Crítica | Indiana Jones e o Templo da Perdição

Indiana Jones e o Templo da Perdição é normalmente considerado o pior da trilogia original do personagem, ainda que raramente taxado como ruim. Essa rotulagem é compreensível, pois, sem dúvida alguma, trata-se do mais diferente dos três filmes, com uma pegada mais sombria e uma estrutura narrativa que se mantém inspirada nos pulps dos anos 30 e 40, mas que adiciona camadas “bondianas” à obra. E, talvez justamente por ser o diferente no meio de iguais, a obra consiga surpreender e, pelo menos para mim, manter-se em pé de igualdade com as outras.

Mal comparando, Templo da Perdição está para Os Caçadores da Arca Perdida assim como O Império Contra-Ataca está para Uma Nova Esperança e, convenhamos, seguir o sucesso do filme original com apenas mais do mesmo é um desperdício de talento e de possibilidades cinematográficas. Seus criadores, George Lucas e Steven Spielberg, estavam passando por momentos pessoais ruins, cada um lidando com separações e isso, segundo eles, contribuiu para o tom mais sombrio que permeia todo o filme que, sem dúvida, é mais carregado de momentos violentos e de temáticas duras, notadamente a escravidão infantil, o que acaba resultando em uma película única que mantém a aventura frenética do primeiro filme e adiciona esses aspectos menos, digamos, saborosos, mas que são muito bem inseridos no roteiro, fluindo facilmente.

Sem dúvida alguma, o Indiana Jones que vemos no filme ainda é quase o mesmo Indiana Jones de Caçadores, mesmo considerando que, tecnicamente, Templo da Perdição se passe um ano antes, em 1935. O personagem é o mesmo caçador de relíquias charmoso e malandro que não se furta de se meter nas maiores enrascadas para conseguir o que quer. No entanto, fui cuidadoso ao usar o “quase” mais acima. Aqui, não vemos o Indiana Jones professoral, de moral ilibada e completamente dedicado à busca altruísta de tesouros. O enfoque dado ao personagem, que Harrison Ford vive muito bem mesmo com as modificações impostas pelo roteiro, adicionando uma camada levemente mais obsessiva e, talvez, sinistra, que deságua no “Indiana Jones do mal” que vemos mais para a frente.

A tentativa bem-sucedida de fazer o mesmo, mas de maneira diferente, já fica evidente com a abertura do filme que apresenta os personagens em uma espécie de musical de revista em Xangai, ao som de Anything Goes cantada e dançada por Willie Scott (Kate Capshaw) e que serve primeiro de pano de fundo para a negociação de uma pedra preciosa a base de balas e veneno entre Indiana Jones e Lao Che (Roy Chiao), um chefe do crime local e, depois, é praticamente inserido na narrativa com o envolvimento direto de Scott e uma sequência lindamente coreografada em que toda a boate passa a ser o cenário para um confronto mortal. Toda a sequência inicial, desconexa da ação principal, e que ainda envolve uma perseguição pelas ruas estreitas da cidade com o hilário sidekick Short Round (Jonathan Ke Quan) é, também, o primeiro sinal da inspiração em filmes de James Bond na continuação.

Depois dos memoráveis momentos iniciais que não permite um segundo sequer de respiro, Indiana Jones e seus dois companheiros são jogados em uma triste história em andamento, com um vilarejo extremamente empobrecido na Índia cujas crianças foram levadas de lá, assim como uma pedra cerimonial “sivalinga”. Vendo em Indiana Jones um emissário de Shiva para salvá-los, o povoado coloca nos ombros do herói a responsabilidade de trazer suas crianças e a pedra de volta, o que leva o herói para o Palácio Pankot, sendo recebidos regiamente por Chattar Lal (Roshan Seth) no mais inesquecível banquete da Sétima Arte. Novamente, a inspiração bondiana se faz presente com o palácio suntuoso escondendo um submundo místico perverso comandado por Mola Ram (Amrish Puri), um xamã do mal exagerado e maior do que a vida que arranca o coração de seus sacrifícios humanos com a mão.

