Crítica | “In Miracle Land” – The Vines

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E o The Vines está de volta! Quem se lembra deles? A banda australiana, liderada pelo malucaço vocalista e guitarrista Craig Nichols, já esteve na crista da onda. Surgidos na leva das simpáticas garage bands dos anos 2000, já chegaram a ser chamados de “salvadores do rock” ou até mesmo de “o novo Nirvana”, pela crítica “especializada” da época. Exageros à parte, fato é que, passada a fase do hype, os rapazes de Sidney não se deixaram abalar e seguiram em frente, lançando novos materiais de maneira consistente. Após o frenesi inicial da estreia de Highly Evolved, Nichols vem testando cada vez mais novas possibilidades de cores e texturas no som da banda, abraçando forte o rock psicodélico desde Winning Days, seu segundo álbum.

Agora, eles apresentam, a quem quer que possa interessar, seu sétimo trabalho de estúdio, batizado de In Miracle Land (2018). Apesar do belo nome, nada temos de grandes milagres ou reviravoltas por aqui: a banda segue empenhada em manter seu formato tradicional de composição — entregando mais um conjunto de canções com característico sabor vintage de rock sessentista.

  • Um Mundo Distante

São tempos de calmaria para os lados do The Vines. Após o fatídico ano de 2003, em que o vocalista Craig Nichols protagonizara uma série de comportamentos bizarros e erráticos no palco, a banda precisou tirar o pé do acelerador e sair um pouco de cena. Nichols fora diagnosticado como portador da chamada Síndrome de Asperger — uma rara espécie de autismo, o que levou a banda a ter de reduzir, drasticamente, seu agendamento de turnês e passar a focar-se mais nos trabalhos de estúdio. Craig sempre fora um antissocial e, agora, tinha em mãos a documentação, a prova cabal dessa situação — de sua situação. Percebendo que a pressão da fama e dos fãs iria acabar, mais cedo ou mais tarde, por enlouquecê-lo de vez, o excêntrico artista optou por abrir mão do brilhareco e dos holofotes para se recolher mais e mais em seu mundo interior – e, dali, pro estúdio, pelo bem de sua própria sanidade.

Engraçado, porém, é notar que “sanidade” é um conceito que passa longe, mas bem longe, da música do The Vines. Conforme já dito, a psicodelia vem respingando forte em todas as peças do catálogo e, em In Miracle Land, a história não é diferente. A banda se mantém embriagada em sua “viagem eterna” de ácido e não aparenta dar quaisquer sinais de que deseja, algum dia, voltar dali. A música se tornou refúgio seguro – e sagrado – para Nichols e, de fato, não faria mesmo qualquer sentido trazer as coisas do “mundo real” para lá. Não para ele.

  • O Disco e o The Vines Clássico

Já no início da obra, com a densa Broken Heart, a banda mostra a que veio e Craig desfila seus vocais em versos sombrios e viajados, para desaguar num solo melódico com dobras vocais à la David Gilmour que são de arrepiar. Nesta música – assim como em tantas outras ao longo do disco – fica a estranha sensação de que se passaram (bem) mais do que apenas os dois minutos e meios de duração registrados na playlist – mas no melhor sentido possível disso!

Na hipnótica (e maravilhosa) balada de Emerald Ivy, somos presenteados com arranjos de piano, sobre os quais Craig preenche a melodia com vocais delicados, arrastados, remetendo bastante às composições de John Lennon na fase áurea dos Beatles – leia-se Abbey Road, Rubber Soul, White Album, etc…

Em Sky Gazer, que surge na sequência como uma espécie de continuação, é interessante observar como os versos ensolarados se “derretem” no estranho refrão, invocando claramente as ideias de experimentalismo e uso de drogas psicodélicas da revolução hippie de 60. As canções, de forma geral, se por um lado bem simples e diretas em suas estruturas, compensam bastante nos timbres e texturas completamente viajados apresentados nas melodias.

E para quem não abre mão do The Vines “clássico” — se é que ainda é viável se chamar dessa maneira –, é possível se encontrar algumas peças que possam satisfazer em Miracle. Em Waiting, a banda surge animada oferecendo um rockabilly com sabor “das antigas”, relembrando a energia da época dos 2000.O mesmo ocorre em Slide Away que, contando com um clima meio punk e agressivo, também remete aos primórdios e, com seu final explosivo, ficou sensacional! Leave Me Alone e a esquisita Hate The Sound também hão de servir.

  • Viajando

Mas os pontos fortes do novo álbum certamente ficarão por conta das “viagens de ácido” da banda, não há dúvidas. Na homônima In Miracle Land, o flerte (ou, melhor dizendo, o assédio) com a psicodelia segue implacável e o Vines entrega, agora, uma espécie de “Yellow Submarine dos novos tempos”. As quebras de tempos, as guitarras levemente desafinadas e as harmonias vocais equalizadas dão todo o tom da atmosfera para malucos.

Na linda Annie Jane – esta, possivelmente, a melhor do disco -, Craig segue empenhado em brilhar nos vocais e arranjos. Harmonizando versos sombrios com o refrão grandioso, a banda remete agora ao material das bandas clássicas de folk rock do passado, como Crosby, Stills, Nash & Young, no auge de sua carreira. Nostalgia pouca é bobagem. Em que ano estamos mesmo? Com a derradeira Gone Wonder, a banda fecha o álbum numa baladinha bucólica, emotiva, com sabor de velho oeste. Craig aproveita sua última chance e “se joga” de vez no gogó, cantando o último refrão da música a plenos pulmões. Espetacular – para não dizer genial – o fechamento da obra com o grito primal, enlouquecido, do vocalista, destacado e apagado no último segundo da canção, como uma estrela cadente.

  • Nostalgia

Se, por um lado, Miracle Land não irá trazer nada de novo para o rock em geral – ou mesmo para a discografia da banda – por outro, vai nos brindar com mais uma verdadeira ode ao passado – passado, este, em que as pessoas se propunham a criar canções e álbuns com alma e coração. Uma poderosa injeção de ânimo nas veias da nova geração que, na falta de um pai ao tio para lhes aplicar a música feita pela turma da década de 60, aqui terão uma genuína aula de psicodelia — como foi feito nos trabalhos anteriores de Wicked Nature, Future Primite, Melodia, etc…

Não que o The Vines seja o grande pioneiro nessa onda de revival rock: aqui somam forças, também, outros grandes nomes da nova geração, como o My Mourning Jacket, Magic Numbers, Tame Impala, etc… De toda forma, In Miracle Land é mais um desses álbuns que chegam para provar que o tempo, nem sempre, precisa andar de forma linear. Não na música, pelo menos. Nostalgia é a palavra de ordem e o disco já entra, seguro, para a lista de melhores lançamentos do ano! Por isso, aumente e som e boa “viagem”! Parabéns aos rapazes do The Vines!

Aumenta!: Annie Jane
Diminui!: Hate The Sound

In Miracle Land
Artista: The Vines
Lançamento: 29 de Junho de 2018
País: Austrália
Gravadora: Wicked Nature
Estilo: Rock Psicodélico

VELHO CHATO . . . Tiozão do role. Fé eterna no rock. 90’s kid. Alternativasso. Birra de gente. Já foi nerd antes de ser modinha. Indie raiz. A 11 daquele disco do Radiohead. Guns’n’Roses é o caralho. MTV já foi bom. Se “Clapton é Deus”, David Gilmour é o quê?