Crítica | Incal Final

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estrelas 3

Após o afastamento de Moebius da série Incal, logo depois do lançamento de Depois do Incal: O Novo Sonho (2000), Jodorowsky decidiu interromper esta fase de consequências em um novo Universo — ou reescrita de realidade –, após a estupenda mudança no Cosmos ocorrida em A Quintessência – Planeta Difool (1988). Moebius já tinha realizado uma série de desenhos para um segundo álbum de Depois do Incal, desenhos estes que oito anos depois foram retomados pelo mexicano José Ladrönn, parceiro de Jodorowsky em uma série que terminaria aquilo que Moebius não conseguira terminar.

Chamado de Incal Final, este derradeiro capítulo da saga das forças que disputam o comando do Universo foi publicado na França entre 2008 e 2014, em três álbuns: Os Quatro John Difool (2008), Luz de Garra (2011) e Gorgo, o Pútrido (2014). Há uma torrente de referências à saga principal do Incal, especialmente aos álbuns O Que Está Embaixo (1983), O Que Está em Cima (1985) e A Quintessência – A Galáxia Que Sonha (1988). Bem diferente de outros pontos da série, o Incal Final é uma produção unicamente para quem tenha lido a jornada completa, tanto os livros da primeira criação, quanto as sequências Antes do Incal e Depois do Incal. Há também algumas relações com os spin-offs do Jodoverse, mas isto, boa parte dos leitores só deverá perceber depois. Em um primeiro momento, a nossa impressão a respeito do que acontece com a Terra-2014 aqui é, para dizer o mínimo, anticlimática. E claro, isto é bem simples de entender por quê.

Toda a primeira parte do livro Os Quatro John Difool é uma semi-repetição de Depois do Incal e em nada isto é uma boa coisa. Enquanto na obra de 2000 tínhamos a novidade do bio-vírus, a estranheza de ver corpos ganhando pústulas e apodrecendo em questão de segundos, uma tomada de poder pela “praga da clonagem” e o princípio de uma Revolução; no primeiro tomo do Incal Final, somos entregues a uma situação de “jogo das diferenças e semelhanças”, onde toda a novela já vista na ótima arte de Moebius é redesenhada por José Ladrönn e, só aqui e ali, recebe retoques do roteiro, alguns nada positivos, como no caso de Elohim, cuja mudança tornou o primeiro contato com Difool mais ordinário e bem menos impactante — é inquestionável que uma nave senciente que vive mudando de formato é muitíssimo mais interessante que uma simples nave-inseto. Só do meio para frente é que passamos a olhar a história através de outro ângulo e que Alejandro Jodorowsky começa a abrir possibilidades para a expansão do vírus pelo Universo, quase compensado o medíocre início da obra.

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A impressão que dá é que esta foi, desde sempre, a intenção do Incal: ganhar uma estrela do tipo Yin-Yang. Uma estrela macho-fêmea capaz de preservar a vida no Universo, após um longo processo de “purificação”.

Da tríade, a melhor parte é o segundo tomo, Luz de Garra. Há uma retomada de personagens do livro Antes do Incal e situações de introdução de Universo que nos lembra bastante O Incal Negro e O Incal Luminoso. Os papeis sociais, imutáveis e necessários para o “grande plano do Universo” — que havia aparecido nas entrelinhas de Depois do Incal — são didaticamente explicados e realocados aqui, o que nos faz questionar, especialmente pela forma como tudo termina, se não era este o plano do Incal desde o início, ou seja, ganhar para si mais uma estrela (formada por dois corpos humanos em comunhão), e que a segunda versão do Universo foi, para elas, uma espécie de “ritual de passagem”. Esta impressão se fortalece à medida que cada instituição do passado ganha um novo papel na história, quase como se esquecêssemos seu passado ou aceitássemos suas novas condições de ajuda, como a Endoguarda Púrpura, os Tecnos (especialmente o Tecno-Papa), o Prez e O/A Imperadotriz.

Bastante esvaziado do fulgor que mostrara no começo, Incal Final não é de todo uma decepção. Seus livros trazem um bom uso de símbolos e o Volume 2 é realmente muito bom. Mas os eventos com os Psico-Ratos nos esgotos da Terra-2014 e a passagem com Gorgo, que estranhamente se volta contra Luz de Garra, estuprando-a, não são fáceis de digerir. Isto, é claro, acaba tendo um peso definitivo na interpretação do final. Enquanto em Planeta Difool a transfiguração nos pareceu um ótimo fim de Universo e uma interessante recriação de outro, aqui, tudo soou apenas um fim maquiavélico, onde a vitória veio cheia de contratos questionáveis, chantagens e mal aproveitamento de alguns personagens. Depois de 16 volumes lidos (6 do Incal; 6 de Antes do Incal; 1 de Depois do Incal e 3 de Incal Final) é claro que a saga tem um significado grande para o público e, a bem da verdade, ela não termina de maneira ruim. Mas considerando as muitas promessas não cumpridas e o seu glorioso passado, a classificação de “apenas boa” chega a ser uma afronta. Não era o que esperávamos — nem o que foi prometido — para uma saga cósmica tão icônica como esta.

Incal Final – Série Completa em 3 volumes (Final Incal) — França, 2008 – 2014
Roteiro: Alejandro Jodorowsky
Arte: José Ladrönn, Moebius
Cores: Protobunker Studio, José Omar Ladrönn, Sebastián Facio, Tatto Caballero
Letras: Moscow Eye
48 a 68 páginas

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.