Crítica | Ilusão (Illusion – 2004)

estrelas 2,5

Obs: O filme nunca foi lançado oficialmente no Brasil. Portanto, o título “Ilusão”, em português, é a tradução direta do crítico do título original em inglês, Illusion.

Kirk Douglas anunciou que se aposentaria de sua carreira na Sétima Arte depois de Ilusão. E, mesmo que o filme tenha sido literalmente esquecido nas brumas do tempo e raramente assistindo e comentado, vale como uma bela – mas longe de perfeita – despedida deste grande astro que continuou na ativa o máximo possível mesmo depois de seu gravíssimo derrame de 1996 que o deixou com dificuldades de fala e locomoção.

O ator vive Donald Baines, um lendário diretor de filmes românticos que já está idoso, com câncer e à beira da morte. Ele vive em sua mansão, constantemente deitado em sua cama, servido por uma prestativa enfermeira e um fiel mordomo. Quando a projeção começa, ele é entrevistado sobre sua carreira por um jornalista (Gibson Frazier).

No melhor estilo Um Conto de Natal, de Charles Dickens, ele é visitado pelo fantasma de seu montador favorito, Stan (Ron Marasco) que o faz revisitar o filho que rejeitara há muitos e muitos anos. Transportado magicamente para um cinema, Baines, então, é brindado com três rolos que mostram momentos marcantes da vida de Christopher (Michael A. Goorjian) – que ele só vira uma vez de longe, sendo muito covarde e irresponsável para assumi-lo -, com seus encontros e desencontros trágicos com o amor de sua vida, Isabelle (Karen Tucker) desde a adolescência até a vida adulta.

O diretor, produtor e ator Michael A. Goorjian trabalhou nesta obra por seis anos e meio e filmou as sequências da história de Christopher ao longo desse período. Só depois de finalizadas, ele procurou Kirk Douglas para o papel de Baines, com o objetivo de ao mesmo tempo homenagear esse grande nome e ter alguma chance de “vender” seu filme no mercado cinematográfico. E ele foi bem sucedido pelo menos no primeiro de seus objetivos.

Apesar de carregado de clichês nas sequências envolvendo Christopher e Isabelle, que tomam 80% do tempo de projeção, o drama romântico até que é passável se esquecermos a direção simplista e as atuações não mais do que medianas, com exceção da surpreendente presença de ninguém menos do que Bryan Cranston anos antes de alcançar o estrelado com Breaking Bad em uma ponta importante no terceiro segmento.

Mas é evidente que todo o atrativo de Ilusão está nas sequências com Kirk Douglas que abrem a fita e intercalam cada “pedaço” da vida de seu filho. Ver o ator então com 87 anos atuando com uma incrível energia é algo para trazer lágrimas aos olhos. Ele compreensivelmente passa quase o tempo todo deitado, mas mesmo com dificuldade de fala, ele demonstra uma força de vontade magnífica e faz de tudo para dar verdadeira vida a um arrependido Donald Baines. Começando de maneira hesitante, na medida em que o personagem se desenvolve acompanhando a vida de seu filho de maneira passiva, o rosto de Douglas se ilumina, seus punhos se cerram, sua voz às vezes quase volta ao normal e é possível o espectador escutar ecos de personagens clássicos que ele viveu ao longo de suas inigualáveis décadas de trabalho.

Com isso, Ilusão é, na verdade, uma obra híbrida. De um lado, conta uma história de amor bem chinfrim sem um pingo de imaginação. De outro, é uma rara visão de uma lenda se recusando a largar seu ofício, um testamento da perseverança de um homem que pouco tempo antes da redação da presente crítica, completava, com uma bela festa em Los Angeles com família e amigos, 100 anos de idade e uma vida que vai muito além da de ator. Um filme que poderia ser apenas mais uma produção independente esquecida ganha relevância por uma decisão acertada de Goorjian e também de Douglas.

Ilusão merece uma chance se a carreira de Kirk Douglas já for largamente conhecida pelo cinéfilo. Não é um grande filme, mas é um lindo tributo.

Ilusão (Illusion, EUA – 2004)
Direção: Michael A. Goorjian
Roteiro: Tressa DiFiglia, Michael A. Goorjian, Chris Horvath, Ron Marasco
Elenco: Kirk Douglas, Michael A. Goorjian, Karen Tucker, Bryan Cranston, Richmond Arquette, Ron Marasco, Ted Raimi, Kristen Clement, Kevin Weisman, Ronald Victor Garcia, Michael Kemmerling, Jules Bruff, Nancy Jeffries
Duração: 106 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.