Crítica | Império Proibido

estrelas 2,5

Existem dois fatores para se determinar a qualidade de uma história: o primeiro e fundamental, a interpretação de cada um acerca dela, e o segundo, o modo como quem conta a história o faz ou pretendeu fazê-lo. Império proibido é a adaptação de uma história, que a reconta ao seu modo. Não deu certo, pelo menos em quase tudo, ainda que aparentemente restem indícios da real origem deste conto de horror.

A adaptação é do livro Viy, de Gógol, famoso escritor da União Soviética. Filme russo, dirigido por Oleg Stepchenko, a trama inicia em meados de 1700. Com um prólogo e uma introdução promissores envolvendo a morte de uma jovem em uma aldeia remota e o devido efeito dramático logo voltando nosso imaginário ao sobrenatural, a seguir somos apresentados a um cartógrafo inglês (Jason Flemyng), que ambiciona mapear terras longínquas, tanto que deixa a dita amada à sua espera, com os cachorros do sogro encolerizado tentando alcançá-lo, para mergulhar em seu empreendimento até sabe-se lá quando, fielmente narrando suas aventuras e desventuras a jovem em cartas via pombo correio – aqui até a escrita codificada de Leonardo da Vinci entra na história.

Pela introdução, parece evidente que nosso cartógrafo será um personagem de destaque e na certa essa devia ser a intenção, mas o roteiro passa a apresentar resquícios de seu grande problema quando o cartógrafo ainda está a caminho de seu previsível destino: a tal aldeia remota. O viajante fica sabendo do desaparecimento de um filósofo na aldeia e narrativas e muitos diálogos paralelos, alguns dos quais claramente pretendem divertir mas só comprometem o tom do longa, tornam o desenrolar da trama arrastado em princípio, quase monótono, já que mesmo as piadinhas se limitam a provocações rasas entre os companheiros de viagem – com mais de duas horas, a produção se estende demais para o conteúdo que apresenta. Enfim chegando à aldeia, o personagem do cartógrafo é simplesmente abafado em uma miríade de monstros em computação gráfica ao estilo videogame – e olhe lá que até essa comparação já se torna injusta, sendo que até a sonoridade das criaturas transparece artificialidade -, em conspirações envolvendo o clero local e com muitos personagens reclamando seu espaço na telona. Trata-se do perfeito roteiro ambicioso, que quer abraçar o mundo, retratar situações inúmeras e enfia os pés pelas mãos.

O elenco se esforça, mas quase todos caem no caricato e parecem ter dificuldade para levar os próprios papéis a sério, no final das contas. Sem falar que nos deparamos mais uma vez com o terror que de tão explícito, mesmo voltado a um público de até 12 anos, logo torna familiar ao extremo a contemplação de monstros pipocando a todo instante em 3D. No final, uma velha sinistra é quem mais assusta.

Já a trilha sonora tem momentos orquestrados interessantes, mas é pobre em composição, com poucas variações de destaque, e apesar de se adequar bem a certas cenas e sequências logo se torna excessiva e cansativa. No geral, o resultado é um trabalho baseado em material literário reverenciado, mas que errou ao contar sua história.

Império proibido (Viy – Rússia, 2014)
Direção: Oleg Stepchenko
Roteiro: Aleksandr Karpov, Oleg Stepchenko (baseado em obra de Nikolai Gógol)
Elenco: Jason Flemyng, Andrey Smolyakov, Aleksey Chadov, Agnia Ditkovskite, Yuriy Tsurilo, Olga Zaytseva, Aleksandr Yakovlev, Igor Jijikine, Valeriy Zolotukhin, Nina Ruslanova
Duração: 127 min

LUCAS BORBA . . Gaúcho e estudante de jornalismo, vê nessa profissão a sua porta de entrada ao mundo artístico, uma de suas grandes paixões. Cinema, séries e seriados, animes e animações, literatura e até radionovelas compõe sua ânsia insaciável pelo vômito da arte. Opa, não, só por arte mesmo. Sem falar, é claro, em paixões como batata frita, panquecas (destaque para as de espinafre e de guisado, com bastante requeijão, e para as de chocolate), estrogonofe, navegação e otras cocitas más - repare que a comida ganha destaque, apesar da sua, sim, magreza.