Crítica | Inspetor Faustão e o Mallandro: A Missão (Primeira e Única)

Se você quer saber a nota que críticos chatos que “se não tinham nada de bom para falar, nem deveriam escrever críticas” ou que “só sabem falar mal mas não sabem fazer melhor“, ou que “não sabem que cinema é só pra rir e ponto final“, dão para este filme, veja abaixo.

estrelas 0

Mas se você quer saber a nota que “críticos de verdade” (bem na linha da Falácia do Verdadeiro Escocês), os BR-BR, os HUE-HUE, os que sabem realmente ver filmes “apenas para se divertir e ponto final” dão para este filme, então, veja abaixo.

estrelas 5,0

Vamos começar isso aqui de uma maneira diferente. Com algumas perguntas.

Como é que um filme da Xuxa Produções, com Faustão e Sergio Mallandro no elenco; com a voz de Paulo César Pereio interpretando Deus (sim, Ele mesmo!) e o grande hino da MPB intitulado O RAP DO OVO, pode dar errado? Como é que um filme com as frases

Você destruiu o meu ovo! Eu vou almoçar aonde?

Até a menina dos meus olhos faz regime.

Meu amigo… boca-livre e pênalti só perde quem é trouxa.

…pode ser um filme ruim? E por último, como é que um filme onde um ovo de codorna do tamanho de um ovo de galinha é o principal assunto do roteiro pode ser desprezado e esquecido pela cinematografia nacional?

Pois bem, é aí que chegamos à obra-prima injustiçada da nossa Sétima Arte, o grande, o inigualável, o soberbo Inspetor Faustão e o Mallandro: A Missão (Primeira e Única), lançado em 1991. O filme basicamente pegou dois apresentadores de programas famosos da Rede Globo na época (um com com Domingão do Faustão, que estreara em 1989, e outro com Show do Mallandro, que estreara em 1990) e colocou em um filme absolutamente sem sentido, onde Deus — que tecnicamente poderia fazer tudo — escolhe Fausto Silva, de maneira completamente aleatória, como Inspetor (que acaba tendo que trabalhar para a polícia) para “curar a cidade” dos maus tratos aos animais, conclusão que Deus chegou após ver muitas pessoas fazendo tráfico desses bichinhos em uma feira livre qualquer.

O roteiro, escrito por Nelson Nadotti — que depois faria carreira em novelas — é basicamente uma coletânea de pequenos curtas-metragens, com Faustão dando uma de Deadpool brasileiro, quebrando a quarta parede o tempo todo e fazendo observações inúteis e questionavelmente hilárias sobre um assunto qualquer. No todo, o filme fala sobre tráfico e maus tratos de animais silvestres, mas a essência da obra (se é que podemos chamar assim) é sobre um famoso casal de codornas que botam ovos gigantes para o seu tamanho (ovos totalmente brancos, por sinal!) e que são vendidas para um americano cujo maior sonho é se relacionar com uma mulher brasileira. Viciado em afrodisíacos, Tom Cru (Cláudio Mamberti) fará de tudo para conseguir as codornas e talvez assim alcançar o seu sonho — falaremos mais dele adiante.

“Eu querrrro a ova da codorno”

Tom Cru

Como não podia deixar de ser, em qualquer segmento que tenha o Faustão em cena, ele tenta ser engraçado. No entanto, o tipo de comédia que o protagonista pratica aqui é comparável àquelas piadas toscas que todo mundo já ouviu de um tio chato, em algum almoço de domingo. Além da já citada “boca-livre e pênalti só perde quem é trouxa“, há também outras falas estranhamente marcantes, como

A situação está tão feia que estamos usando papel higiênico dos dois lados.

“Alô galera do cinema, alô gatinhas! Quem tiver afim, entra nessa. Todo mundo se beijando! Só o amor constrói!”

“Daqui a pouco a gente se encontra no quarto. Deixa a porta aberta que eu cumprirei o meu dever profissional.”

Isso sem contar o nome dos cachorros do inspetor, Salário Mínimo e Inflação, que também rende cenas memoráveis, como a que Faustinho (sobrinho comilão do Faustão) usa sua flauta mágica para atrair os cachorros (sim, isso mesmo que você leu) e tenta atrair o Salário Mínimo, mas não consegue, resultando na máximo do tio: “a Inflação sempre vem, mas o Salário Mínimo insiste em ficar longe“. Quanto a Sérgio Mallandro, sua interpretação se resume a fazer aquilo que lhe marcou a carreira, soltar alguns “gluglu iéié” aleatórios e falar com a voz mais bizarra possível, além de querer ser cantor e dançarino quando o filme é focado em fazer Faustão triná-lo para ser policial. Pois é. Nada faz sentido.

