Crítica | Ilha dos Cachorros

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Para Wes Anderson, o mundo sempre foi um lugar perigoso e tudo está sempre em mudança. Desde o seu primeiro longa-metragem, Pura Adrenalina (1996), o diretor texano se propôs a mostrar vidas ou mundos em transformação. Pouco interessando em narrativas isoladas ou imediatistas, ele investiga a linha do tempo de seus personagens, mesclando biografias e crônicas disfarçadas com dois tipos de drama ligados à maturidade: a fuga e a busca. Em Ilha dos Cachorros (2018), segundo filme de animação stop-motion do diretor, depois do excelente O Fantástico Sr. Raposo (2009), essas duas características centrais se unem em uma história levemente futurista que tem em foco a corrupção governista e corporativa criando doenças, medo, preconceito e gerando segregação entre humanos e cachorros, numa medida arbitrária que atende aos interesses historicamente familiares do Prefeito Kobayashi (Kunichi Nomura) e de seu igualmente segregador lacaio Major-Domo (Akira Takayama).

O Arquipélago Japonês, 20 anos no futuro”. É assim que começa, com perfeita demarcação de tempo e espaço do roteiro, a narração central, após uma apresentação histórica e artística sobre o passado do Clã Kobayashi e seus declarados problemas com cachorros. Uma grande família. Um grande clã. Contra uma espécie inteira, considerada suja e inferior, em detrimento de outra, os adorados, limpos e dignos gatos. Soa familiar? Para contar essa saga repleta de camadas em termos políticos e sociológicos, o diretor e roteirista definiu um local existente com um status não-existente — ou seja, não estamos falando exatamente do Japão, mas de um Estado derivado deste, após uma torrente de tragédias naturais — e em um tempo adequado a qualquer ponto de partida, já que “20 anos no futuro” é algo sempre atual, não importando em que ano o filme é visto. Isso em mente, é possível incorporar as mais diversas visões intencionais do diretor aqui, seja a leitura anti-Trump, a jornada do herói com pitadas existencialistas ou a crítica a todo tipo de preconceito e lavagem cerebral ideológica para convencer as massas a odiarem algo… Todas as interpretações neste caso são enriquecedoras.

Desde a pré-produção, Anderson deixou claro as suas influências centrais para a concepção desta melancólica e reflexiva animação sobre abandono, lealdade, criação de laços e importância de se colocar contra ordens — quaisquer que sejam — que através de grandes poderes tentam separar e matar diferentes, culpando-os de “mau comportamento”, “sujeira”, “doenças” e “degradação da sociedade”. Para a composição familiar do enredo, o diretor se basou nas lembranças de infância dos Especiais de Natal em stop-motion da Rankin/Bass Productions, que passava na televisão. Já os aspectos mais bojudos de construção dramática para os núcleos de perseguidos e perseguidores, o diretor trouxe coisas de The End of Evangelion (1997), Porco Rosso: O Último Herói Romântico (1992) e Akira (1988), sendo, pois, a cultura japonesa um elemento essencial para aquilo que ele pretendia retratar.

Em certos ciclos, esta escolha gerou algo próximo de uma polêmica, que aponta o tratamento dado pelo cineasta à cultura e ao idioma japonês como sendo algo secundário, minimizado, “apropriado”, seja lá o que essas declarações querem dizer. O fato é que, ignorado o delírio cômico de certos cinéfilos e críticos (a propósito, gritam “preconceito” para o resultado pós-banho de um certo cão na história, sem ao menos se darem o trabalho de entender o filme ou compreender a homenagem do diretor a Harry, The Dirty Dog), temos diante de nós não só mais uma fascinante fuga-e-busca construída com o recorrente apuro simétrico, de cores e estrutura milimétrica para a composição de cada plano que esperamos de Wes Anderson, mas também uma belíssima homenagem do diretor a um de seus grandes ídolos cinematográficos, o Mestre Akira Kurosawa.

E nós percebemos essa ligação desde os primeiros momentos da fita. Mesmo se estivéssemos de olhos fechados entenderíamos isso, pois a trilha sonora de Alexandre Desplat (recém-saído de uma safra com Baseado em Fatos Reais, Valerian e a Cidade dos Mil Planetas e A Forma da Água) nos entrega o ouro. Criando linhas de percussão tipicamente japonesas, o compositor integrou frases orquestrais próprias, com forte peso em tubas, trompas, trombones, contrabaixos e cellos, para ligar algumas cenas à reprodução de trechos musicais diretamente retirados de O Anjo Embriagado (1948) e, o mais reconhecível de todos, Os Sete Samurais (1954), ambas as trilhas de Fumio Hayasaka, que inclusive foi o ponto de referência para as criações de Desplat.

