Crítica | “I Never Loved a Man the Way I Love You” – Aretha Franklin

aretha

estrelas 5,0

No período entre 1961 e 1966, Aretha Franklin lançou 9 álbuns, todos pela Columbia Records. Depois de seu début gospel em 1956, com o álbum Songs of Faith, a cantora chamou a atenção da Columbia, que, encabeçada pelo lendário produtor musical John Hammond, resolveu vender a novata como a nova voz do Soul e R&B, mas sem sucesso. Dos 9 álbuns lançados no período em que durou o contrato, o único que realmente merece destaque, na minha opinião, é Unforgettable: A Tribute to Dinah Washington (1964). Fora este, são apenas bons, mas nada demais, a tríade The Electrifying Aretha Franklin (1962), Laughing on the Outside (1963) e Soul Sister (1966). Para uma cantora do porte de Franklin, contratada para ser a “nova Billie Holliday”, esse início não foi nada empolgante. Mas o ano de 1967 mudaria as coisas.

Terminado o contrato com a Columbia, foi a vez de uma nova casa abrigar a cantora, a Atlantic Records, gravadora onde Aretha Franklin faria o mundo ouvir o que ela era capaz de fazer com voz. Já no primeiro álbum lançado sob o novo selo, I Never Loved a Man the Way I Love You (1967), a cantora, a quinze dias de completar 25 anos de idade, se tornou um marco histórico na cultura do Soul e R&B americanos, assim como este excelente álbum, sempre listado como um dos mais icônicos do gênero.

E como poderia ser diferente? Pegue a tessitura vocal de Aretha Franklin, a energia e bem articulada suavidade de seu estilo e os arranjos primorosos das canções deste álbum e você tem o espaço certo para uma grande voz se fazer ouvir.

Se você gosta muito de música e conhece um bom número de álbuns, tente selecionar aquele que tem a melhor música de abertura e justifique o por quê da sua escolha. Agora ouça Respect, a canção que abre I Never Loved a Man the Way I Love You, e faça a mesma coisa. Como você se sente depois desse exercício?

Respect, canção do grande Otis Redding, foi lançada em um dos melhores álbuns do cantor e compositor (Otis Blue/Otis Redding Sings Soul) dois anos antes da versão definitiva ser cantada na voz de Aretha Franklin. E o que essa jovem cantora fez com a calorosa canção em rhythm and blues é algo incomparável. A versão de Franklin é dançante, com elementos rítmicos próximos do gospel (inclusive no uso do piano), contrabaixo trovejando e metais em deliciosa evidência. Para mim é uma das 10 melhores aberturas de discos que eu já ouvi, por todos os seus elementos serem característicos de coisas que veríamos no decorrer das faixas posteriores e por passar uma mensagem que sustenta o tema central de toda uma época. Musical e textualmente conectada à obra, além de executada por uma banda afiada e uma grande cantora, Respect não é só o início de um novo álbum, é o início de uma nova era.

Já pelo título do disco fica claro que a temática central são as relações humanas e amorosas (Drown In My Own Tears), os meandros e muitas mudanças da vida (A change is gonna come), suas grandes decepções (I Never Loved A Man – The Way I Love You) e seus momentos de luta por um ideal (Respect). As muitas variações dentro do Soul e a constante exploração dos agudos limpíssimos de Aretha Franklin são espetáculos à parte do disco, que tanto em canções delicadas e suaves como Drown In My Own Tears ou mesmo em composições da própria cantora como Don’t Let Me Lose This Dream, Baby Baby Baby, Save Me e a melhor de todas, Dr. Feelgood (Love is a serious business), fizeram do disco um exemplo não só de qualidade na execução das faixas mas também de unidade em concepção.

É preciso lembrar sempre e sempre que a própria Aretha Franklin tocava o piano em seus álbuns (como Nina Simone também fazia), e aqui ela entrega performances muito boas, com destaque para a já citada Dr. Feelgood; a deliciosa “canção latina” do disco, Don’t Let Me Lose This Dream, e a doce balada Baby, baby, baby, que Aretha escreveu com sua irmã mais nova, Carolyn Franklin. A atualidade dessa última canção é simplesmente chocante. E certamente serviu de exemplo dúzias de grandes cantoras de soul e jazz (e até de versões mais baladescas do R&B) dos anos 90 em diante.

Ainda é possível ver um quase-funk em Save Me (o saxofonista Curtis Ousley – ou King Curtis –, parceiro das irmãs Franklin nessa canção, tem grande papel nisso); uma muitíssimo bem vinda presença da guitarra em Good Times que, ao lado de Respect, mostra a força e determinação da mulher e, para finalizar, uma aula de História, uma biografia emotiva, um relato lírico de uma vida que certamente foi a de muitos americanos e americanas, A change is gonna come, a canção que finaliza o álbum de maneira emotiva e delicada, mas com o poder vocal típico de Aretha Franklin, um final com um relato (ou uma profecia?) de mudança, um status que é parte da vida de cada um.

Aumenta!: Respect
Diminui!: —
Minha canção favorita do álbum: A Change is Gonna Come

I Never Loved a Man the Way I Love You
Artista: Aretha Franklin
País: Estados Unidos
Lançamento: 1967
Gravadora: Atlantic Records, Rhino
Estilo: R&B, Soul

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.