Crítica | Infiltrado na Klan

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Um filme de gênero somado a alterações históricas para sustentar a sua segunda ala, nesse caso, a comédia (acontece em 10 a cada 10 filmes baseados em alguma coisa real, certo?), forte marca em território na luta contra o racismo, questões sobre Black Power, Ku Klux Klan, Ron Stallworth, David Duke e governo Trump. Este é Infiltrado na Klan, o novo filme de Spike Lee. Antes da crítica, porém, vale aqui uma nota curiosa. Um certo “espanto de mudança de ano e de personagens” surgiu, quando do lançamento da película nos Estados Unidos (10 de agosto de 2018), o que gerou, como era de se esperar, uma “resposta conclamando os verdadeiros fatos e dados” vinda de David Duke e de podcasts e manifestações em redes sociais de uma parte bastante específica do público. Tudo isso para um filme de Spike Lee que começa como “Dis joint is based upon some fo’ real, fo’ real shit“.

O resultado entre fato, ficção e relações históricas aqui — nada de novo, em se tratando do diretor, correto? — funciona muito bem e diverte, nos colocando para rir e ao mesmo tempo pensar em situações de crítica e autocrítica das comunidades aí representadas. O diretor moveu os fatos para a era dos blaxploitation (existem ótimas referências a ShaftSuper FlyCoffy: Em Busca da Vingança e Cleópatra Jones) e com isso teve a liberdade de pegar um período da luta do movimento negro, da exposição da supremacia branca e costurar essas questões com os Estados Unidos de 2018, onde, acrescido das redes sociais e com um conjunto bastante pessoal/ideológico do líder do país, guarda um número assustador de semelhanças.

Ao falar desse tema, o próprio filme joga com a carta da real mudança das coisas. Os atores sociais e as ordens estatais podem agir sob certas regras, mas paira uma certa ideia de convivência que, enraizada ao longo de anos, simplesmente não se encaixa na sociedade contemporânea e, por isso mesmo, sustenta o coro de que é preciso “voltar ao que era antes“. Baseado no livro de Ron Stallworth, o roteiro olha de maneira bufona para uma nova célula da Klan e, paralelamente, acompanha a entrada de Ron (muitíssimo bem interpretado por John David Washington) no Departamento de Polícia, bloco do filme de onde sairá bons frutos cômicos e um pouco do suspense para a fita, capitaneado por Adam Driver, excelente no papel. É aí também que as conversas sobre questões de raça são expostas, assim como o pensamento geral da massa fanática a respeito do tema. Já o mesmo pensamento, só que em discurso formal e puramente teórico, ouvimos da boca de Duke, vivido por um ótimo Topher Grace, com frases e construção de discurso que certamente a maioria dos brasileiros irão pensar “onde foi que eu já ouvi isso antes?“.

Nos figurinos setentistas e em uma fotografia dividida entre a dessaturação no ambiente de trabalho, aumento de tons marrons, verdes e vermelhos e uma excelente alteração de espaços de ação (a delegacia, a casa, o bar, os locais de discurso, a rua; todos com motivos de trilha sonora bem escolhidos) temos a sensação de um mergulho histórico que é assumidamente cômico, mas que usa desse veículo para expor e criticar situações. A própria postura de algumas linhas do pensamento Black Power são colocadas em questionamento pelo diretor, da mesma forma que os ideias de nação e preservação de uma cultura europeia a que muitos brancos se identificam também vêm para a mesa. E todo o grande ponto do longa está aí.

A identificação do indivíduo dentro de sua realidade. Nas entrelinhas, Spike Lee chama a atenção para aquele discurso que despreza e inutiliza qualquer busca por igualdade ou representação sob a tutela de que “essas minorias estão querendo tomar conta de tudo, fazer sumir o que veio antes e se colocar inteiramente no lugar, segmentar a humanidade em milhões de pedaços“. Como se a humanidade já não estivesse assim, mas até então, a oportunidade de fala para os que sentiam a diferença na pele não era dada. Hoje é. E sim, o filme também fala sobre isso, em certa medida.

Devido a questão política, a ótima relação com reais manifestações de grupos supremacistas brancos nos EUA em 2017 e a forma como o diretor se coloca diante do governo Trump, o filme pode incomodar muita gente, o que é esperado e também comum que aconteça. Todavia, Infiltrado na Klan tem muito mais do que essa essa camada política. Sua comédia, seu texto inteligente, as excelentes atuações, a direção que sabe expandir horizontes, fazer o elenco atravessar a tela com uma impressionante fluidez e a própria história central da investigação são momentos impagáveis da fita. Uma comédia política, histórica e real para incomodar ou falar pela voz de muita gente. Todo o poder para todos os povos!

Infiltrado na Klan (BlacKkKlansman) — EUA, 2018
Direção: Spike Lee
Roteiro: Spike Lee, Charlie Wachtel, David Rabinowitz, Kevin Willmott (baseado na obra de Ron Stallworth)
Elenco: Alec Baldwin, John David Washington, Isiah Whitlock Jr., Robert John Burke, Brian Tarantina, Arthur J. Nascarella, Ken Garito, Frederick Weller, Adam Driver, Michael Buscemi, Laura Harrier, Damaris Lewis, Ato Blankson-Wood, Corey Hawkins, Dared Wright
Duração: 135 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.