Do lado político e notadamente moral, Anderson trouxe a essência de Céu e Inferno (1963), criando com isso todo o arco do Prefeito Kobayashi, expondo ainda um bônus visual de Cidadão Kane (1941) na forma como filmou as cenas de pôsteres políticos e discursos das noites de reeleição. O roteiro, no entanto, não se interessa pela investigação política em si, e isso já era esperado. A despeito dos sintomas segregacionistas que critica, Ilha dos Cachorros é focado na maneira como humanos e animais são afetados por atitudes extremas, pelo ódio, e é a partir desse ponto mais ou menos disfarçado que emana o bloco científico (que infelizmente se perde um pouco do meio para o fim); a imprensa; o lado tecnológico e corporativo a serviço do Estado (que começa bem, mas é responsável por um pedaço bem arrastado do filme, que mesmo fazendo parte da busca prometida pelo roteiro, não acrescenta muita coisa); e por fim, o prefeito, Major-Domo e suas ideias preconceituosas e de extermínio, um bloco que cumpre bem o seu papel na construção da vilania (social, moral ou familiar, todas sólidas), mas se encerra de modo melodramático demais, praticamente traindo a essência do personagem.

Trabalhando majoritariamente com a equipe de Sr. Raposo (um “pequeno time” de 670 pessoas que proveram, para este longa, 130.000 sequências de fotografia) Anderson conseguiu mais uma vez mostrar inventividade e excelência técnica, mesmo ao trabalhar um tema que não é novo em animações (vide Os Cães Plagueados) mas que sob o seu olhar, recebe a grandeza e o encanto que não deixa de impressionar o público. Suas exibições visuais aqui contam com cenários que se alteram em travellings; variação marcante de ângulos iniciais para cada tipo de personagem — sua reimaginação de cenas de Os Homens Que Pisaram Na Cauda do Tigre durante a busca de Atari por seu cão Spots; de Yojimbo – O Guarda-Costas na sequência de luta, logo na abertura fabular da película; e de A Fortaleza Escondida sempre que Atari, Spots ou Chief são mostrados em grupo, merecem efusivos aplausos — e ocultação das cores vermelho e verde sempre que o ponto de vista é o de um cachorro. Raro encontrar um diretor que, hoje, que crie identidades estéticas e atmosferas tão íntimas e tão identificáveis como Wes Anderson cria para seus grupos de personagens.

Com um elenco estelar fazendo as vozes, dentre os quais merecem grande destaque Bryan Cranston (Chief), Edward Norton (Rex), Bill Murray (Boss), Frances McDormand (Intérprete Nelson), Scarlett Johansson (Nutmeg), Liev Schreiber (Spots) e Kunichi Nomura (Prefeito Kobayashi), Ilha dos Cachorros é uma animação que embrulha em cinismo a transformação de uma sociedade que, via fanatismo, se volta contra uma parte que sempre esteve com ela em casa, como funcionários, como amigos… E entre o sumô, o kabuki, o cinema de Kurosawa e o (às vezes caloroso) desalento contemporâneo ao olhar o que nos sobra das relações e da afetividade para com os outros, a obra nos isola para nos fazer refletir sobre o tema, criando uma aventura com personagens que arriscam muito para poder, em vez de separar ou matar “doentes”, curá-los de sua enfermidade, tendo ainda a clareza de perceber que nem todos vão querer ou poderão ser curados. Uma cachorrada política, familiar e pessoal visualmente estonteante.

Ilha dos Cachorros (Isle of Dogs) — EUA, 2018
Direção: Wes Anderson
Roteiro: Wes Anderson, Roman Coppola, Jason Schwartzman, Kunichi Nomura
Elenco: Bryan Cranston, Koyu Rankin, Edward Norton, Bob Balaban, Bill Murray, Jeff Goldblum, Kunichi Nomura, Akira Takayama, Greta Gerwig, Frances McDormand, Akira Ito, Scarlett Johansson, Harvey Keitel, F. Murray Abraham, Yoko Ono, Tilda Swinton, Ken Watanabe, Mari Natsuki, Fisher Stevens, Nijirô Murakami, Liev Schreiber, Courtney B. Vance, Satoshi Yamazaki, Gen Ueda, Anjelica Huston, Yôjirô Noda
Duração: 101 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.