Crítica | “Innuendo” – Queen

estrelas 4,5

Innuendo é o 14º e penúltimo álbum de estúdio do Queen. Lançado em fevereiro de 1991, o disco foi o último a ter Freddie Mercury em todas as etapas, da produção ao lançamento, e teve uma das gravações mais difíceis para a banda (março de 1989 a novembro de 1990), pois o grupo já sabia que Mercury estava com AIDS e eram claras sua enorme perda de peso e extremo cansaço durante as gravações. Ainda assim, Mercury se recursou a parar um só momento, pedindo para que seus amigos topassem voltar ao estúdio logo após o a finalização de The Miracle, mantendo um ritmo de gravação bastante acelerado para alguém que estava em suas condições de saúde.

O curioso disso tudo é que mesmo debilitado, Mercury conseguiu performances esplêndidas em Innuendo, com larga extensão vocal e vívida veia criativa, algo também percebido em seus companheiros de banda. Para quem ouvia o disco, não havia a impressão de que se tratava de uma “obra de despedida”, apesar da melancolia em letras que analisavam a vida, as perdas e os ganhos de alguém no decorrer dos anos. O estilo geral na concepção das faixas estava próximo de dois dos melhores álbuns da banda — A Night at the Opera e A Day at the Races — e exceto por uma canção, a intragável Delilah, que Mercury fez para sua gata, o disco é uma verdadeira maravilha. Apesar de ainda haver Made in Heaven (1995), para mim, este é o verdadeiro canto do cisne do Queen.

Mantendo o acordo de créditos para o “Queen” em todas as faixas como havia sido em The Miracle, a banda entrou no estúdio sabendo que sua formação em breve sofreria uma baixa insubstituível. Em respeito a Mercury, todos os três mentiam abertamente para a imprensa, jamais revelando nada que dissesse respeito ao estado de saúde do amigo. Mercury também justificou esse silêncio porque não queria que o disco fosse vendido por caridade das pessoas em relação a ele. O que o músico queria era compor e cantar, deixar o maior repertório pronto que pudesse. Após terminarem as gravações de Innuendo, a banda ainda voltou ao estúdio para gravar os clipes e, segundo palavras de Mercury, realizar alguns “Lados B”, sessões das quais saíram Mother Love, A Winter’s Tale e You Don’t Fool Me todas colocadas em Made in Heaven.

Nove meses depois do lançamento de Innuendo, em 24 de novembro de 1991, Freddie Mercury viria a falecer em sua casa em Kensington, Londres, cerca de 24h depois de ter pedido para o empresário do Queen, Jim Beach, comunicar à imprensa e aos fãs a sua doença, até então não divulgada oficialmente. A música, o rock e o mundo perdiam um grande artista.

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Innuendo é a faixa de abertura do álbum e uma das maiores canções do Queen. A produção veio inicialmente em um ensaio, quando Taylor, Deacon e May tocavam despreocupadamente no estúdio, imitando uma batida à la Bolero, de Maurice Ravel. Mercury descansava no andar de cima e ouvia o ensaio, criando alguns elementos melódicos e harmônicos, além de parte da letra, cuja maior parte seria escrita por Roger Taylor em homenagem a Kashmir, do Led Zeppelin. De alguma forma, a banda via Innuendo como uma irmã mais nova de Bohemian Rhapsody, que apesar dos elementos de uma “outra geração”, não negava o DNA musical que deu origem à irmã mais velha.

Agora reparem na construção de Innuendo e lembrem-se de uma coisa: trata-se de uma música do início da década de 1990 que chegou ao 1º lugar nas paradas britânicas. Tudo bem que o Queen já tinha feito história ao colocar no top 3, tanto no Reino Unido quando nos Estados Unidos músicas um pouco… incomuns, mas Innuendo é um caso ainda mais interessante. Em forma, mudanças métricas, estilo e instrumentalização (a faixa tem rock clássico, coro operístico, flamenco e interlúdios de diversas nuances de gêneros) a obra foi uma grande surpresa para o público e de forma muito curiosa se tornou a mais pedida nas rádios britânicas, mesmo ultrapassando o tempo “permitido” de um hit, com seus 6’30”.

