Crítica | Império dos Sonhos: A História da Trilogia Star Wars

imperio_dos_sonhos_star_wars_plano_critico

estrelas 5,0

A de certa forma melancólica conclusão de George Lucas ao final de Império dos Sonhos é mais importante lição que muita gente que gosta de Star Wars em diversos níveis dificilmente consegue captar apenas vendo os filmes. A criação do então jovem cineasta lá pela segunda metade da década de 70, feita com o objetivo de desafiar a estrutura de estúdios para a produção e distribuição de filmes, tornou-se exatamente aquilo contra o que ele lutava. Star Wars tornou-se o padrão da indústria cinematográfica que continua assim, dessa maneira “reinventada” por Lucas até hoje. Irônico, especialmente se levarmos em consideração que Darth Vader também tornou-se aquilo contra o que lutava…

E esse fenômeno que se chama Star Wars – gostem ou não da saga – precisa ser compreendido e estudado e uma das melhores formas de assim fazê-lo é por intermédio dos diversos documentários que existem sobre a franquia, mas especialmente Império dos Sonhos: A História da Trilogia Star Wars, produzido em 2004 para compor os “extras” do lançamento em caixa da malfadada edição especial da Trilogia Star Wars em DVD. Claro que se trata de um documentário encomendado pela própria Lucasfilm e não há um “outro lado” crítico a tudo o que foi feito. O enfoque é sempre elogioso, mas também muito franco, muito direto, sem papas na língua. De certa forma, é a versão audiovisual resumidíssima da sensacional trilogia de livros escrita por J.W. Rinzler sobre os bastidores dos filmes.

Em 2h30′, Edith Becker e Kevin Burns levam os espectadores para os meandros da criação da Trilogia Original, focando dois terços do tempo de duração no processo de criação, produção e lançamento de Guerra nas Estrelas, o filme original de 1977. E a grande verdade é nesse grande pedaço do documentário é que as informações realmente importante nos são passadas, demonstrando que o roteiro de Ed Singer (basicamente cronológico) faz a escolha mais do que acertada, especialmente diante da riqueza de imagens e entrevistas dedicadas ao início de tudo. Se fosse uma escolha deste crítico, o documentário seria integralmente sobre o primeiro filme, já que o que vemos em seguida – a abordagem de O Império Contra-Ataca e O Retorno de Jedi -, apesar de sempre interessante, não carrega um décimo do drama e da emoção do que vem logo antes. Mas não se pode ter tudo e, pelo menos, é uma notícia excelente que a Trilogia Prelúdio ganha apenas uma breve menção nos minutos finais, poupando-nos de qualquer situação embaraçosa.

Assim como Rinzler fez em seus livros, o acesso aos arquivos da Lucasfilm garantem ao documentário cenas de bastidores inestimáveis mostrando testes para a escolha de elenco (ver Kurt Russell tentando um papel e descobrir que Harrison Ford só participou dos testes para ajudar os candidatos e não para participar ele mesmo da seleção não têm preço), filmagens de bastidores que mostram a excelente interação do elenco entre si, inclusive com Alec Guinness (que, diz a lenda, odiou seu trabalho como Obi-Wan Kenobi) e também com o próprio George Lucas, visto como um diretor detalhista, mas não irascível como alguns dizem que ele se tornaria mais para a frente, além de entrevistas da época com todo o elenco principal, com os técnicos sensacionais responsáveis pelo deslumbramento que a franquia causa e também com alguns membros representantes da “máquina de Hollywood”.

Aliás, falando nisso, é muito interessante ver os créditos serem dados a quem merece além dos nomes de sempre. Uma dessas pessoas cuja crença na visão de Lucas foi determinante para o primeiro filme sair das páginas do roteiro e dos incríveis painéis de Ralph McQuarrie, foi Alan Ladd Jr., então presidente da Fox. Foi ele quem convenceu a diretoria do estúdio em financiar o primeiro filme (pouco mais de 8 milhões de dólares) e foi ele quem segurou as pontas quando o orçamento e os prazos foram estourados, levando quase ao encerramento da produção com um todo e o enterro precipitado do filme que mudaria a forma de se fazer Cinema. Praticamente o único que acreditava no projeto, Ladd Jr. (filho do ator Alan Ladd, que famosamente viveu Shane em Os Brutos Também Amam) foi o grande escudo de Lucas na Fox e perante toda a mídia que começava a bombardear o projeto como um todo, minando a credibilidade dele próprio no processo, o que o levaria a quase ser expulso do estúdio depois de O Império Contra-Ataca (e isso considerando que, além de Star Wars, o executivo também trouxe Alien, o Oitavo Passageiro ao mundo).

