Crítica | Indomável Sonhadora

Mesmo antes de abordar a tragédia como catalisadora de um universo fantástico em Indomável Sonhadora, o diretor Behn Zeitlin já havia abordado tais ideias no curta Glory at Sea, e chega para desenvolver esta mesma temática num longa metragem que além de suas já conquistadas indicações ao Oscar, saiu vencedor do Grande Prêmio do Júri em Sundance e do Câmera d’Or em Cannes. Mas não foi apenas Zeitlin que conseguiu chamar a atenção da crítica logo em seu primeiro longa. Assim como ele, a estrela do filme, a pequena Quvenzhané Wallis vêm conquistando os corações dos que se entregam a esta fábula que transforma uma realidade dura e impactante numa experiência repleta de simbolismos e alegorias.

Indomável Sonhadora é a atração independente entre os indicados para o Oscar 2013, isso porque a produção foi financiada por uma produtora criada pelo próprio Zeitlin para manter as produções independentes de Nova Orleans, e narra a história de Hushpuppy (Wallis), uma garota que vive com seu pai adoentado numa barragem de Louisiana que é atingida pela passagem do furacão Katrina. Apesar do relacionamento difícil com o pai, a garota se une a ele e a outros moradores do local que sobreviveram ao desastre, e que se negam a ir para os centros de ajuda comunitária nas cidades.

A sinopse é apenas uma pincelada do que realmente é Indomável Sonhadora, uma vez que o roteiro de autoria do próprio Zeitlin, baseado na peça de Lucy Alibar, aposta numa narrativa fabulesca que se contrapõe às imagens sujas e cruas construídas pelas câmeras do diretor, o que transforma esta história de sobrevivência e esperança numa experiência complexa, crua e que não têm medo de mergulhar dentro de sua proposta fantasiosa, porém também realista.

A “Banheira”, nome dado a ilha onde se passa o filme, é inspirada numa ilha real chamada Isle de Jean Charles, que a cada dia tem algum espaço seu tomado pela água. E assim como retratado no filme, os habitantes teimosos se recusam a abandonar o loca, mesmo diante de sua precariedade e vulnerabilidade diante da força da água. Aproveitando o gancho desta realidade pouco conhecida, Zeitlin permite que sua pequena protagonista imagine um universo próprio numa espécie de escapismo para sua difícil situação, ao mesmo em que uma crítica social é lapidada sobre tais questões, atingindo uma sociedade onde a intolerância e o senso de condenar os menos favoráveis se tornou algo recorrente, como que numa forma de criar padrões e divisões que possam separá-los daqueles que encontram apoio apenas na própria fé e esperança. Mesmo com todo o senso fantasioso da obra, Zeitlin não pincela nada e transmite sua mensagem com contundência.

E para transmitir tamanha denúncia, o roteiro se apoia na inocência e imaginação da pequena Hushpuppy, que inclusive toma uma fábula narrada por sua professora envolvendo enormes javalis como um mote para a permanência de sua força de vontade de sobreviver dentro de uma realidade quase impossível de se encarar de frente. Tanto que jamais sabemos sobre o tempo em que a história se passa, como se tais questões fossem um problema universal, e não algo isolado dentro daquela comunidade.

E ao se apoiar na construção de um universo paralelo feito pela personagem de Wallis, Indomável Sonhadora encontra seu maior trunfo. A garota é a alma do filme, atingindo um nível de atuação incomum e quase surreal para sua idade. Não é apenas seu carisma que é imenso, mas também a naturalidade com que a atriz mirim nos convence e nos envolve no interior de seu universo imaginário. Os próprios intérpretes dos moradores da “Banheira” são residentes de uma das regiões mais volúveis dos EUA, e graças ao bom trabalho de condução feito em cima do elenco, o filme sai ganhando em credibilidade.

Zeitlin perde a mão em certas passagens que exalam um certo maniqueísmo e excessos de dramaticidade, mas num conjunto geral, cria uma respeitável e admirável alegoria sobre uma história de amor, devoção e esperança situada num caleidoscópio de imagens sujas e desconcertantes. Tudo irá depender do espectador embarcar ou não na ideia do diretor. E para aqueles que conseguirem, o resultado pode ser bastante satisfatório e emocionante.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Cinéfilo ainda em construção, mas que já enxerga na Sétima Arte algo além de apenas imagens e som. Amante de Kubrick e Hitchcock e viciado em música indie, cético e teimoso, mas sempre aberto para novas experiências e estranhas amizades.