Crítica | “In The Zone” – Britney Spears

estrelas 5,0

In The Zone foi um estrondoso sucesso comercial e midiático. Se o álbum anterior, Britney, apresentou a artista em sua transição de diva pop adolescente para cantora adulta, In The Zone tratou de reforçar esta imagem, delineando o material tendo como foco, torná-la a deusa do sexo e da dança no âmbito da cultura pop produzida por mulheres na década de 2000.

Com 49 minutos e 52 segundos, o quarto álbum de estúdio de Britney Spears investiu num som pop com instrumentação guiada por guitarras, sintetizadores, cordas e elementos da música oriental. Com vocais distantes e bastante processados, In The Zone contou com a produção de Brian and Josh, Jimmy Harry, Trixster, Mark Taylor, Moby, R. Kelly, etc.

As faixas são em sua maioria, inspiradas por gêneros urbanos. Há presença do estilo house, material que tem como base uma bateria eletrônica acompanhada por uma linha de baixo, além dos sintetizadores e sequenciadores. Os dois últimos itens permitem a criação de duas linhas melódicas e, por sua vez, o uso de camadas, frases diversas e ostinatos, motivos musicais persistentes que se repetem numa mesma altura. O trip hop também se faz presente, lento, com ressonâncias do hip hop e instrumentos convencionais que conferem o caráter acústico a algumas faixas.

Me Against The Music, Toxic, Everytime e Outrageous foram os quatro singles do álbum, promovido como o anterior, em programas televisivos e premiações especiais ao redor do planeta. Com dito pela artista, “este é definitivamente pessoal”. E foi, bastante, pois surgiu como prenúncio da turbulenta fase seguinte, conhecida como o “blackout” de Britney Spears.

A faixa de abertura, Me Against The Music, foi apresentada para Madonna nos bastidores do famoso VMA 2003, premiação que teve como abertura uma das melhores performances do pop contemporâneo, com a rainha a cantar, dançar e beijar na boca, as suas sucessoras Britney Spears e Christina Aguilera. Interessada no material, Madonna decidiu colaborar, afinal, associar-se a Britney num período de inovações no pop também pareceu algo viável para a sua carreira, pois é como se tivesse dialogando com os novos públicos.

Produzida por Magnet e Trixster, Me Against The Music deriva do dance e do hip hop e traz em seu conjunto, sons de guitarras e de funk, numa melodia atraente e sexy, com letra que entoa sobre os prazeres de se soltar numa pista de dança. Dirigido por Paul Hunter, o videoclipe é visualmente deslumbrante, mesmo que a letra da canção seja medíocre. Quem se importa? É Britney Spears e desde o primeiro álbum sabemos que lirismo não é o forte do seu trabalho, tampouco alcance vocal magnífico.

O segundo single do álbum é Toxic, a campeã e eterna faixa da cantora, considerada a sua assinatura. Hino pop composto e produzido pela dupla sueca Bloodshy e Avant, com escrita adicional de Cathy Dennis e Henrick Jonback. O material tinha sido pensado para a australiana Kylie Minogue, mas ficou para Britney, sortuda mais uma vez, pois os seus dois hinos foram pensados inicialmente para artistas diferentes (I’m Slave 4 U seria de Janet Jackson).

Com presença forte do eletropop e da música bhangra, ritmo oriundo do Paquistão, a melhor faixa de Britney Spears traz sintetizadores, baterias, guitarras, vocais sussurrantes e cordas agudas que nos remete ao som de Bollywood. Com 143 batidas por minutos, a faixa fala sobre um amante viciante, tendo para isso, o acompanhamento da música surf, estilo conhecido pela dominação das guitarras ao longo do arranjo.

Com videoclipe dirigido em nova parceria com Joseph Kahn, Toxic inspirou-se em Blade Runner, Alias e alguns filmes de John Woo. A faixa antecipou o terceiro singles, a romântica xaropada Everytime, talvez a faixa menos “In The Zone” do álbum. O público, por sua vez, gosta bastante de baladas românticas em meio à efusiva liberação sexual de Britney Spears em faixas sensuais e provocantes, por isso, a canção surge como uma espécie de equilíbrio.

Criada ao lado de Amet Artani, sua vocal de apoio, Everytime foi produzida por Guy Sigsworth e apresenta vocais sussurrantes de Britney clamando perdão por ter magoado um ex-namorado.  Com 110 batidas por minuto, a faixa foi considerada por um crítico do The Village Voice como uma versão atual de Time After Time, de Cindy Lauper. O videoclipe, dirigido por David LaChapelle, nos mostra uma artista lutando contra os tablóides e pode ser considerado como premonição da fase seguinte.

Outrageous foi o ultimo singles, com vida curta inclusive, pois faria parte da trilha sonora de Mulher-Gato, com Halle Berry, mas foi retirada de última hora, tendo ainda problemas na execução de seu videoclipe, pois durante as filmagens, Britney se machucou e precisou passar por uma cirurgia artroscópica. Escrita e produzida por R. Kelly, a faixa R&B possui toques do hip hop com letra sobre os prazeres do materialismo e da diversão sem culpa.

Machucada durante a realização do videoclipe, Britney teve que cancelar o material, bem como a The Onyx Hotel Tour, adentrando num intervalo que intermediou a crise que se estabeleceria logo em seguida. Considerada por alguns como uma canção de encantamento de serpentes, as 105 batidas por minuto de Outrageous é uma ode ao exotismo, com direito a gemidos e sussurros.

Foi assim que Britney Spears apareceu em In The Zone: sexy e adulta, num álbum atmosférico e intimista, melhor sonoridade de toda a sua carreira. Dentre os outros momentos interessantes, temos I Got That (Boom Boom), balada dançante com participação da dupla Ying Yang Twins; a orgástica Breathe On Me, faixa sensual de influência hip hop que parece um áudio de whatsapp de Britney Spears para seu parceiro sexual; Early Mornin descreve Britney pelas ruas de Nova Iorque em busca de um “cara”.

Em Showdow, Britney fala sobre brigar e fazer as pazes com relações carnais; Touch of My Hand é uma canção que fala sobre masturbação e tem elementos da música oriental; The Hook Up, uma das faixas que é impossível “ficar parado”, traz Britney flertando com o reggae e trechos com sotaque patois jamaicano (falado pelos integrantes da diáspora jamaicana e possui particularidades fonológicas) que influência na condução da letra.

A romântica Shadow, irmã mais interessante que o single Everytime, Britney fala sobre lembranças de um namorado após a sua partida; a deliciosa Brave New Girl é um pastiche de Madonna e Blondie e fala sobre perda de inibições; The Answer é uma baladinha sobre o amante ser o responsável pela satisfação de todos os seus desejos; e ainda há o remix Me Against The Music, faixa que teve a melodia original removida em prol da inclusão de elementos da música punjab, oriunda de aspectos considerados folclóricos de determinada região da Índia.

Lançado pela Jive Records, o álbum foi a maior inovação da sua carreira, pois mesmo que tenha cantado sobre “ser uma escrava para alguém”, liricamente Britney tocou em temas como amor, sexo, dança, sexo ao telefone, strip-tease e até mesmo masturbação, algo bem diferente da garota que havia “feito isso novamente” ou se sentia “superprotegida”.

Aumenta: Toxic
Diminui: Everytime

In The Zone 
Artista: Britney Spears.
País: Estados Unidos.
Lançamento: 13 de novembro de 2003.
Gravadora: Jive Records.
Artista: Pop, R&B, trip hopDance-pop e teen pop.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.