Crítica | Interestelar

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estrelas 4,5

Ao buscar uma imagem ideal para utilizar nesta crítica eu me deparei com um gigantesco problema: como tentar resumir Interestelar em apenas uma imagem? O problema se estende também para as palavras – trata-se de um filme de uma riqueza ímpar, uma verdadeira ficção-científica em seu mais puro estado, que retrata não viagens interestelares e sim o homem em uma dessas experiências. Apoiando-se, obviamente, em gigantes como 2001: Uma Odisseia no Espaço, Christopher Nolan constrói seu mais novo longa-metragem já gerando uma grande expectativa e, de uma hora para a outra, joga para o alto tudo o que esperávamos, nos trazendo uma experiência íntima, sensorial e definitivamente marcante. Certamente não ouso colocar em palavras, portanto, o que é o filme, mas, ao menos, os motivos pelos quais devemos – certamente – assisti-lo (nos cinemas).

Tudo começa no planeta Terra. A distopia que tanto vemos na ficção de hoje em dia se faz aqui presente e nos vemos diante de um possível fim para a raça humana. Nolan não gasta tempo nos explicando como tudo ficou daquele jeito, ao invés disso, no melhor estilo de A Estrada (que inspirou outras preciosidades como o game The Last of Us), nos coloca dentro dessa problemática. Os homens ainda lembram de como era antes, em diversos momentos ouvimos o “no meu tempo” ou “antes de tudo isso”, indicando não só um saudosismo dos personagens, como traços de esperança. A raça humana se adapta e sua sobrevivência depende disso – nisso acredita o ex-piloto da Nasa e atual fazendeiro, Cooper (Matthew McConaughey, de volta em seu sotaque texano). Movido pela esperança de salvar seus dois filhos do iminente destino que os aguarda, ele aceita a missão de encontrar um novo planeta para o homem, seguindo por uma viagem que o leva, através de um buraco de minhoca, para uma outra galáxia.

O estonteamento, porém, não começa quando, já fora da primeira meia-hora, o “lado espacial” se inicia. Muito pelo contrário, Christopher nos entrega um fascinante retrato da Terra, que a torna tão impressionante e ameaçadora quanto os diferentes planetas que vemos ao longo da projeção. Gigantescas tempestades de areia, representando uma desertificação do ambiente são visões constantes e criam, sem o menor dificuldade, a sensação de urgência que justifica a missão de Cooper. Com isso em mente, a cena de decolagem se mantém em nosso imaginário ainda como uma das mais marcantes dentro da obra, fazendo já o uso evidente e emblemático da fantástica trilha sonora de Hans Zimmer, que utiliza primariamente o órgão, para nos trazer melodias com um forte ar dramático, que muitas vezes se sobressaem em primeiro-plano.

Dado o início da jornada, Nolan nos leva por cenários tão impressionantes quanto, sabendo oscilar entre os grandes planos abertos – captando a espaçonave à distância – e os closes que fielmente transmitem as emoções de cada personagem. As cenas do espaço são verdadeiramente sufocantes, ao passo que utilizam uma retratação realista que não enche o grande vazio com  os pontos minúsculos brilhantes das estrelas. Da Terra à Saturno cada visão dos planetas soa única e na tela do cinema os vemos como se fosse a primeira vez, enfim, como se, de fato, estivéssemos no lugar daqueles solitários astronautas.

Mas o protagonista não nos deixa esquecer do porquê de tudo aquilo: sua família sempre fica em primeiro plano, seja através de seus diálogos ou dos momentos que assiste gravações enviadas por eles. Em uma performance de provocar lágrimas no espectador, McConaughey acerta em cheio, colocando em nós um verdadeiro medo pelo destino da raça humana, que rapidamente capta nossa identificação. Por mais que ele seja a verdadeira figura do herói, não podemos deixar de acreditar em sua retratação. Mais uma vez nos vemos em seu lugar, sendo puxados por aquela narrativa que, a este ponto, já conta com nossa total imersão. Em tais momentos, a trilha explosiva dá lugar a notas mais esparsas do piano, mas não deixa de chamar atenção. Trata-se, possivelmente, do melhor trabalho de Zimmer até então – e isso não é dizer pouco, considerando a música de O Cavaleiro das Trevas ou A Origem.

O êxtase que sentimos, seja no espaço, seja em um planeta distante ou até mesmo na Terra não seria possível, contudo, não fosse o sábio uso controlado do CGI. Com um conhecimento técnico sem igual, o diretor dispensa a computação gráfica em diversos momentos, optando por uma ênfase em efeitos práticos que dão um ar ainda mais realista à toda aquela odisseia. A beleza gráfica evidente, portanto, não se limita a um olhar do espectador sobre cenários ou objetos digitalmente construídos e sim sobre algo que realmente acreditamos estar percorrendo todas aquelas distâncias.

Mas não se enganem, ainda há muito CGI, mas nesses Nolan foi especialmente criterioso, principalmente em sua construção do buraco-negro, que contou com a participação do astrofísico Kip Thorne para garantir o máximo de precisão em tal retratação. Neste ponto posso dizer sem a menor sombra de dúvidas: trata-se de algo não visto antes no cinema e, por seus breves minutos, já valem a experiência completa do filme, ao ponto que cada giro em alta velocidade dos astronautas é praticamente sentida por nós espectadores. Mais do que nunca o IMAX é essencial, representando uma experiência única já dentro da proposta do diretor.

Infelizmente, essa experiência verdadeiramente imersiva nos perde, por instantes, já na sua metade, quando temos um foco no que ocorre no planeta Terra. Por mais que estejamos, claramente, diante de dois tempos distintos, nos vemos diante de um didatismo desnecessário, nos mostrando o que poderia causar muito mais impacto se fosse de nós ocultado. Com isso, alguns trechos da resolução acabam perdendo parte de seu impacto. Ainda assim, Nolan consegue nos recuperar no ato final de seu filme, adentrando de cabeça no terreno da ficção-científica (ou seria fantasia?), que certamente deixará muitos com uma notável dor de cabeça. Neste ponto, a similaridade com 2001 é inegável, mas sempre trilhando seu próprio caminho.

Interestelar é um filme obrigatório, que precisa ser visto no cinema. Trata-se de uma visão única, de um diretor único, sobre não apenas viagens espaciais, mas sobre o próprio homem. É uma experiência imersiva que nos leva pela contemplação e a angústia, nos colocando perfeitamente dentro dos sapatos de cada um dos personagens que assistimos em tela. Com marcantes atuações e uma trilha sonora com grande papel narrativo, Christopher Nolan nos traz mais uma inesquecível obra, talvez a sua melhor, em sua já invejável carreira.

Interestelar (Interstellar – EUA/ Reino Unido, 2014)
Direção: 
Christopher Nolan
Roteiro: 
Jonathan Nolan, Christopher Nolan
Elenco: 
Matthew McConaughey, Anne Hathaway, Jessica Chastain, Wes Bentley, Matt Damon, Mackenzie Foy, Michael Caine, Casey Affleck, Topher Grace, John Lithgow
Duração:
169 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.