Crítica | Inferno na Torre

É muito normal que a primeira pergunta que nos venha à cabeça quando reassistimos filmes muitos anos após seu lançamento – especialmente os cheio de efeitos especiais, sejam em computação gráfica, sejam práticos – é se ele resistiu ao “teste do tempo”. Ainda que não haja uma definição mínima que seja para o que exatamente é o teste do tempo, ele acaba sendo algo intuitivo, mas também muito subjetivo para cada espectador. Seja como for, o clássico Inferno na Torre, filme-desastre que fazia dobradinha com O Destino do Poseidon, de dois anos antes, na televisão aberta brasileira, é uma obra que definitivamente passou as décadas incólume, sem envelhecer mal sequer por um segundo.

Apesar de sua duração avantajada, que o coloca próximo das três horas de projeção (e, portanto, sujeito aos mais diversos cortes na televisão), o filme não esmorece em quase momento algum e seus efeitos práticos são realmente impressionantes, notadamente, claro, a retratação do altíssimo arranha-céu – completamente fictício – no coração de São Francisco, reunindo “pedaços” de outros prédios pré-existentes, um cenário de quatro ou cinco andares construído no antigo estúdio da Fox de Malibu e o uso preciso de composição de cenas na película em si, com miniaturas e pinturas matte sobrepostas às tomadas normalmente aéreas, constantemente em plano abertíssimo, mas por vezes em plongée e contra-plongée de tirar o fôlego, da cidade. Além disso, não há como deixar de citar não só o design de produção para os cenários internos do gigante de 135 andares e, lógico, a destruição de tudo com fogo, explosões e água em uma produção que elevou o patamar desse tipo de filme a níveis nunca antes alcançados nesse nível de detalhes e que lhe valeu oito indicações ao Oscar, inclusive de Melhor Filme, levando as estatuetas nas categorias de Melhor Fotografia, Melhor Montagem e Melhor Canção Original.

A qualidade do que vemos ser lambido por labaredas em cena é tão grande e tão bem trabalhado pela direção de John Guillermin (responsável pelo passável remake setentista de King Kong e sua tenebrosa continuação oitentista), pela a fotografia quente de Fred J. Koenekamp e Joseph F. Biroc e pela montagem precisa de Harold F. e Carl Kress que até seu elenco estelar fica eclipsado, quase que transformando cada um em não mais do que extras glorificados. Sim, certamente que minha analogia é exagerada, mas ela dá o tom para o foco do filme que está no desastre em si e nos esforços valorosos para salvar o maior número possível de pessoas e não na construção dos personagens, como, por exemplo, vemos em Titanic, de James Cameron, de certa forma uma obra que consegue equilibrar melhor as duas pontas. Mesmo com rostos famosíssimos, o coletivo, aqui, é bem mais importante do que o indivíduo ao ponto de Steve McQueen e Paul Newman, duas estrelas no auge de suas carreiras, terem papeis praticamente fungíveis, com o primeiro sendo o bombeiro destemido e o segundo o arquiteto destemido, mas as escalações poderiam ser invertidas sem maiores prejuízos, ainda que, baseando-se no perfil de cada um deles, a escolha feita para a produção tenha sido perfeita.

E essa questão não para na dupla principal, já que William Holden (veteraníssimo que queria aparecer primeiro nos créditos, tendo sua pretensão negada demonstrando a frieza de Hollywood com seus astros), Faye Dunaway (que no mesmo ano brilhara em Chinatown), Fred Astaire (no crepúsculo de sua carreira e que, ironicamente, em um papel não-dançante, concorreria – sem levar – ao seu único Oscar), Richard Chamberlain (que já tinha e viria a consolidar uma notável carreira na televisão), Robert Wagner (o eterno galã canastrão que teve sua vida marcada negativamente pelas misteriosas circunstâncias de sua ilustre primeira esposa, Natalie Wood) e outros ainda não vivem exatamente personagens, mas sim representações de personagens. Seguindo a ordem que usei acima, temos o empresário milionário que só vê o problema tarde demais, a bela mulher que não é mais do que o par romântico do personagem de Newman, o simpático senhor vigarista de bom coração, o vilão egoísta e o amante à moda antiga (do tipo que ainda manda flores…), todos eles construídos no mínimo necessário para que eles funcionem dentro da estrutura do roteiro, mas que são tão genéricos que é difícil lembrar sequer de seus nomes ao final da projeção. Notem bem, porém: não considero isso um aspecto negativo, por mais que meu comentário dê a entender desta forma. Ao contrário até, diria que o texto de Stirling Silliphant (No Calor da Noite e O Destino do Poseidon), que amalgamou os dois romances em que a fita é baseada, é muito hábil em nos entregar personagens que funcionam como os componentes de uma orquestra, irreconhecíveis individualmente, mas perfeitamente afinados e fazendo com que o todo flua sem falhas.

