Crítica | Ícaro (2017)

Assistindo Ícaro, um turbilhão de referências me vieram à mente. Ao lidar com o escândalo do doping russo logo antes das Olimpíadas do Rio de Janeiro de 2016, o documentário logo lembrou-me do treinamento de Ivan Drago em Rocky IV em que as mais diversas substâncias químicas era utilizadas sob os olhares de aprovação de sua esposa e do representante do Politburo soviético para dar ainda mais vantagens ao grandalhão. Sylvester Stallone profeta ou algo tão comum mesmo àquela época que simplesmente não podia deixar de ser utilizado como artifício narrativo?

E nem falo aqui que só a União Soviética e depois Rússia tinha o doping como prática, até porque o documentário de Bryan Fogel, também ciclista amador, começa a partir do escândalo da revelação de que ninguém menos do que Lance Armstrong era contumaz usuário de drogas de aprimoramento de performance. É isso que serve de trampolim para a completamente louca ideia de Fogel de ele mesmo ser cobaia em um documentário que estudaria os efeitos do doping em seu corpo e as formas de burlar os sistemas de detecção em preparação para o Haute Route, competição de bicicleta duríssima, mas amadora, na França. Bem no estilo de Morgan Spurlock em seu Super Size Me – A Dieta do Palhaço, só que com potencialmente muito mais consequências nefastas para seu corpo, o diretor, então, começa um programa de doping acompanhado pela internet – e depois pessoalmente – pelo russo Grigory Rodchenkov, diretor do Centro Anti-Doping da Rússia, acreditado pela WADA, a Agência Mundial Anti-Doping em que ele passa a injetar-se com uma grande variedade de drogas, com uma constância enervante e assustadora ao longo de algo como cinco ou seis meses.

Mal sabia Fogel que sua versão de Super Size Me (que poderia muito bem ser o título do documentário também) tornar-se-ia outra coisa bem maior e bem mais aterradora com o começo das suspeitas de que haveria um programa amplo de doping na Rússia e que Rodchenkov seria uma das principais figuras. Nesse ponto, lembrei de outro documentário, o absolutamente imperdível Tickled, que começa de um jeito até inocente e acaba de outro completamente assustador. Some a isso tudo uma boa dose de sequências de espionagem de livros como os de Robert Ludlum, Frederick Forsyth ou John le Carré e pronto, é perfeitamente possível ter uma exata ideia do que Ícaro nos mostra.

Mesmo que o espectador tenha lido a ampla cobertura da imprensa sobre o escândalo em questão, o documentário tem o mérito de ir além e, ao personalizar o assunto por intermédio da relação de Fogel com Rodchenkov, com o segundo sendo um figura muito interessante em sua forma cínica e bonachona de abordar os assuntos mais controversos, vemos outras camadas bem mais nefastas da gigantesca conspiração que o governo russo vinha armando há décadas para mostrar-se ao mundo como uma potência dos esportes. Se, de um lado, vemos as declarações negando o ocorrido por parte do então Ministro dos Esportes e, claro, por Vladimir Putin, por outro vemos a inevitável verdade transbordar em provas, explicações e ações de Rodchenkov. Fogel, por sua vez, não deixa pedra sobre pedra e, ainda que não diretamente, trata de ser ainda mais abrangente, lidando de maneira velada, mas certeira, com a conivência do próprio Comitê Olímpico Internacional nessa história toda.

Ícaro é, sem dúvida alguma, um documentário daqueles fáceis de serem “vendidos”, pois o assunto em si é extremamente interessante e quente, com uma trama que poderia muito bem gerar um bom filme de ação e espionagem. No entanto, formalmente, o trabalho de Fogel tem problemas que o impedem de alcançar o nível que poderia alcançar. Dizem os rumores que, uma vez exibido no Festival de Sundance de 2017 e adquirido para distribuição pelo Netflix, a obra passou por extensas alterações, reedições e enxugamentos. Se for verdade, provavelmente nunca conheceremos o documentário original, mas o fato é que realmente parece que algo dessa natureza foi feito aqui.

O primeiro e mais problemático aspecto que salta aos olhos do espectador é o tempo que Fogel dedica ao seu experimento pessoal. Durante quase a metade da considerável duração da projeção do documentário, vemos detalhes de seu auto-flagelo com as drogas de aprimoramento de performance e de sua tentativa de melhorar sua posição no Haute Route. No entanto, mesmo que tenha sido essa ideia que o tenha colocado em contato com Rodchenkov, a grande verdade é que, aqui, a exploração detalhada dos eventos pré-escândalo olímpico não faz sentido algum simplesmente por não ter conexão direta com o que vem em seguida e por tomar tempo justamente da construção mais detalhada que ele poderia ter feito do evento principal. Suspeito que Fogel ou ficou com pena de “jogar fora” o material original, encurtando-o significativamente para não mais de uns 15 minutos introdutórios e contextualizadores ou simplesmente não tinha mais material para desenvolver o cerne de sua obra. Se tivesse que escolher uma das opções, a primeira me parece mais provável, já que os desdobramentos do escândalo que levam à fuga de Rodchenkov aos EUA sob a guarida da produção do filme parecem fragmentários e teria sido mais importante ouvir mais do cientista russo e dos impressionantes detalhes do esquema montado para fraudar os resultados dos exames de doping.

Outro aspecto complicado que deriva diretamente do tempo empregado para à ideia original de Fogel é a desconexão que isso causa com a segunda parte, depois que o escândalo começa a tomar forma. Parecem dois filmes completamente diferentes ou como se o making of do documentário tivesse sido acoplado a ele de maneira forçada. Além disso, a primeira metade é simplesmente mal executada, já que não há um objetivo explícito no que Fogel tenta fazer. Diferente de Spurlock, que deixa bem claras as regras da maluquice que se propõe a fazer, Fogel começa com um lamento sobre Armstrong e logo engata em seu projeto, mas sem muita objetividade.

Ícaro é, sem dúvida alguma, um documentário importante e revelador, mas ele só funciona de verdade em parte, com a primeira metade desperdiçada em divagações que não acrescentam nada à narrativa, ainda que não invalidem a experiência. O Ivan Drago turbinado de Rocky IV infelizmente nem arranha a superfície do desserviço que a institucionalização do doping causou ao esporte.

Ícaro (Icarus, EUA – 2017)
Direção: Bryan Fogel
Roteiro: Jon Bertain, Bryan Fogel, Mark Monroe, Timothy Rode
Com: Bryan Fogel, Grigory Rodchenkov
Duração: 121 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.