Crítica | In a Heartbeat (2017)

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estrelas 4,5

Esteban Bravo e Beth David, estudantes da Ringling College of Art and Design começaram a produzir o seu trabalho final de graduação em janeiro de 2016. Intitulado In a Heartbeat, o curta-metragem trazia uma simples premissa: dois garotos adolescentes descobrem que gostam um do outro. O garoto ruivo, de personalidade tímida e ansiosa, esconde-se ao ver que seu crush, um garoto moreno, está se aproximando dos portões da escola. De porte mais atlético e bastante compenetrado, o garoto de belo cabelo preto perceberá que o colega de escola, apesar de tentar disfarçar atrapalhadamente, gosta dele. Acuados pela esperada reação negativa dos colegas eles se separam, envergonhados. E então vem o final.

Desde que lançaram o trailer deste curta-metragem de animação, os diretores tiveram uma recepção imensamente positiva por parte do público. A iniciativa de arrecadação de dinheiro para financiar o projeto superou todas as expectativas e o produto final sequer precisou de divulgação, pois alcançou de cara o primeiro lugar nos trends do Youtube, plataforma onde foi lançado, ganhando milhões de visualizações em poucas horas. Os diretores também não utilizaram da política de notificação da rede para o uso das cenas ou a totalidade do curta em reacts e críticas na plataforma, quer fossem positivas ou negativas. O resultado, como qualquer viral de nossa época, foi estrondoso, em muitos sentidos.

De um lado, a legião da decência (?) bufando, espumando e babando verde diante dos diretores e de quem quer que compartilhasse o vídeo. Motivos? Os de sempre, indo de “Deus fez Adão e Eva e não Adão e Ivo” até “isso está ensinando o homossexualismo (sic) para as crianças“, como se a verdadeira orientação sexual de um indivíduo fosse algo que se pudesse transmitir através da dela, ou que se pudesse escolher, curar, forçar ou mudar em alguém por expô-la a um determinado tipo de situação onde ele visse (oh, céus!) que o mundo é tão rico e tão diverso que (oh, Lord!) pessoas possuem diferentes objetos de desejo, gostam de coisas diferentes e amam de maneira diferente. Ooooh, surreal, não? Nunca antes na História da humanidade!

De outro lado ficam as pessoas que viram um ótimo trabalho de dois estudantes, um curta com uma temática interessante, bem-vinda em temos de palavras de condenação e ódio. A qualidade da animação lembra um pouco a técnica de desenho de Hotel Transilvânia, mas o início em andamento evoca os curtas de animação da Pixar. Há uma enorme suavidade no plano de fundo, com o garoto moreno lendo um livro e brincando com uma maçã (aqui vai a pergunta: onde foi parar essa maçã?). O trabalho de luz coloca uma espécie de aura no garoto, sinalizando a maneira apaixonada com que o menino ruivo o vê, algo que qualquer pessoa que já se apaixonou por alguém na época do colégio, em qualquer idade, sabe como é.

A movimentação do ruivinho no começo é excelente, mas não permanece assim até o final, tendo alguns probleminhas em termos de repetição na fase dois, quando o coração está enlouquecido querendo se aproximar do outro menino, mas nada que afete verdadeiramente o pequeno filme. Um ponto muito, muito interessante é que os diretores e roteiristas não utilizaram nenhum palavra. Apenas a música (muito bem empregada) e sons do coração, alguns suspiros do garoto ruivo e sons do ambiente são adicionados à narrativa, deixando que o espectador aprecie o que está acontecendo exatamente pelo caráter do que está acontecendo: o desenvolver de uma paixão proibida, entrando aí outra ação genial dos artistas que foi transformar frases como “siga o seu coração“, “o coração tem razões que a razão desconhece” e “ao se apaixonar, você correrá o risco de partir seu coração” em um elemento não só metafórico, mas também literal.

O coração do menino ruivo assume a dianteira do flerte, como se dissesse: “fala com ele, se aproxima dele!“. Nós entendemos que a ação ocorre no interior do garoto, mas a exteriorização disso é que adiciona o caráter cômico e fofo da trama, completando a história de amor de maneira muito interessante. Eu ainda preferia que o curta tivesse um pouquinho mais de tempo e fizesse a passagem da penúltima cena (quando o garoto ruivo tem o coração partido, ao ser envergonhado diante dos colegas da escola) para a última cena (quando o crush vai até ele, levando a outra parte do coração) um pouquinho mais orgânica e não com um salto tão grande de tempo. In a Heartbeat é a pequena história de um encontro, uma paixão de colégio tratada com bom humor, beleza estética e com um casal em cena que não se vê todo dia em curtas-metragens animados. Bravo!

In a Heartbeat (EUA, 31 de julho de 2017)
Direção: Esteban Bravo, Beth David
Roteiro: Esteban Bravo, Beth David
Elenco (vozes): Nicholas J. Ainsworth, Kelly Donohue
Duração: 4 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.