Crítica | Imensidão Azul

estrelas 4

 Marcado pela sua retratação de grupos ou indivíduos excêntricos, marginalizados, Luc Besson é um dos três nomes, juntamente de Jean Jacques Beneix e Leos Carax, que realizaram filmes dentro do Cinema du Look. Priorizando a estética à narrativa, as relações interpessoais a uma trama mais elaborada, tal maneira de se fazer cinema nos permite claramente identificar o tom comum nas obras dos três diretores. Besson adentrou em tais princípios com Subway e assim seguiu com Imensidão Azul, que apesar de contar com um cenário completamente diferente, nos transmite uma similar sensação, algo que permaneceria nos longas-metragens posteriores do diretor.

O apelo estético do filme se faz evidente desde os minutos iniciais, quando, em preto-e-branco, acompanhamos um jovem menino mergulhando na costa das ilhas gregas. O jovem Jacques Mayol, com apenas uma máscara de mergulho, alimenta uma enguia com as mãos. Com uma trilha sonora precisa, que busca emular a sensação de estar submerso, mesclando com recursos dramáticos, a tensão no espectador é garantida. São necessários, porém, apenas alguns segundos para enxergamos a naturalidade com a qual o garoto encara o mar, fazendo dele, praticamente, um ser marinho por si só.

Tais cenas subaquáticas são gravadas com maestria por Carlo Varini, que não só consegue captar uma imagem nítida, como realiza planos de se cair o queixo, sejam eles estáticos ou com movimento. De fato, é a ausência de desequilíbrio nesse trabalho fotográfico que praticamente força em nós a necessária calma tão almejada e representada pela obra. Através de tais sequências, Luc Besson constrói a figura de seu protagonista que acompanhamos por um curto período quando criança, para, depois, pularmos para sua vida adulta, na qual o personagem é vivido por Jean-Marc Barr e onde a história, efetivamente, se desenrola.

Reitero, todavia, que Imensidão Azul não procura nos contar uma história complexa, cheia de twists e similares. Como dito, a estética do qual faz parte pede um foco nas relações interpessoais e isso se dá pela relação entre Jacques e seu amigo de infância, Enzo Molinari (Jean Reno). Sem a menor dificuldade, Jean Reno, através de sua retratação absolutamente excêntrica e não menos cômica, rouba todas as cenas, rapidamente constituindo o ponto alto da obra com sua forte (e muitas vezes difícil) personalidade. Obviamente, para tal, Mayol se faz necessário, atuando como um catalisador dos eventos transcorridos da obra. Ainda assim, não podemos deixar de sentir um certo subaproveitamento do personagem, que ao invés de ser marcante em seu constante silêncio, simplesmente é ofuscado pelo notável, e divertido, coadjuvante.

Tal deslize poderia ser facilmente perdoado graças à discreta química existente entre os dois personagens, que tão bem garante a profundidade do filme. Infelizmente, funcionando como uma recorrente quebra de ritmo ao longo da projeção, temos Johana Baker (Rosanna Arquette), o caso amoroso de Jacques, uma personagem inteiramente desnecessária para a trama que somente nos distancia do elemento desejado: a interação entre os dois velhos amigos. As diversas cenas com Johana, em sua maioria, destoam do restante da obra, soando como inserções inorgânicas à narrativa, que, no fim, somente garantem uma duração demasiadamente estendida ao filme. Resgatando-nos delas, temos, novamente, as cenas subaquáticas, que tão bem marcam o filme em nossa memória, representando, de forma ideal, o subconsciente do protagonista excêntrico e marginalizado, que constrói a estética em questão.

Com méritos e defeitos, Besson consegue nos passar uma obra que prioriza a estética, mas que não nega a narrativa, conseguindo sobrepujar suas muitas qualidades aos defeitos. Imensidão Azul pode não ser seu melhor filme, mas certamente ficará marcado na mente de qualquer um que o assistir, seja pelas extasiantes sequências no mar, seja pela sincera retratação de uma amizade que dura uma vida inteira.

Imensidão Azul (Le Grand Bleu – França/ EUA/ Itália, 1988)
Direção:
Luc Besson
Roteiro:
Luc Besson, Robert Garland, Marilyn Goldin, Jacques Mayol, Marc Perrier
Elenco:
Rosanna Arquette, Jean-Marc Barr, Jean Reno, Paul Shenar, Sergio Castellitto, Jean Bouise
Duração:
168 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.