Crítica | In the Flesh – 1ª Temporada

estrelas 4

Confesso que minha primeira reação quando ouvi falar de In the Flesh ainda em fase de produção foi um imediato “ah, mais um filme/série de zumbi?”. No entanto, em sendo uma produção da BBC e com apenas três episódios em sua primeira temporada, minha curiosidade falou mais alto, com a gota d’água sendo a coroação da série com dois prêmios BAFTA, um de melhor minissérie e outro de melhor roteirista (drama), para Dominic Mitchell, o showrunner. Era óbvio que tinha que assistir.

E ainda bem que assim o fiz.

In the Flesh é uma demonstração de como pode ser inesgotável a matéria-prima “zumbi” nas mãos de um roteirista inteligente, que sabe que a sanguinolência gratuita e sustos baratos já foram desgastados e diluídos completamente ao longo das várias décadas desde que George A. Romero criou o sub-gênero, em 1968. Aliás, Dominic Mitchell volta às raízes dos zumbis utilizados como crítica social e faz exatamente isso em sua nova série, mas trocando os cruzados desferidos por Romero contra o consumismo, distúrbios sociais e outros para algo diferente e extremamente atual: a intolerância.

Na série, o apocalipse zumbi já aconteceu, chamado de The Rising, ou, em tradução livre, O Levante. Muita gente foi morta pelos monstrengos que acordaram de uma hora para outra e saíram de suas tumbas, mas algo inusitado aconteceu: uma cura foi obtida. Agora, os ex-zumbis são, na verdade, sofredores de PDS, sigla para Partially Deceased Syndrome, ou Síndrome da Morte Parcial em um delicioso eufemismo bem na onda da irritante correção política que assola o mundo de hoje. Assim, os zumbis, digo, os sofredores de PDS, podem voltar para casa depois de um tratamento intensivo que restaura suas funções neuronais e os converte em humanos quase normais. Quase, pois sua aparência ainda é grotesca, sendo necessário o uso de lentes de contato e maquiagem no rosto todo para que eles “pareçam” normais e pelo fato de não poderem se alimentar e de terem que tomar diariamente uma dose de medicamento bem na coluna cervical.

É perante essa genial premissa que somos apesentados a Kieren “Kier” Walker (Luke Newberry), um jovem portador de PDS que está prestes a ser devolvido a seus pais, Sue e Steve (Marie Critchley e Steve Cooper) e sua irmã – que era mais nova – Jemima “Jem” Walker. Ele ainda tem pesadelos que o fazem reviver os horrores que fez, mas o garoto tem que enfrentá-los para voltar ao mundo dos “vivos”. Mas que mundo é esse, pós-Levante? Para azar de Kieren – e aqui o roteiro começa a acrescentar camadas e mais camadas de complexidade – seu vilarejo-natal, Roarton, foi o local onde surgiu a primeira unidade da HVF, Human Volunteer Force (Força Voluntária Humana), nada mais do que uma milícia organizada para combater os mortos-vivos em razão da ausência do Estado quando ele era necessário.

Desnecessário dizer, assim, que os habitantes de Roarton odeiam os zumbis e não querem saber de reintegração com os portadores de PDS, ainda considerados monstros pelos mais radicais líderes da HVF, inclusive Jem, que andam orgulhosamente com uma faixa no braço lembrando um certo partido em um país não muito depois do Canal da Mancha, há pouco mais de 75 anos… Evidente que Kieren tem que ser literalmente contrabandeado para dentro de sua casa por seus pais, passando a viver escondido.

Mas o tema intolerância continua, quando começamos, muito organicamente, a aprender sobre a “primeira vida” de Kieren e o que o levou a morrer (só os já mortos fizeram parte do Levante). Descobrimos que Kieren já era objeto do preconceito local e nunca realmente se encaixou no “modo de ser” de sua cidade. Serei especialmente críptico aqui, para não dar spoilers da temporada, já que é importante, para o completo aproveitamento do trabalho de Dominic Mitchell, um certo mistério sobre Kieren e também sobre a família do radical soldado da HVF, Bill Macy (Steve Evets), que perdeu seu filho Rick (David Walmsley) em combate no Afeganistão. Não que o mistério persista por muito tempo, mas sim porque o roteiro é cuidadosamente escrito de maneira a nos deixar dúvidas, ainda que essas dúvidas sejam dissipadas por completo ao final do terceiro episódio.

O roteiro, porém, não é sem defeitos. Talvez em razão do tempo limitado, há determinados acontecimentos na narrativa que são simplesmente jogados perante os espectadores sem maiores preparações. O principal deles se refere ao quanto o vilarejo de Roarton tem de portadores de PDS. Somos levados a crer que há só Kieren, somente para descobrir que estamos enganados. No entanto, tal descoberta não funciona organicamente e nem mesmo faz sentido considerando tudo o que aprendemos logo antes. O mesmo vale para a presença de Amy Dyer (Emily Bevan), interessante personagem que aparece e some do nada, com a única função de dar a Kieren alguém com quem conversar. No entanto, a inserção de menções – e uma demonstração – de uma droga ilegal para os portadores de PDS e de um profeta dos zumbis que prega a liberdade de eles serem como a natureza determinou é bem feita e certamente gerará frutos em temporadas posteriores.

Luke Newberry, com sua atuação que mistura inocência com tristeza e angústia, nos dá um presente absolutamente cativante. Apesar dos acertos da premissa e de muita coisa do roteiro, ele é, na verdade, a cola que faz a série funcionar. Acreditamos imediatamente em quem ele é, em quem ele foi e podemos sentir seu sofrimento. E olha que Newberry sempre trabalha debaixo de muita maquiagem, seja como zumbi, seja como zumbi se disfarçando de humano “normal”. Mesmo assim, suas expressões faciais e corporais passam, sem palavras, aquilo que o roteiro exige e nós, espectadores, compramos muito facilmente sua confusão, seu desespero, seu desnorteamento. Fascinante o que esse jovem ator consegue fazer aqui.

Se zumbis não apetecem seu paladar cinematográfico, então In the Flesh talvez seja uma excelente entrada. É uma série que não depende de monstros e de sustos para funcionar e foca no drama humano e na forte crítica social que faz. Uma grata e deliciosa surpresa!

In the Flesh (Idem, Reino Unido – 2013)
Showrunner: Dominic Mitchell
Direção: Jonny Campbell
Roteiro: Dominic Mitchell
Elenco: Luke Newberry, Harriet Cains, Marie Critchley, Steve Cooper, Emily Bevan, Stephen Thompson, Steve Evets, Karen Henthorn, David Walmsley
Duração: 180 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.