Crítica | Ida

estrelas 5,0

Assistir Ida é como olhar uma foto antiga com rostos desconhecidos e aprender suas histórias. É a partir desse impulso curioso que a jovem noviça, primeiramente conhecida como Anna, encontra os fragmentos da 2° Guerra Mundial, ao sair do convento onde cresceu. Dessa forma, faz sentido a escolha do diretor e roteirista, Pawel Pawlikowski, de filmar em preto e branco. Isso aproxima a história de uma sensação de aceitação perante o imutável.

Este é um filme que vai para trás no tempo e para dentro dos conflitos internos, sem buscar escapatórias fáceis. A órfã é estimulada a procurar a única parente viva, a tia que não quis ficar com ela, antes de fazer os votos de castidade. Deste encontro surge uma descoberta que leva a uma jornada de reconhecimento para ambas. Encarar esse passado cheio de vestígios doloridos interfere na maneira de lidar com as escolhas de futuro na Polônia dos anos 60. E, embora o silêncio esteja presente em grande parte do filme, a música salta para amenizar a solidão.

Ao som de jazz e músicas polonesas, a narrativa ganha uma roupagem romântica e brinda o roteiro com nuance e sutileza. Diante do embalo da música Naima de Coltrane, Ida começa a experimentar os questionamentos necessários para fortalecer uma decisão sobre a vida reclusa no convento.

A atuação da atriz, Agata Trzebuchowska, que interpreta a freira judia tem grande efeito. Com olhos expressivos o diretor consegue arrancar toda a inocência e a maturidade da personagem. Mas a atriz que interpreta a tia, Agata Kulesza, é tão eficaz quanto, ao se entregar à tristeza sem cair no abismo da apatia. É uma linha tênue percorrida pela personagem, o que a torna carismática e forte. Ela é quem impulsiona a sobrinha a testar seus limites e ela mesma encontra os seus próprios.

As cenas, em formato mais estreito na telona, evidenciam o cuidado e a sensibilidade do diretor ao enquadrar grandes espaços de tal maneira que se torna possível amputar o excesso e mostrar apenas a presença do vazio em relação às personagens, que estão determinadas a iniciar uma busca pelo que perderam. Na tela elas estão sempre devidamente posicionadas e a composição das cenas acentua a beleza de situações rotineiras e sem grande excitação, o que condiz com a narrativa simples e sincera. É um filme que cala e reflete.

Roteiros sobre o nazismo geralmente ganham notoriedade no cinema. E por ser um dos momentos de maior terror coletivo na história da humanidade é de se esperar que seja inesgotável as impressões e arranhões que permanecem na sociedade até hoje. Assim, Ida traz uma perspectiva nova, por ser particular, diante da perseguição aos judeus.

A direção de Pawlikowski se distancia dos campos de concentração e vai para a esperança de sobreviver no esconderijo ao relento. Não várias vidas e sim uma família. Não o todo, mas o detalhe e mais que isso a continuação do que passou.

Compreender ou aguçar a curiosidade sobre o que se passa na mente e no coração de pessoas que não sentiram na pele o mesmo sofrimento daqueles que amavam, mas que ainda assim carregam marcas indeléveis e mudas é o grande peso deste filme. Marcas gravadas em preto e branco.

Ida (Polônia, Dinamarca, França, Reino Unido, 2013)
Direção: Pawel Pawlikowski
Roteiro: Pawel Pawlikowski, Rebecca Lenkiewicz
Elenco: Agata Kulesza, Agata Trzebuchowska, Dawid Ogrodnik, Jerzy Trela, Adam Szyszkowski, Halina Skoczynska, Joanna Kulig, Dorota Kuduk, Natalia Lagiewczyk, Afrodyta Weselak, Mariusz Jakus, Izabela Dabrowska, Artur Janusiak
Duração: 82 min.

GABRIELA MIRANDA . . . Cinéfila inveterada, sigo a estrada de ladrilhos amarelos ao som de Jazz dos anos 20 enquanto escrevo meu caminho entre as estrelas. Com os diálogos de Woody Allen correndo soltos na minha cabeça, me pego debatendo entre gostar mais do estilo trapalhão ou de um tipo canalha de personagem. Acima de tudo, acredito que tenho direito de permanecer com minha opinião. Mas acredite, nada do que eu disser poderá ser usado contra os filmes.