Não bastasse o tipo não-engraçado de humor (que acaba sendo engraçado por sua bizarrice, abrindo um paradoxo cômico que confunde qualquer um), o longa ainda nos “presenteia” com duas linhas românticas repletas de melodrama fajuto, onde as donzelas precisam lidar com as fraquezas de seus amados. No caso de Faustão, a geladeira; e caso de Mallandro, o comprometido estado emocional e talvez mental. Mas não é por isso que os romances não funcionam. Eles não convencem porque não possuem real introdução ou desenvolvimento no filme. Faustão parte para um piquenique e brota ao lado da suposta namorada com a “mágica do cinema“, frase dita pelo próprio personagem; e Mallandro, de uma hora para outra, diz que namora a dona de uma boate. Falando nesses pares românticos, aparentemente, as duas mulheres receberam treinamentos da Viúva Negra, pois protagonizam duas cenas de luta para defender seus namorados, uma delas, inclusive, iniciada pela sincera observação de Faustão ”é o seguinte, até agora, você não fez nada nesse filme; os homens vêm aí, portanto resolva essa parada”.

Aliás, a danceteria da namorada do Mallandro serve apenas para inserções musicais aleatórias com nomes famosos da época. Apesar de não servirem em nada à história, as interrupções trazem alguns dos poucos elementos que se salvam no filme, com nostalgia para quem gosta da música da época. Aparecem cantando no filme Guilherme Lamounier, com a estranha Eu Gosto é de Fazer o que ela Gosta; Sidney Magal (com um Mullet maravilhoso), interpretando Besame Mucho; e Sandra de Sá cantando Slogan, na melhor de todas as interpretações. Infelizmente, parece que nada pode ser completamente elogiável neste filme, e Wando nos entrega um número musical pavoroso, interpretando Eu Acho Que Estou Perdendo Você, destoando das demais inserções.

Mesmo com tanta coisa ruim o longa arranca risadas sinceras, apesar do vilão Tom Cru. Como o ”criativo” nome sugere, ele é uma versão piorada de Tom Cruise, um americano gordo e feio que veio ao Brasil para se relacionar com as brasileiras e, para alcançar isso, tenta comprar uma codorna que, supostamente, coloca ovos estimulantes sexuais (nem tente entender a coerência disso, até porque, depois descobrimos que os ovos têm uma “função mágica” completamente diferente). O fato de o vilão ser um americano que chega ao país e tenta se aproveitar das mulheres e animais poderia ser uma crítica interessante em meio a um emaranhado de bobagens. No entanto, qual a solução do roteiro? Inocentar Tom Cru, em uma patética cena de arrependimento e ainda “premiá-lo” com uma loira, impedindo a trama da obra de ter qualquer ponto digno de nota.

No caos de um roteiro que não sabe para onde vai, temos ainda uma deslocada cena de circo que [também] não se encaixa em nada e uma cena de leilão para “resolver” algo da trama que já estava resolvido. É o tipo de sequência feita para cumprir tabela, nesse caso, a necessidade de ter o “momento de pancadaria” da obra. Junto com as atuações tenebrosas de todo o elenco e a montagem, que deixa a história ainda mais sentido, fica a pergunta: por quê Inspetor Faustão e o Mallandro é um filme tão estranhamente engraçado? Vai ver este é um dos grandes mistérios da humanidade. O fato é que a obra se leva a sério e é ruim em tudo o que deveria fazer para funcionar. Por outro lado, o caráter B e a tosquice de todas as situações nos arrancam gargalhadas e faz crescer em nós um senso enorme de vergonha alheia, colocando a película na lista de filmes bizarros essenciais para qualquer cinéfilo que se preze e valorize um tsunami de emoções inclassificáveis no cinema. Coisas que só o Inspetor Faustão e o Mallandro são capazes de nos proporcionar.

Inspetor Faustão e o Mallandro: A Missão (Primeira e Única) — Brasil, 1991
Direção:  Mário Márcio Bandarra
Roteiro: Nelson Nadotti
Elenco: Fausto Silva, Sergio Mallandro, Cláudia Alencar, Caíque Benigno, Paola Bettega, Sylvinho Blau Blau, Chiquinho Brandão, Marcelo Caridad, Costinha, Sandra de Sá, Cláudio Gonzaga, Charles Gonçalves, Amauri Guarilha, Sylvia Guimarães, Sidney Magal, Luiza Tomé, Wando, Adriana Esteves, Paulo César Pereio
Duração: 85 min.

LUIANDO CAMPIAGO . . . O espelho abriu a boca e me engoliu. Como um gato com fome, um tanto mal-educado, completamente violento. Na hora eu não pensei em nada. O caso era esse: pelos meus crimes de falar mal de filmes ruins, fui condenado ao inferno, pelo meu povo, os Saporcos do planeta Porsapolândia. Eu morri, e vim para o inferno. Parece que aqui vocês chamam o lugar de Terra. Sabe-se lá por quê.