Crítica | Independence Day (1996)

estrelas 3,5

Roland Emmerich é, sem dúvida alguma, o Mestre dos Filmes-Catástrofe. Em seu currículo, o diretor não só tem Independence Day, seu primeiro mergulho no sub-gênero, mas também Godzilla, O Dia Depois de Amanhã, e 2012, todos marcados por destruição em massa – global na maioria das vezes – e uma completa ausência de roteiro ou de atuações de qualidade, ausências essas que abrem caminho para o espetáculo visual em computação gráfica com diversas sequências memoráveis e, sim, divertidas, normalmente gerando filmes que são carinhosamente engavetados na mente do espectador na prateleira mental dos guilty pleasures.

E talvez não haja um filme-catástrofe recente tão marcante e despreocupado como seu primeiro, Independence Day, um gigantesco guilty pleasure que literalmente encapsula o espírito de todos aqueles filmes semelhantes dos anos 70 como a série Aeroporto, Terremoto, Inferno na Torre, O Destino do Poseidon e O Dia Seguinte (este da década de 80). Aliás, mais do que encapsular o espírito destes seus “antepassados”, Independence Day de certa forma aproveita-se quase que integralmente da fórmula clássica, que normalmente aborda núcleos familiares ou de amigos antes da tragédia em uma construção narrativa lenta e as consequências depois que o apocalipse se instala. E não há nada de errado nisso, na verdade, pois Emmerich empresta sua capacidade de criar épicos – Stargate foi seu filme imediatamente anterior, que já demonstrava sua capacidade de lidar bem com a ficção científica – e cria uma película que, se o espectador souber assistir com o ânimo correto e perdoando diversos (mesmo!) problemas, será diversão garantida, mas uma diversão que se localiza bem acima dos filmes de ação completamente descerebrados de hoje em dia e que podem ser resumidos em apenas uma simbólica franquia: Transformers.

A história de Independence Day é mais do que simples. Uma frota alienígena aproxima-se da Terra e começa a destruir cidades estratégicas sem dar muita satisfação aos reles humanos que lá habitam. Apenas uma pessoa, o cientista David Levinson (Jeff Goldblum com aquele jeito blasé irresistível dele), percebe de antemão que um ataque é iminente, ao interceptar transmissões que ele interpreta como contagem regressiva. Ele consegue, por intermédio de sua ex-esposa (casamentos encerrados, mas que deixam aquela fagulha da antiga paixão sempre é algo padrão em filmes deste gênero), levar o assunto ao Presidente dos EUA Thomas J. Whitmore (Bill Pullman, outro ator irresistível) que, convencido, inicia evacuações de cidades onde gigantescas naves parecem ter estacionado. Quando a tragédia começa – e lá se vão a Casa Branca, o Empire State Building e assim por diante – a narrativa parte para as ações americanas em defesa, focando no piloto da Força Aérea Steven Hiller (Will Smith, sempre simpático e egresso do sucesso em Os Bad Boys), que não só tem sua própria vida particular esmiuçada no começo, como consegue derrubar uma nave alienígena e capturar um E.T. Outras vidas são abordadas ao longo da narrativa e a proverbial convergência final em um contra-ataque que envolve a infecção da nave-mãe alienígena com um vírus de computador (nada como uma interface universal, não é mesmo?). Sacrifícios são feitos, mortes heroicas acontecem, discursos encorajadores são ditos e, mais uma vez, os EUA salvam o dia!

Se deixarmos o forte e inevitável nacionalismo de lado (faríamos o mesmo se a produção brasileira tentasse fazer esse tipo de filme, não é mesmo ou será que diríamos que os grandes heróis são, por exemplo, os argentinos?) e se estivermos dispostos a aceitar atalhos do roteiro como a necessidade dos super-poderosos E.T.s de mandar naves pilotadas para fazer dog fights com caças da Terra e pontos fracos absurdamente fracos, o espetáculo visual assombrará. O uso de CGI, aqui, é exemplar, com ótimos e convincentes efeitos das imensas naves espaciais, começando com a aterradora sombra projetada sobre a lua na sequência inicial e funcionando mesmo durante as batalhas no céu e no espaço. E o que mostra a eficiência da computação gráfica é mesmo a constatação de que ela sobreviveu bem mesmo depois de todo esse tempo, mesmo depois do festival ininterrupto de filmes-cartuns que se valem só do CGI e esquecem todo o resto.

Talvez aí, também, o valor de Emmerich seja sensível. Sim, o filme é raso e de certa forma vazio de conteúdo – o tema “união das nações” é bonito, mas se espremermos, não sai nada -, mas é inegável que o diretor e seu parceiro de roteiro Dean Devlin conseguem criar personagens cativantes, que carregam o filme nas costas. O jeito avoado padrão de Goldblum e seu Levinson, a força clichê de Pullman e seu Whitmore e a arrogância de Smith e seu Hiller funcionam muito bem, especialmente considerando que, ao seu redor, há outros atores de peso trazendo suas próprias e bem-vidas contribuições, o melhor deles talvez sendo o veterano Randy Quaid como o maluquinho e heroico Russell Casse.

As tomadas em plano geral fotografadas por Karl Walter Lindenlaub, que Emmerich trouxe de Stargate, funcionam muito bem para transmitir a magnitude dos ataques. A montagem de David Brenner (O Dia Depois de Amanhã, 2012 e, mais recentemente, O Homem de Aço) também merece comenda por não sucumbir ao desnorteamento do espectador. Usando muito bem a fotografia mais ampla de Lindenlaub, ele conecta as sequências de maneira a tornar a pancadaria – mesmo no complicado ataque aéreo final – lógica sem que ela perca a energia.

Independence Day é um belo exemplar do filme-catástrofe, quase uma volta ao passado setentista, que parece ter sido a década que “criou” o gênero. Esta obra de Emmerich ficará na lembrança do espectador nem que seja por seu exagero e por suas absurdas liberdades tecnológicas. Um verdadeiro guilty pleasure, daqueles que deixam um sorriso gostoso no rosto depois da projeção.

Independence Day (Idem, EUA – 1996)
Direção: Roland Emmerich
Roteiro: Dean Devlin, Roland Emmerich
Elenco: Will Smith, Bill Pullman, Jeff Goldblum, Mary McDonnell, Judd Hirsch, Robert Loggia, Randy Quaid, Margaret Colin, Vivica A. Fox, James Rebhorn, Harvey Fierstein, Adam Baldwin, Brent Spiner
Duração: 145 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.