Crítica | Igual a Tudo na Vida

estrelas 3

Woody Allen é um cineasta singular, pois diante de tantas décadas de carreira e filmes influenciáveis, dispensa grandes apresentações. Em 2003, a sua produção passava por um período problemático, haja vista a sua ansiedade oriunda das tentativas frustradas de agradar ao máximo de integrantes da indústria cinematográfica: a crítica, o público e os seus fãs, tanto os atuais como as gerações anteriores.

Em Igual a Tudo na Vida, a sensação que temos é a de que no final das contas, o filme é igual a tudo que já vimos antes no bojo da produção do cineasta, em especial, as narrativas do final dos anos 1970 e durante o percurso da década de 1980.   Sendo assim, elementos de filmes anteriores são retomados, entretanto, sem a mesma intensidade de outrora.

O enredo foca na trajetória complexa de Jerry Falk (Jason Biggs), um aspirante ao posto de escritor que vive em Nova York e encontra-se num terreno pantanoso no quesito profissional e na vida amorosa. Amanda, a sua namorada, interpretada pela ótima Christina Ricci, é uma excêntrica personagem que o coloca em pânico cotidianamente, haja vista o comportamento difícil.

Para piorar, eles dividem um espaço junto, apesar da crise na relação que está há meses sem sexo, e precisarão lidar com a chegada da sogra impertinente. Na seara profissional, outra lástima, afinal, o seu agente nunca consegue trabalhos interessantes. Quem chega para salvar um pouco a situação é Dobel, personagem desenvolvido por Woody Allen, um homem que decidiu apostar nos talentos do rapaz.

Woody Allen pode até utilizar terapia para resolver as suas questões pessoais, mas não há nada melhor que o cinema para desaguar as suas neuroses. No que tange aos aspectos, Igual a Tudo na Vida foi filmado em scope, o que reduziu o uso de planos mais abertos. Assim, ao relacionar imagem e diálogos claustrofóbicos, a produção alcança um bom resultado formal. A montagem e a trilha sonora continuam sendo um dos pontos bem articulados dos filmes do cineasta, bem como a direção de fotografia e o fabuloso papel criador da câmera. O problema, mais uma vez, é o roteiro irregular.

As atuações estão ótimas. Jason Biggs conseguiu captar os trejeitos histriônicos de Woody Allen. Ele conversa com a câmera e trava solilóquios sensacionais, aponta e gesticular de maneira convincente e teme os obstáculos que são colocados em seu caminho, numa espécie de versão juvenil do noivo neurótico típico da sua produção cinematográfica.

Como a noiva nervosa da vez, temos Christina Ricci, ótima como a absurdamente neurótica namorada problemática do protagonista. Com toques físicos e cerebrais, a comédia revela um subtexto intrigante, repleto de discussões existencialistas e de outras ramificações da filosofia, além de delinear as preocupações do mundo contemporâneo no que diz respeito à política, economia e relações sociais.

O problema, como apontado antes, é o roteiro irregular: ora as piadas não alcançam a graça necessária, ora se tornam alvo de cenas pouco emblemáticas. Não é preciso análise, terapia e tratamento: o que precisava melhorar nesta época era a qualidade do texto.

A produção acaba se afogando em seu caudaloso mar de pretensões. Ao longo de 108 minutos de duração, é possível se divertir, refletir sobre as questões de sempre no âmbito da produção deste cineasta múltiplo, no entanto, a sensação é de fastio. O espectador mais exigente percebe facilmente que ao se propor a agradar as diversas esferas da indústria, Woody Allen se perde e acaba entregando um dos seus filmes mais bem dirigidos, mas com grandes problemas de roteiro.

É bom saber que mais adiante o cineasta conseguiria ajustar as contas com a história do cinema, ao entregar obras-primas fruto do seu deslocamento geográfico: com as narrativas oxigenadas do eixo europeu, o cineasta reforçou a sua potencialidade e posicionamento visionário dentro da indústria, entretanto, caro leitor, isso é tema para os nossos próximos textos do Especial Woody Allen.

Igual a Tudo na Vida (Anything Else) – EUA, 2003.
Direção:  Woody Allen.
Roteiro: Woody Allen.
Elenco: Woody Allen, Jason Biggs, Jimmy Fallon, Christina Ricci, Danny DeVito, Diana Krall, William Hill, Stockard Channing.
Duração: 108 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.