I’m Going Slightly Mad teve mais ou menos a origem “acidental” de Innuendo, mas desta vez apenas com Freddie Mercury, que teve a ideia de compor uma canção sobre a loucura (a letra, porém, pode ser interpretada como um reflexo do estado emocional do cantor). É possível ver aqui o último fôlego das faixas musichall de Mercury, com uma concepção cíclica de pequenas repetições de um sintetizador em uma estranhíssima (no sentido positivo) tônica em arpejos + ótimos overdubs de piano e guitarra. Por ser uma canção com Mercury em tons mais graves (creio que a única canção do Queen em que ele está a maior parte do tempo em tons graves/menores), o ouvinte percebe a flexibilidade da produção em termos de adição de instrumentos, volume e uso de coro e solo ao longo da faixa, tudo em uma estrutura densa, um pouco macabra, que mostra o isolamento do eu-lírico em suas alucinações (prestem atenção na letra e no clipe) e as consequências disso no final de tudo.

A terceira faixa do álbum, Headlong, foi composta por Brian May para o seu primeiro álbum solo, Back to the Light (1992) — embora ele já houvesse encabeçado um projeto musical com 3 faixas, em 1983, chamado Star Fleet Project — e acabou se tornando uma música do Queen após May ouvir Mercury cantar parte da letra e ter gostado muito da canção na voz do amigo. Uma série de modificações foram feitas em relação ao conceito inicial da música e ela acabou entrando para Innuendo, mostrando-se uma das canções com mais chaves de repetição de todo o catálogo do Queen, o que certamente a coloca como uma perfeita “música de arena”. A pulsante preparação com a bateria ao início, o piano e o baixo eletrizantes, a guitarra em pleno destaque e as insinuações de tons menores para o coro em alguns pontos da faixa nos engaja do início ao fim, já que esse formato cíclico extremamente rico sempre foi um dos grandes trunfos do Queen, quase um convite ao show.

Curiosamente, I Can’t Live with You, uma outra faixa composta para o álbum solo de May, foi “roubada” pelo Queen, desta vez porque Mercury, Taylor e Deacon gostaram tanto, que pediram a May que a considerasse para Innuendo, e assim foi. A obra traz uma letra amorosa que mais parece com a forma lírica de Deacon compor, e assim como Headlong, tem um forte peso na guitarra, que passou por um arranjo de ligação entre as estrofes, respeitando os momentos mais dóceis da letra e tornando impactante o início de cada verso, a cada declaração. Uma boa jogada musical para dar conta de uma mensagem poética em uma relação complexa.

Don’t Try So Hard é um dos pontos altos dos vocais de Mercury em uma complexa concepção melódica, partindo de falsettos para agudos límpidos justamente em uma faixa que dizia muito sobre ele. A escolha por uma estrutura em constante renovo — camadas de instrumentos, coro e mudança estilística ou rítmica se alternam entre as estrofes — colocam-na como uma das belezas semi-operísticas da banda, de fato pensada como uma ária de momentos ternos e com inesquecível vocalização. O destaque também vai para os ataques de Taylor na bateria, precisos e geniais.

Ride the Wild Wind traz os ingredientes básicos das canções compostas por Roger Taylor: formato de balada, plácido ritmo harmônico, tonalidades ambivalentes e forte presença de sintetizadores ou organizações instrumentais que sugerem ambientes próximos à ficção científica. Com bateria em loop, sem harmonias da guitarra e parca harmonia vocal, a faixa é uma das “menos interessantes” do disco, apesar de sua intensidade e concepção quase física — creio que se não houvesse colocação de um eco (em onomatopeias) ao final dos versos do refrão, a faixa se beneficiaria bastante. Mas logo na sequência o estado das coisas mudam, porque temos All God’s People, uma das melhores obras do Queen, com nuances de Barcelona (disco de Mercury com Montserrat Caballé) e coescrita por Mike Moran. Com forte arranjo vocal — está entre os melhores da discografia do grupo –, baseado nos corais gospel, a faixa tem uma mensagem pacifista e um final reflexivo e instrumental que não agrada todo mundo, mas que tem um objetivo: tornar inacabado o processo descrito na letra, como uma mensagem em construção eterna.

