente encontra eco atualmente em nosso país) é somente uma mostra dada logo nos primeiros minutos do quão atemporal o longa dirigido por De Sicca se manteve.

No centro do conflito do roteiro escrito pelo próprio Vittorio de Sica, em parceria com seu velho colaborador Cesare Zavattini, estão às tentativas de Umberto, tendo sempre o seu fiel cãozinho Flick ao seu lado, de conseguir o dinheiro exigido por sua megera senhoria, Antonia (Lina Gennari), para que possa pagar o aluguel, e manter o seu pequeno quarto na pensão de propriedade de Antonia. O único apoio que o aposentado tem além de seu cachorro é o da doce empregada da pensão, Maria (Maria Pia Casilio) que tenta esconder a sua gravidez (de pai desconhecido) para que sua patroa não a demita.

O mais comovente na jornada do protagonista é como ele tenta equilibrar a sua luta pela sobrevivência (que inclui elementos básicos como comida e moradia) com a manutenção de sua própria dignidade, algo que creio qualquer um pode se identificar. Como não se emocionar durante a cena em que o simpático velhinho contempla a possibilidade de pedir esmolas? E essa é só uma das várias passagens de quebrar o coração no filme de De Sica, fazendo com que nos perguntemos o que faríamos se estivéssemos no lugar de Umberto. Como é comum nos filmes pertencentes ao Neorrealismo, o diretor trabalha com muitos não-atores (incluindo o próprio protagonista), concedendo grande naturalidade à obra. Carlo Battisti, um linguista amigo do diretor, está fantástico como Umberto, em uma atuação carismática e cheia de delicadeza. Mesmo após uma atuação soberba nesta obra, ele não voltaria a trabalhar como ator novamente.

Lina Gennari, uma das poucas atrizes profissionais do elenco, vive Antonia de forma bastante odiosa, já que logo percebemos que seu problema não é o dinheiro, a senhoria apenas quer se livrar do seu pensionista o mais rápido possível por motivos absolutamente mesquinhos. Já a jovem Maria Pia Casilio, então com apenas dezessete anos, dá uma graciosidade fantástica a Maria, dando à adolescente um divertido ar de inocência atrevida, que resulta em uma química maravilhosa com o protagonista. É interessante observar também que ambos tornam-se párias na sociedade, mas enquanto Umberto é pela velhice, Maria é justamente pelo extremo oposto, o nascimento, representado por uma adolescente grávida que ira gerar uma criança sem pai.

Mas quem rouba mesmo o filme é o adorável cachorro Flick (interpretado por dois cães). Flick é a alegria do filme, e duvido que mesmo o mais insensível dos espectadores não vá se comover com a amizade e o companheirismo existente entre o animalzinho e o seu dono. Os minutos finais entre os dois são simplesmente uma montanha russa de emoções. A decupagem de De Sica, juntamente com a fotografia de G.R. Aldo, nome importante do Neorrealismo, tendo trabalhado em filmes como A Terra Treme, de Luchino Viscoti, reforça o clima de desesperança e solidão do personagem título, parecendo manter Umberto e seu cãozinho sempre isolados na tela, mesmo em planos com muitos figurantes.

Ao mesmo tempo, os enquadramentos são competentes em estabelecer a relação entre os personagens, ao se esforçar para mostrar Umberto e Maria sempre em plano conjunto, reforçando o laço entre os dois; ou enquadrar Antonia sempre à distância, parecendo dedicar à personagem o mesmo olhar impessoal que ela direciona àqueles à sua volta. A iluminação proposta por Aldo mergulha a cidade de Roma em ambientes sombrios e úmidos, que raramente ganham mais luz, mesmo que a maior parte da narrativa se passe á luz do dia. Umberto D. era o filme favorito de Vittorio de Sica dentro de sua filmografia, e não parece ser difícil entender o motivo. Temos aqui um protagonista turrão, cheio de falhas e virtudes extremamente humanas diante de conflitos morais que refletem pungentes críticas sociais, e tudo isso contado com uma verdade e delicadeza, e mesmo um lirismo ímpar. Uma verdadeira síntese da obra do mestre italiano.

Umberto D (Itália, 1952)
Direção: Vittorio de Sica
Roteiro: Cesare Zavattini, Vittorio de Sica
Elenco: Carlo Battisti, Maria Pia Cassilo, Lina Gennari, Lamberto Maggiorani.
Duração: 91 Min.

RAFAEL LIMA . . . Sou Um Time Lord renegado, ex-morador de Castle Rock. Deixei a cidade após a chegada de Leland Gaunt. Passei algum tempo como biógrafo da Srta. Sidney Prescott, função que abandonei após me custar algumas regenerações. Enquanto procurava os manuscritos perdidos do Dr. John Watson, fiz o curso de boas maneiras do Dr. Hannibal Lecter, que me ensinou sobre a importância de ser gentil, e os perigos de ser rude. Com minha TARDIS, fui ao Velho Oeste jogar cartas com um Homem Sem Nome, e estive nos anos 40, onde fui convidado para o casamento da filha de Don Corleone. Ao tentar descobrir os segredos da CTU, fui internado no Asilo Arkham, onde conheci Norman Bates. Felizmente o Sr. Matt Murdock me tirou de lá. Em minhas viagens, me apaixonei pela literatura, cinema e séries de TV da Terra, o que acabou me rendendo um impulso incontrolável de expor e ouvir ideias sobre meus conteúdos favoritos.