Crítica | Incêndios

estrelas 5

Imagine a seguinte situação: sua mãe, que sempre tratou você e sua irmã gêmea de maneira distante, acaba de morrer. Ela trabalhava há anos como secretária para um notário canadense, cuja esposa se afeiçoou a vocês e os trata como seus próprios filhos. O notário chama você e sua irmã para conversar e revela que sua mãe deixou um testamento que determina como ela deve ser enterrada e deixa três envelopes, um para você entregar para seu pai e outro para sua irmã entregar para o outro irmão de vocês. O terceiro envelope é para vocês dois abrirem somente quando os dois outros tiverem sido entregues.

Agora imaginem que vocês tenham certeza que o pai de vocês já morreu e que vocês nunca ouviram falar de um terceiro irmão. Qual seria sua reação?

É assim que começa o magnífico Incêndios, filme canadense de 2010 falado em francês que concorreu ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2011. Jeanne (Mélissa Désourmeaux-Poulin) e Simon Marwan (Maxim Gaudette) são irmãos gêmeos que recebem esse testamento da mãe e reagem imediatamente de maneiras diversas. Jeanne quer seguir os desejos de sua mãe e parte para o Líbano para investigar o paradeiro de seu pai morto e de seu irmão misterioso. Simon permanece no Canadá, querendo basicamente fechar essa porta em sua vida, enterrar sua mãe da maneira convencional apesar de ela ter expressamente pedido para ser enterrada em túmulo sem lápide, nua e de costas para o mundo.

Em sua superfície, Incêndios é quase um filme de detetive, mas só mesmo em sua superfície. Nawal Marwan (Lubna Azabal), a mãe dos jovens, era uma mulher reservada, com um passado misterioso que se confunde fortemente com a história conturbada de seu próprio país, o Líbano, bem no início da década de 70. O envio dos filhos em uma missão de aparência detetivesca tem como objetivo mostrar a eles essa vida, fazê-los se acharem e se descobrirem, voltando às suas raízes.

Nessa investigação, nós, espectadores, somos brindados com dois pontos de vista, o dos jovens hoje em dia e o de Marwan desde quando era uma jovem cristã no Líbano que se apaixonou – e engravidou – de um muçulmano, desgraçando a si mesma e a toda família. Somos mantidos no presente e remetidos ao passado em um bela montagem que em nenhum momento parece forçada.

A trama é cheia de revelações que são feitas de maneira integrada à história que está sendo contada e na medida em que vemos a guerra civil instalar-se no Líbano. Em determinado momento, percebemos que Marwan é uma espécie de “resumo” do inferno por que passou – e ainda passa, na verdade – seu país. Por isso, podemos facilmente perdoar os atalhos que o diretor e roteirista Denis Villeneuve (diretor do também excelente Os Suspeitos), baseado na peça homônima de Wajdi Mouawad, toma em determinados pontos, como o grande número de coincidências que impulsionam a história e a inclusão do notário Jean Lebel (Rémy Girard) e sua conveniente rede de contatos pelo mundo para apressar a resolução da narrativa.

Lubna Azabal, atriz belga, revela uma dedicação ao seu complicado papel que ela, mesmo não estando presente na trama durante todo o tempo, sustenta o filme juntamente com o trabalho do diretor. É brilhante – e atordoante – ver a transformação de seu personagem ao longo das décadas.

E o final do filme é desesperador e doloroso, em um momento daqueles de dar nó no coração. Acho que foi a melhor revelação de um segredo que já vi em uma obra cinematográfica, ajudada pela intensa atuação de Maxim Gaudette e, principalmente, de Mélissa Désourmeaux-Poulin. Fiquei tão desorientado no cinema que, instintivamente, procurei por um “controle remoto” inexistente para ver a cena novamente. Inacreditável.

Mas o filme não é o seu final. Não estou falando aqui de tramas cuidadosamente construídas apenas para a grande revelação final como nos filmes de M. Night Shyamalan. Incêndios é um primor de roteiro, de direção e de fotografia e o momento final é apenas a cereja no bolo, uma espécie de coroação da complexidade do Líbano, onde mudanças de aliança, mortes, perdas e guerra foram constantes durante muitas décadas.

Incêndios é um filme imperdível, ponto final.

Publicado originalmente em 22 de abril de 2014.

Incêndios (Incendies) — Canadá/França, 2010
Direção: Denis Villeneuve
Roteiro: Denis Villeneuve, Valérie Beaugrand-Champagne (consultora), baseado em peça de Wajdi Mouawad
Elenco: Mélissa Désourmeaux-Poulin, Lubna Azabal, Maxim Gaudette, Rémy Girard
Duração: 139 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.