Mas John Dykstra, mago dos efeitos especiais, Ben Burtt, mago dos sons, Stuart Freeborn, mago das criaturas (sim, a equipe técnica da trilogia é composta de bruxos e magos poderosos!) e os demais mestre por trás da loucura de George Lucas ganham seus respectivos e merecidos tempos de tela. É como ver uma confluência astral de mentes que, arrisco dizer, o mundo só veria de verdade novamente quando Peter Jackson encabeçou a impossível transposição para a telona da trilogia O Senhor dos Anéis (especificamente essa, pois a trilogia O Hobbit é o equivalente à Trilogia Prelúdio de Star Wars em termos de desperdício de potencial…).

Becker e Burns não inventam na progressão narrativa e optam pela montagem cronológica pura e simples. Vemos da mudança dos parâmetros hollywoodianos no início da década de 70, passando por Lucas e seu THX-1138, depois a pré-produção, produção e pós-produção de Guerra nas Estrelas, seguido de seu lançamento e transformação em sucesso mundial. Em seguida, vemos quase que en passant (comparativamente) blocos narrativos abordando os outros dois filmes e focando nos aspectos mais importantes de cada um deles: a criação de Yoda, o segredo sobre a revelação de quem é o pai de Luke, os Ewoks e assim por diante. Não há nada espetacular ou diferente no trabalho dos diretores a não ser a seriedade com que enfocam o material fonte e realmente ilustram o que o narrador Robert Clotworthy diz ao longo da progressão da fita. E é por isso mesmo – esse tom didático, essa calma, essa visão lúcida – que Império dos Sonhos funciona tão bem para educar fãs e não fãs sobre a odisseia que foi a trilogia e o que ela significa para todos os envolvidos.

E a lição que fica – a transformação de Lucas naquilo que ele sempre tentou ferrenhamente não ser – é ao mesmo tempo emocionante e embaraçosa. Como se a criatura, ali ao vivo, engolisse o criador. Com diria Vader: “impressionante, muito impressionante”…

Obs: Há três versões disponíveis do documentário, uma de 151 minutos, contida no DVD da Trilogia Original, outra de 120 minutos, lançada na televisão e outra ainda mais curta de apenas 90 minutos, também lançada na TV. Façam um favor a vocês mesmos e procurem a versão mais longa, por ser muito mais rica e completa que as demais.

Império dos Sonhos: A História da Trilogia Star Wars (Empire of Dreams: The Story of the Star Wars Trilogy, EUA – 2004)
Direção: Edith Becker, Kevin Burns
Roteiro: Ed Singer
Com: Robert Clotworthy, Walter Cronkite, George Lucas, Steven Spielberg, Irvin Kershner, Howard G. Kazanjian, Gary Kurtz, Leo Braudy, Bill Moyers, Carrie Fisher, Gareth Wigan, Alan Ladd Jr., Ralph McQuarrie, Richard Edlund, Steve Gawley, John Dykstra, Paul Huston, Joe Johnston, Lorne Peterson, Dennis Muren, Mark Hamill, Harrison Ford, Peter Mayhew, Kenny Baker, Anthony Daniels, Norman Reynolds, Robert Watts, Peter Diamond, Richard Chew, Paul Hirsch, Ken Ralston, Ben Burtt, James Earl Jones, Phil Tippett, John Williams, Sidney Ganis, Lawrence Kasdan, Billy Dee Williams, Stuart Freeborn, Frank Oz, Charles Weber, Jim Bloom, Warwick Davis, Alec Guinness
Duração: 151 min./120 min./90 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.