O roteiro, escrito por Willard Huyck e Gloria Katz (ambos de Loucuras de Verão), é um triunfo de concatenação de sequências de ação intercaladas por ótimos momentos cômicos, normalmente envolvendo Short Round e Willie Scott, seja no banquete em que cérebro de macaco servido nos respectivos crânios é uma iguaria sem par, seja no momento de “tensão sexual” entre Scott e Jones, seja na nojenta sequência dos insetos. Cada sequência cômica que, diria, no geral, são mais cômicas que em Caçadores, serve de costura para os momentos de pura tensão e ação, como na descoberta da câmara de sacrifícios pelos três, o controle de Indiana por Mola Ram, a pancadaria incessante para a libertação dos escravos e, claro, a incomparável sequência dos carrinhos de mina, até hoje inspiração para incontáveis outros filmes.

Não há descanso, não há momentos lentos, não há pausa para que o espectador possa por um segundo pensar no que está vendo. Ao mesmo tempo, não há confusão, não há poluição visual e nem exageros explosivos. A montagem de Michael Kahn (parceiro de longa data de Spielberg e responsável por todos os Indiana Jones) é ritmada, primeiro ao som da música de abertura e, depois, tendo a trilha sonora de John Williams pontuando os grandes momentos. A fotografia do saudoso Douglas Slocombe (responsável pelos três filmes clássicos da franquia) é outro ponto alto, com a perfeita compreensão do mestre sobre o tom que o roteiro imprime ao filme. Sem trabalhar uma paleta de cores necessariamente sombria, ele usa tons fortes de vermelho para pontilhar sua obra e dar uma aparência de inferno ao “templo da perdição” subterrâneo. Na sequência da ponte de corda, as tomadas em planos gerais generosos emprestam ao mesmo tempo grandiosidade e tensão na sinuca de bico em que Indiana se mete, deixando-nos verdadeiramente na dúvida de como o herói escapará daquilo.

Como já mencionei, Harrison Ford, dono do par de personagens de aventura mais memoráveis dos anos 80, é o perfeito aventureiro e ele deixa um lado sombrio vazar para sua interpretação com muita naturalidade. Kate Capshaw, vivendo a arquetípica loira histérica, é um achado, uma espécie de resposta à estoica e forte Marion, do filme anterior. Irritante em muitos momentos, mas usando isso como arma para seus alívios cômicos (é de chorar de rir a cara de nojo dela subindo no elefante e tentando perfumá-lo), sua participação é icônica e um perfeito contraponto para o panorama mais sombrio da história. Jonathan Ke Quan não fica atrás nessa pegada divertida, fazendo um sidekick que é tão bom, mas tão bom em sua irritação, em seu amor por Indiana, em seu heroísmo moleque, que é uma pena que o ator não tenha sido utilizado em Indiana Jones e a Última Cruzada e que ele tenha sumido depois de Os Goonies, no ano seguinte.

Indiana Jones e o Templo da Perdição é uma continuação que choca por não ser aquilo que esperamos, mas que, por isso mesmo, torna-se uma pérola aventuresca que não deixa nada a dever tanto ao seu antecessor quanto ao seu sucessor. Spielberg podia estar passando por maus bocados pessoais na época, mas isso só fez bem ao que ele triunfalmente colocou nas telonas.

Indiana Jones e o Templo da Perdição (Indiana Jones and the Temple of Doom, EUA – 1984)
Direção: Steven Spielberg
Roteiro: Willard Huyck, Gloria Katz
Elenco: Harrison Ford, Kate Capshaw, Jonathan Ke Quan,  Amrish Puri, Roshan Seth, Philip Stone, Roy Chiao, David Yip, Ric Young, Chua Kah Joo
Duração: 118 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.