Crítica | Indiana Jones e a Última Cruzada

– Essas pessoas estão tentando nos matar!
– Eu sei, pai!
– Essa é uma nova experiência para mim.
– Acontece o tempo todo comigo.

Depois de dirigir Caçadores da Arca Perdida, o filme definitivo de aventura, Steven Spielberg mergulhou nas sombras para a continuação, Indiana Jones e o Templo da Perdição, três anos depois. Como então fechar aquela que acabaria sendo uma das melhores trilogias cinematográficas da história? A resposta foi simples e perfeita: voltando à estrutura original, inclusive com os mesmos vilões, mas acrescentando e completando a mitologia do icônico personagem-título.

Para fazer isso, o roteiro de Jeffrey Boam, baseado em história de George Lucas e do holandês Menno Meyjes, nos brinda com um prólogo de “origem” em 1912, com o personagem vivido pelo saudoso River Phoenix na aventura que determinaria o futuro de Henry Jones Jr. na arqueologia: a tentativa de resgate do crucifixo de Coronado das mãos de um proto-Indiana Jones a mando de um homem conhecido apenas como Chapéu Panamá. Ali, naqueles poucos minutos iniciais, Spielberg estabelece à perfeição o personagem que conhecemos em uma aventura condensada e auto-contida (mas que só acabaria mesmo em 1938) digna das melhores sequências de abertura dos filmes de James Bond que aprendemos sobre seus valores morais (“isso pertence a um museu!”), sua fobia de cobras, sua cicatriz no queixo, sua preferência por chicotes, sua inspiração para o uso do chapéu fedora e jaqueta de couro e, claro, sua resiliência e teimosia naturais e, de forma inédita mas essencial para o filme, sua relação complicada com seu pai, que vemos apenas de costas neste momento.

Só essa abertura mereceria uma análise em separado e, mais do que isso, gera uma vontade tremenda de assistir um filme inteiramente dedicado a esse período na vida de Indy, algo que de certa forma foi acomodado por George Lucas em sua corajosa série educativa de alto orçamento O Jovem Indiana Jones, de 1992 e 1993. Mas o roteiro oferece mais do que o já brilhante prólogo, transportando-nos para 1938, com mais uma missão de Indiana Jones atrás de uma relíquia bíblica mítica, o Santo Graal, perseguido pelos nazistas em sua incessante caçada por “poder divino”. É aqui que Henry Jones Sr., o pai do protagonista, é definitivamente costurado em sua mitologia como o grande especialista no Santo Graal que, não demora, descobrimos que desaparecera misteriosamente depois de iniciar o trabalho de busca pela relíquia sob a supervisão do milionário Walter Donovan (Julian Glover).

Sem titubear, Indy parte para Veneza juntamente com Marcus Brody (Denholm Elliott, que viria a falecer três anos depois) e, a partir daí, começa a montanha-russa aventuresca, com direito a uma seita que protege o Graal há milênios, nazistas, ratos e perseguição de lancha e, depois, a volta de Sallah (John Rhys-Davies). Inteligentemente, o roteiro faz de tudo para “atrasar” a entrada triunfal de Sean Connery como o pai de Indy, não porque a escalação do ator fosse segredo, pois não era, mas sim porque, com isso, constrói-se ansiedade por parte do espectador para ver exatamente como será esse pareamento épico. E, quando ele vem, não poderia ser melhor, já que a caracterização de Sean Connery como um severo e metódico “pesquisador de biblioteca” em oposição à caracterização de Harrison Ford como um arqueólogo “de campo”, cria uma imediata e genuína química que é pontilhada por divertidíssimos momentos cômicos que, assim como o prólogo, o espectador simplesmente não quer que acabem.

O reencontro de pai e filho reenergiza o filme, ainda que até esse momento ele tenha passado como se fossem 15 minutos. Mas, sem dúvida, é na interação de Connery com Ford que Spielberg realmente transforma Indiana Jones e a Última Cruzada no filme que ele é: um belíssimo encerramento (até 2008 pelo menos) da história de um dos melhores personagens de aventura da Sétima Arte. Do fogo no castelo, passando pela descoberta que os dois haviam dormido com a mesma mulher (a bela Elsa, vivida por Alison Doody), pela viagem de moto e depois de dirigível e biplano, o fenomenal momento de “autógrafo de Hitler” em plena Berlim nazista de queima de livros e, claro, na ambiciosa perseguição de tanque em pleno deserto (uma evidente referência à perseguição a cavalo e carro em Caçadores), não há um só momento que sequer resvale no cansativo ou derivativo, em uma sucessão impressionante de momentos antológicos que, como em todo Indiana Jones, educam e divertem em proporções iguais.

E tudo, claro, deságua na sequência do Templo do Graal em que, para salvar a vida do pai, Indy precisa passar pelas armadilhas “divinas” para, finalmente, achar o Cálice Sagrado, em mais um momento inesquecível que espelha o primeiro filme da trilogia, com direito até a derretimento de vilão. É particularmente interessante e refrescante notar como praticamente toda a trama gira em torno do relacionamento de pai e filho, sendo que a figura do pai só é introduzida aqui, mas de forma tão completa que parece que Henry Jones Sr. sempre esteve presente nos filmes anteriores. Essa estrutura, que inclui o conceito de “origem” do personagem, é a chave para transformar A Última Cruzada em um filme que, como os demais, é independente e relevante em si mesmo, comprovando que continuações não necessariamente precisam de finais abertos para funcionarem.

A Última Cruzada fecha uma trilogia quase imbatível na Sétima Arte, com cada filme sendo tão prazeroso quanto o outro, ao ponto de ser difícil até mesmo colocar o dedo no melhor. Temos um Indy que define o personagem em Caçadores, outro que revela seu lado sombrio em Templo da Perdição e, finalmente, um Indiana Jones com um fascinante passado em Última Cruzada. Não se pode querer muito mais do que isso, não é mesmo?

– Júnior, dê-me sua outra mão! Eu não consigo segurar!
– Eu consigo. Eu posso quase alcançá-lo, pai…
– Indiana. Indiana… deixe para lá.

Indiana Jones e a Última Cruzada (Indiana Jones and the Last Crusade, EUA – 1989)
Direção: Steven Spielberg
Roteiro: Jeffrey Boam (baseado em história de George Lucas e Menno Meyjes e personagens de George Lucas e Philip Kaufman)
Elenco: Harrison Ford, Sean Connery, Denholm Elliott, Alison Doody, John Rhys-Davies, Julian Glover, River Phoenix, Michael Byrne, Kevork Malikyan, Robert Eddison, Richard Young, Alexei Sayle, Alex Hyde-White, Paul Maxwell, Isla Blair
Duração: 127 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.