These Are the Days of Our Lives é a nostálgica balada pop de Taylor (mais uma!) e uma canção bastante simples, que curiosamente tem uma bela harmonia vocal e uma percussão bastante simpáticas (inclusive com uma conga eletrônica), cuja letra novamente parece estar diretamente ligada à vida de Mercury. A mesma sensação pode ser sentida na basicamente instrumental Bijou, com gloriosa participação de May com sua Red Special e Mercury acompanhado por cordas eletrônicas, cantando sobre a eternidade do relacionamento entre duas pessoas. Para mim, é uma daquelas faixas simples e delicadas que apesar da grande beleza, trazem uma tristeza intrínseca capaz de tocar o coração.

The Hitman é um maravilhoso hard rock com Mercury novamente dando um show de resistência nos vocais (e olha que ainda não chegamos em The Show Must Go On!), coro e pequenos acompanhamentos mais metálicos (overdub de Brian May, que se saiu muito bem). A faixa tem uma vitalidade que parece ter sido tirada diretamente de Sheer Heart Attack, tanto em sua concepção instrumental, com guitarra e bateria potentes, seguidos de um baixo em pulsante marcação, quanto em sua mensagem e finalização.

O álbum se encerra com o último hino do Queen, The Show Must Go On, que começou com um exercício de Taylor e Deacon, marcando toda a base da faixa, e depois foi aprimorado por Taylor, Mercury e pelo produtor David Richards. A canção começa com um padrão harmônico tocado em um sintetizador que em menor volume se repete ao longo dos versos e também no refrão, entregando à faixa uma aparência de urgência e austeridade. Com a entrada do baixo e da bateria dando o caminho para os versos, a voz de Mercury aparece forte, não desesperada ou sentimental demais, mas em um tom que nos faz compreender muito bem a mensagem da canção (e os versos seguem essa repetição tonal com adições ou modificações instrumentais sempre no terceiro verso das estrofes), explodindo juntamente com um coro — alcance tão alto que May inicialmente duvidou que Mercury, a essa altura do campeonato, conseguisse fazer — seguindo de uma ponte baseada no Cânone em Ré Maior, de Johann Pachelbel e finalizada com inteligentes arpejos da guitarra e bateria suaves, sintetizadas e “travadas” no último momento, como se fosse um disco arranhado que queria, mas não podia continuar tocando.

Innuendo é um álbum tão eclético quanto The Miracle, porém, mais profundo e com um número bem maior de elementos da era clássica do Queen, tanto no rock quanto na tendência operística. Apesar de não ser o último disco da banda, este é o seu último exercício completamente coeso e com esforços de todos os quatro do começo ao fim, cujo produto final é tocante, de muitas, muitas formas.

B-Side

O disco teve duas faixas lançadas como B-Side. A primeira foi Lost Opportunity, que acompanhou I’m Going Slightly Mad. Composta e cantada por Brian May, a canção traz a guitarra como grande atrativo, especialmente na introdução e no solo entre as estrofes. A segunda, lançada como B-Side de Headlong, foi Mad the Swine, composta e cantada por Mercury. Diferente de Lost Opportunity, esta é uma canção antiga da banda, gravada em 1972.

Aumenta!: The Show Must Go On
Diminui!: Delilah
Minhas canções favoritas do álbum: The Show Must Go On  e  Innuendo    

Innuendo
Artista: Queen
País: Reino Unido
Lançamento: 5 de fevereiro de 1991
Gravadora: Parlophone (UK) e Capitol, Hollywood (EUA)
Estilo: Rock, Hard Rock, Rock Progressivo

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.