Há apenas duas quebras de ritmo ao longo de toda a duração da obra, o que por si só é um feito notável. A primeira é bem orquestrada pelo diretor, que não perde tempo em efetivamente começar o fogo no dia da inauguração do mais alto prédio do mundo em São Francisco, graças à economia no cabeamento elétrico, para a revolta do arquiteto de Newman. O ritmo, diria, é quase alucinante ao longo de quase 2/3 da duração. Quando então o arquiteto finalmente alcança o último andar de seu prédio, onde a grande festa está ocorrendo, a narrativa freia e o tabuleiro é rearrumado, estabelecendo uma nova dinâmica, desta vez mais coesa, já que a ação, até então, é trabalhada de maneira estanque, em núcleos quase que completamente separados. A partir da chegada de Newman ao salão Promenade, então, o filme “recomeça” de outra forma, agora colocando seu personagem mais próximo do destemido – e estoico – bombeiro de McQueen. Essa é a parada estratégia necessária para o filme que, porém, talvez se alongue um pouco demais, reafirmando e restabelecendo conflitos anteriores que não exatamente trazem novos elementos à narrativa.

Mais para frente, quando quase toda a desgraça aconteceu, um grupo final fica preso no último andar completamente sem saída e um plano desesperado é colocado em andamento. É aqui que outra “pausa” acontece, e é ela que torna mais sensível a quebra de ritmo, com uma decupagem repleta de longos planos-sequência sem diálogos que, apesar de adicionar suspense com alguma competência, traz mais claramente morosidade para a obra. Não é, vejam bem, algo de revirar os olhos ou de dar vontade de ir embora, longe disso, pois o filme é impressionantemente “desesperador” praticamente por todo o tempo, mas é, sem dúvida alguma, uma prova de que ele poderia facilmente ter 20 a 25 minutos a menos, o que teria beneficiado em muito o ritmo.

Com uma trilha sonora orquestrada composta pelo brilhante John Williams (que o levaria à sua sexta indicação ao Oscar na categoria) que é inteligentemente sincronizada por Guillermin de forma a otimizar o suspense e tensão sem ditar os sentimentos do espectador, Inferno na Torre é, sem dúvida, um filme superlativo que é mais do que a soma de sua partes. O elenco composto só de grandes nomes é um grande chamariz de marketing para uma produção caríssima e arriscada (dividida entre dois estúdios pela primeira vez na história, graças aos esforços do produtor Irwin Allen, um mago da televisão na época e que havia inaugurado a “moda” de filmes-desastre com O Destino do Poseidon), mas o brilho mesmo, aquilo que separa este filme dos “demais”, fica por conta da milimetricamente calculada sucessão de destruições de encher os olhos, com efeitos práticos e de câmera que, se não são 100% perfeitos todo o tempo sob os olhares mal acostumados de hoje em dia, chegam muito próximo disso. Belíssimos e intrincados cenários vêm abaixo sem dó nem piedade com um grau de detalhamento e de verossimilhança que não só resistiu ao teste do tempo como estabeleceu – e ainda estabelece – o parâmetro pelo qual esse tipo de espetáculo cinematográfico deve ser sempre comparado.

Inferno na Torre (The Towering Inferno, EUA – 1974)
Direção: John Guillermin
Roteiro: Stirling Silliphant (baseado em romances de Richard Martin Stern, Thomas N. Scortia, Frank M. Robinson)
Elenco: Steve McQueen, Paul Newman, William Holden, Faye Dunaway, Fred Astaire, Susan Blakely, Richard Chamberlain, Jennifer Jones, O.J. Simpson, Robert Vaughn, Robert Wagner, Susan Flannery, Sheila Allen, Norman Burton, Jack Collins
Duração: 165 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.