Crítica | Império Secreto: Ômega

  • Há inevitáveis spoilers da saga Império Secreto, cuja crítica pode ser lida aqui.

Como tem sido padrão em grandes sagas, a Marvel Comics publicou um one-shot pós-Império Secreto que funciona como o epílogo de sua tão discutida história. E, também como é normal nessas publicações, o foco não está na ação, mas sim no embate psicológico entre as partes opostas, no caso os dois Steve Rogers, com momentos externos ao principal que dão pistas do porvir.

Império Secreto foi uma saga boa, mas estranha, com um começo altamente polêmico que, porém, é apagado parcialmente ao final, com Nick Spencer literalmente escolhendo o que manter intacto ao final e o que reverter completamente, em uma abordagem conveniente demais para não tornar toda a saga completamente inútil logo em seu fim. Mas, se encarada como um tipo de Elseworlds, os embates ideológicos de um lado e de outro – com cada um tomando medidas extremas para alcançar o resultado que espera, custe o que custar – a história consegue ir além de uma mera jogada de marketing descartável.

Império Secreto: Ômega vem para justamente tentar justificar a existência da saga para além das mortes e destruição mantidas por Kobik para lembrar os heróis do que poderia ter acontecido em mais larga escala, perenizando seus efeitos. E esse lembrete vem, claro, da invasão, pelo Capitão América, da cela onde seu doppelgänger, o “Capitão Hidra”, está encarcerado, aguardando julgamento após a Batalha de Washington. Trata-se de um artifício interessante para provocar o diálogo, que lembra, em parte, o monólogo de Tony Stark em Guerra Civil: Confissões, ao lado do corpo inerte de Steve. Mas, aqui, o embate é mais feroz, já que estamos falando de dois Rogers igualmente apegados às suas respectivas ideologias e cada um com excelentes argumentos para sustentar suas posições.

Afinal, como o Rogers do Mal deixa muito claro logo no começo da conversa, ele não fez nada ilegal. Tudo que ele colocou em movimento foi oriundo do legado que os próprios heróis colocaram no lugar, desde os eventos em Pleasant Hill, até a estação orbital comandada pela Capitã Marvel, passando pelo ato do Congresso que permite que o diretor da S.H.I.E.L.D. tomasse o controle dos EUA em caso de emergência. Sim, ele mesmo reconhece que ele se aproveitou dos buracos na legislação, mas, no frigir dos ovos, nada realmente foi ilegal, especialmente se considerarmos, como ele considera, que, como autoridade máxima do país, ele oficialmente perdoou a si mesmo e a seus capangas por qualquer eventual ilegalidade.

Assim como o Rogers do Bem, muita gente vai virar o rosto e fazer pouco do raciocínio acima, mas, juridicamente, o Rogers do Mal realmente está correto. Se a Marvel souber levar isso adiante sem transformar o personagem em um vilão padrão qualquer que quer dominar o mundo, a saga já terá valido a pena.

Mas o embate ideológico é fascinante e vai além dessa questão introdutória. Vemos, muito claramente, o quanto as ações do Capitão Hidra afetaram a reputação construída ao longo de quase mais de oito décadas do Capitão América. É como dizem: erigir reputação ilibada demora muito tempo e é resultado de esforço hercúleo, mas ela pode desabar de um minuto para o outro. A conclusão de que os heróis ganharam a guerra é inescapável, mas o preço foi a desestabilização do próprio conceito de herói. Quando Kobik selecionou o que manter dos eventos da saga (e de antes dela), ela manteve a lembrança daqueles milhões de pessoas que se tornaram fieis à ideologia da Hidra por realmente concordarem com ela. Não é o objeto do curto epílogo, mas imaginar as consequências disso como ervas daninhas enfraquecendo um muro de pedras ao ponto de quebrá-lo é a missão que Spencer nos dá.

Intercalando a conversa entre os Rogers, vemos alguns momentos fora desse confinamento. O primeiro deles lida com o Soldado Invernal em Madripoor tentando confirmar algo que ele tem certeza que não aconteceu ao final da saga, logo abrindo as portas para o que era mais do que óbvio que aconteceria, mas que vou deixar sem maiores comentários para não dar spoilers. O segundo aborda o fim do reinado de Emma Frost em Nova Tian, país independente mutante no oeste americano criado por Magneto na realidade que agora se desfez. O momento é breve e quase críptico, mas mostra a insatisfação de Frost com a situação. O terceiro e último momento lida com o Justiceiro tentando lidar – de sua maneira peculiar e, digamos, agressiva – com seu papel de assassino da Hidra durante Império Secreto. Como o único herói Marvel que Castle confiava era o Capitão, será interessante ver como a relação sempre complicada entre os dois será  desenvolvida.

Na arte, o destaque vai para o trabalho de Andrea Sorrentino que desenha todos os momentos que mostram os dois Rogers frente a frente. Há uma sinistra tranquilidade na arte que funciona muito bem como uma forma de acentuar o futuro sombrio que é prometido. No mais, cada história que intercala o diálogo ganha os traços de um artista diferente, com resultados razoáveis, mas burocráticos, sem realmente nada de especial.

Império Secreto: Ômega funciona pelo bom manejo do roteiro por Spencer quando lida com os dois Capitães. Há promessa de um futuro fascinante nesse aspecto, ainda que, como qualquer leitor de quadrinhos bem sabem, essas promessas raramente são cumpridas. No lado “estabelecedor de um futuro” nas narrativas paralelas, o escritor é menos hábil pela literal falta de espaço em desenvolver qualquer coisa. Mas, como epílogo, o one-shot acaba tendo um saldo positivo.

Império Secreto: Ômega (Secret Empire: Omega, EUA – 2017)
Roteiro: Nick Spencer
Arte: Andrea Sorrentino, Joe Bennett, Joe Pimentel, Joe Pimentel, Scott Hanna, Rachelle Rosenberg
Letras: Travis Lanham
Capa: Mark Brooks
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: setembro de 2017 (capa: novembro de 2017)
Editora no Brasil: Panini Comics
Data de publicação no Brasil: ainda não publicado na data da presente crítica
Páginas: 31

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.