Crítica | Natal Sangrento (2012)

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Quando esta refilmagem do slasher cult Natal Sangrento foi anunciada, a maioria dos clássicos dos anos 1970-1980 já haviam ganhado nova roupagem. O Massacre da Serra Elétrica, A Hora do Pesadelo, Sexta-Feira 13 e Halloween são alguns dos “épicos” do horror repensados para as plateias contemporâneas. Sarcástico e com altas doses de “humor ácido”, a nova versão da noite de natal sangrenta não surpreende em nada, tampouco acrescenta algo para a história dos filmes de terror.

No filme, há a clássica alternância entre mortes criativas e investigação policialesca. O foco do roteiro é na personagem Aubrey (Jamie King), uma mulher que possui um passado cheio de problemas pessoais que a fizeram seguir a carreira policial, numa prova cabal de que O Silêncio dos Inocentes continua influenciando as narrativas deste quilate. Ao seu lado há o detetive Cooper (Malcolm McDowell), ambos obstinados a caçar o assassino vestido de Papai Noel.

Diferente da versão de 1984, não há um interessante perfil psicológico esboçado que justifique os crimes hediondos do Papai Noel. Nesta versão mais turbinada, o psicopata ataca os clássicos desviados da sociedade tradicional: a menina boca-suja que desrespeita a mãe, o padre tarado, a “vadia” que não se comporta adequadamente e adora se expor nua, dentre outras caricaturas que nos fazem perceber que serão massacradas pelo antagonista no primeiro momento oportuno. Eis a primeira diferença entre o “clássico” e a refilmagem: os personagens não são desenvolvidos, pois a maldade que os envolve é tão artificial que chega a ser risível.

Dentre os demais problemas desta reinvenção estão os diálogos do roteiro. Em um mundo demarcado pela naturalização da violência e uma era virtual onde vídeos dos mais hediondos circulam pelos aplicativos, quase nada nos surpreende. As mortes de Natal Sangrento não chocam, caso tenha sido esse o interesse em apresentar a refilmagem. Jogos Mortais, O Albergue, A Centopeia Humana, etc. Comparado aos contemporâneos citados, Natal Sangrento mais parece uma fábula natalina. Era preciso focar no roteiro, criar personagens mais profundos, mas sem o charme do “original”, esta versão turbinada tenta emplacar com algumas piadas, mas escorrega nas intenções.

Na noite da perseguição ao assassino, apresentado previamente em um prólogo pouco útil, os policiais precisam lidar com uma quantidade imensa de pessoas representando o personagem natalino. A cena nos remete ao tenso Halloween 4 – O Retorno de Michael Myers, pois em determinado instante os caçadores do famigerado psicopata do Dia das Bruxas deparam-se com uma massa de adolescentes “vestidos” de forma idêntica ao antagonista, em outra prova cabal de que os filmes de terror adoram retroalimentar-se, perpetuando a memória do seu próprio campo.

Com 94 minutos de duração, a produção foi dirigida por Steven C. Miller e teve o roteiro assinado por Jayson Rothwell, dupla que não conseguiu alcançar o êxito dos envolvidos na produção de 1984. Faltou mais discernimento para perceber que algumas sacadas dos anos 1980 não funcionam na contemporaneidade. Essa história de sacrificar as pessoas que não estão enquadradas dentro dos padrões da moral cristã é coisa do passado e hoje serve como material de paródia ou citação, como Wes Craven o fez muito bem em Pânico e atualmente as séries Scream e Scream Queens ofertaram aos espectadores.

Natal Sangrento (Silent Night, Canadá – 2012)
Direção: Steven C. Mille
Roteiro: Jayson Rothwell, baseado no roteiro de Michael Mickey e Paul Caimi
Elenco: Jaime King, Malcolm McDowell, Ellen Wone, Rick Skene, Andrew Cecon, Tom Anikko, Curtis Moore, Donal Logue
Duração: 94 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.